A escritora Ana Maria Gonçalves, autora do imprescindível Um defeito de cor, conta na introdução ao livro (e me contou numa entrevista quando do lançamento da primeira edição, em 2006) como ela escolheu – ou foi escolhida – pelo tema a que se dedicou durante cinco anos.Não fosse uma estranha palavra chamada serendipidade talvez Ana Maria não tivesse escrito essa obra fundamental para o entendimento do Brasil, dos brasileiros e dos negros escravizados, que foram fundamentais na formação do país.Houaiss define serendipidade como sendo “aptidão, faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso”. Acontecimentos aparentemente fortuitos podem revelar o que pede para ser revelado, mas é preciso estar atento à linguagem enigmática com que o acaso se expressa.Um defeito de cor é fruto de sucessivas serendipidades – a autora revela. Cansada de morar em cidade grande, cansada da profissão de publicitária, saída de um casamento, Ana Maria procurava um novo jeito de viver – nesses momentos, quase sempre se pensa em viajar. A mineira de Ibiá estava numa seção de guias de viagem de uma livraria, separando temas que a interessavam, quando vários livros caíram da prateleira e, no atropelo de tentar evitar o desastre, ela conseguiu segurar um volume. Era Bahia de Todos os Santos, guia de ruas e mistérios, de Jorge Amado.Ali mesmo, de pé, Ana abriu o livro e leu o prólogo chamado Convite: “E quando a viola gemer nas mãos do seresteiro na rua trepidante da cidade mais agitada, não tenhas, moça, um minuto de indecisão. Atende ao chamado e vem. A Bahia te espera para sua festa cotidiana.” Leia também Conceição Freitas A vida só quer viver, que o diga o passarinho do Drummond Conceição Freitas A condoída arte de morar pendurada em perna de pau Conceição Freitas A paixão brasileira invade os perfis bem-comportados mundo afora Seguindo a leitura aleatória, folhas abertas ao léu, Ana Maria descobriu a mais importante revolta de negros escravizados em terras brasileiras, a dos malês. E, como se sabe, é este o tema do romance que por certo está na lista dos títulos fundamentais para se tentar entender com quantas feridas se fez um país. Sucederam-se outras serendipidades que levaram a autora a escrever Um defeito de cor, mas o spoiler para por aqui.Dias atrás algo mais ou menos parecido com um recado do além me aconteceu – e tenho uma testemunha, minha amiga Filó que me ajudava a limpar e organizar a muito bagunçada estante de literatura. Há tempos que aqueles livros não viam nem um espanador de pó, tanto que estava se tornando inviável qualquer busca e, muito mais grave, um risco à saúde. Pendurada num banquinho de madeira, eu retirava os livros do caos quando um deles escapuliu das minhas mãos.Olhei para o chão e vi o que eu estava procurando fazia tempo: Oswaldo Goeldi: iluminação, ilustração (Priscila Rossinetti Rufinoni, CosacNaif, 2006). No que peguei o volume, percebi que um livrinho minúsculo estava colado na contracapa do livro maior. Era A causa secreta, conto de Machado de Assis com ilustrações de Goeldi (CosacNaif, 2004). Tenho uma história secreta com esse livreto de 32 páginas que tem o tamanho de uma embalagem pequena de Maizena. Um encontro duplo ligado pelo traço contundente, profundo, moderno, original de Goeldi.Abri o livro maior, aleatoriamente, e caí num desenho de Goeldi publicado pela primeira vez em 1923 como uma das ilustrações do tal conto A causa secreta. O que vi não só os meus olhos viram – os dois amigos a quem consultei viram a mesma coisa que eu. Vale dizer que eles, como eu, somos meios ligados nessas coisas do mistério místico: O rosto que surge nos traços crispados, vindo da escuridão, é demasiadamente parecido com os traços de Lucio Costa, o arquiteto brasileiro que, entre outras coisas muito importantes, criou o Plano Piloto de Brasília e a quem tenho dedicado meus dias, minhas noites, meus fins de semana, meus sonhos dormindo e minhas alegrias acordadas.Na noite anterior a esse encontro com Goeldi, Machado e Lucio Costa, eu havia sonhado que estava lendo documentos antigos – coisa que mais tenho feito nos últimos meses – e um deles tinha uma data em negrito. Era o dia, o mês e o ano do meu nascimento. Eu, que cada vez menos tenho ilusões, sinto uma espécie de acalanto quando, serendipidamente, essas coisas me acontecem.* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.