A tecnologia de reconhecimento facial tem sido uma ferramenta que vem se mostrando eficaz na redução da criminalidade em várias cidades brasileiras. A prefeitura de São Paulo, por exemplo, relatou uma redução de 30% nos índices de roubo após a implantação do sistema, que também tem ajudado a identificar e capturar centenas de presos fugitivos em todo o país.Em Manaus, a Prefeitura anunciou recentemente que pretende implementar o sistema de reconhecimento facial para reforçar a segurança pública e monitorar áreas estratégicas da cidade, o que vem gerando expectativas por parte da população.É que a gestão municipal não divulgou quando o monitoramento facial começará a ser implantado e nem como irá operacionalizar o sistema.Técnicos que operam no Centro de Controle da Capital, no entanto, disseram que a estrutura atual atualmente pelo município não tem capacidade de atender sequer 1% da demanda necessária para implementar a fase inicial do projeto.Como os detalhes técnicos não foram ainda divulgados, o RealTime1 fez contato com duas empresas especializadas – uma brasileira e outra norte-americana – para entender quais as necessidades mínimas para a viabilidade desse tipo de tecnologia em uma cidade como Manaus, com mais de 2 milhões de habitantes e mais de 12 mil logradouros.Os especialistas consultados informaram que, para que um projeto desse porte seja eficiente, seria necessária a instalação de 5.000 câmeras IP de alta resolução (4K ou superior), equipadas com visão noturna, inteligência embarcada e capacidade de análise local dos dados. Essas câmeras precisariam ser distribuídas estrategicamente em postes de iluminação pública, semáforos e prédios de alta circulação para garantir uma cobertura eficiente da cidade.Volume massivo de informações para identificação facialAlém disso, o armazenamento e o processamento dos dados exigiriam a instalação de um data center com servidores dedicados, capazes de lidar com um volume massivo de informações em tempo real. Para esse processamento, seria necessário um sistema baseado em servidores GPU de alto desempenho, como os modelos NVIDIA A100 ou equivalentes, garantindo que a análise biométrica ocorra sem atrasos. A estimativa fornecida pelas empresas especializadas aponta que o armazenamento de imagens deveria ter capacidade mínima de 20 petabytes (PB) para arquivar os registros captados por pelo menos 30 dias, tempo essencial para investigações de segurança.Outro fator crítico para o funcionamento do reconhecimento facial é a infraestrutura de rede. A transmissão de imagens em tempo real exige um sistema de comunicação robusto, baseado em fibra óptica ou 5G, para garantir velocidade e estabilidade na transmissão de dados entre câmeras e servidores centrais. Redes redundantes seriam necessárias para evitar falhas de conexão, além de firewalls e criptografia de ponta a ponta para garantir a segurança cibernética do sistema e evitar vazamentos ou ataques hackers.O funcionamento eficiente do reconhecimento facial também depende de uma plataforma de inteligência artificial especializada, capaz de identificar padrões, comparar rostos e cruzar informações com bancos de dados de órgãos de segurança. No entanto, a cidade não possui um banco de dados biométrico próprio, o que representa um grande desafio para a implementação do projeto. Atualmente, as únicas bases biométricas disponíveis pertencem ao Detran e ao sistema da nova carteira de identidade, e o acesso a essas informações está sujeito a regulamentações da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).O sucesso do reconhecimento facial também depende de um planejamento estratégico para definir os 5.000 pontos de instalação das câmeras. O mapeamento dessas áreas deve levar em conta zonas de maior incidência criminal, fluxo populacional e regiões de interesse público, garantindo que a tecnologia seja aplicada de maneira eficaz e estratégica.Para isso, seria necessário um levantamento georreferenciado detalhado, que poderia envolver parcerias com especialistas em geoprocessamento e análise urbana. Esse mapeamento permitiria determinar a distribuição ideal das câmeras, evitando lacunas na cobertura e maximizando a eficiência do sistema.Desafios legais e privacidade do reconhecimento facial: o que diz a LGPD?O uso de reconhecimento facial envolve questões relacionadas à privacidade e proteção de dados. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD – Lei nº 13.709/2018) classifica imagens faciais como dados sensíveis, exigindo justificativa legal específica para sua coleta e uso. Para a implementação de um sistema desse porte, seria necessário garantir que a finalidade do uso das imagens esteja estritamente relacionada à segurança pública, além de assegurar transparência e controle sobre o acesso às informações captadas.O maior desafio legal para o reconhecimento facial está na acessibilidade ao banco de dados de imagens da população, pois as informações biométricas necessárias pertencem a órgãos como Detran e o sistema da nova carteira de identidade. O compartilhamento dessas informações depende de autorização legal, e a implementação do sistema sem um respaldo jurídico adequado pode levar a impasses administrativos e questionamentos na Justiça.A manutenção do sistema envolve a substituição periódica de equipamentos, além da atualização constante dos softwares de inteligência artificial. O custo anual para essas operações é estimado em R$ 30 milhões.A operação dos servidores e do data center exige um fornecimento de energia contínuo, com um custo anual previsto de R$ 48 milhões. Já os contratos de internet e conectividade somam aproximadamente R$ 21 milhões por ano.Outro ponto essencial é o treinamento da equipe técnica, garantindo que os profissionais estejam capacitados para lidar com atualizações e desafios operacionais. O projeto prevê a realização de cursos periódicos e simulações de segurança, demandando um investimento anual de R$ 12 milhões.Os custos totais de manutenção e operação do sistema chegam a R$ 111 milhões anuais, consolidando-se como um investimento essencial para garantir a estabilidade e a eficiência do sistema de reconhecimento facial.As informações fornecidas pelas consultorias especializadas apontam que uma cidade com mais de 2 milhões de habitantes precisaria dobrar os investimentos inicialmente estimados, além de resolver os entraves jurídicos do acesso a bases biométricas e garantir que a infraestrutura tecnológica acompanhe as necessidades de segurança da população.O sucesso desse tipo de tecnologia depende diretamente da estrutura oferecida e da integração com órgãos de segurança, sem os quais o sistema pode se tornar ineficiente e incapaz de oferecer o resultado esperado.Leia Mais:Concessão da BR-364 pode impulsionar agronegócio no Sul do AM, mas pedágio entra na contaSetor logístico alerta: alta do frete vai intensificar inflação no AM e elevar custos do PIM