Estamos na banca de jornal: as mãos de um avô tocam as pequenas mãos do neto ao trocar uma figurinha cromada, onde o afeto se faz presente…Agora adentramos a sala onde todos estão reunidos. O cheiro de pipoca no ar esconde o silêncio grave segundos antes de um pênalti. Isso e muito mais, é Copa do Mundo. Muito além das táticas de campo, o evento se consolida como uma potente âncora psicossocial. Leia Mais Copa do Mundo retoma debate sobre saúde mental de atletas profissionais Entenda lesão que pode deixar Neymar fora da estreia da Copa do Mundo Copa do Mundo: ameaças à saúde pública preocupam especialistas Em uma era marcada pela aceleração e pelo distanciamento digital, a Copa do Mundo opera como um ritual coletivo capaz de reorganizar nossas emoções, unindo o invisível do afeto à biologia do nosso cérebro.O Objeto Transicional e a Química do VínculoO fenômeno começa muito antes do apito inicial, materializado nos álbuns de figurinhas. Sob a ótica psicanalítica de Winnicott, o álbum e seus cromos funcionam como objetos transicionais. Eles operam como pontes tangíveis entre o mundo interno do indivíduo (seus desejos, fantasias e projeções) e a realidade externa compartilhada.A troca presencial impõe o olhar, a negociação e o desapego, subvertendo as barreiras geracionais em um código comum. Neuropsicologicamente, essa dinâmica é sustentada pelo sistema de recompensa mesolímbico: a busca pela figurinha rara dispara dopamina a cada pacote aberto. Quando há esse contato face a face, há uma liberação concomitante de ocitocina, o hormônio do vínculo, transformando o colecionismo em um poderoso cimento social que resgata a interação espontânea.A fusão dos Egos e a Sincronia NeuralAo olhar para a tela, assistir aos jogos em grupo, compartilhando emoções de angústia, alegria, frustração etc., isso promove uma diluição temporária das solidões cotidianas. Freud, em sua análise da psicologia das massas, aponta que o compartilhamento de um ideal comum permite uma regressão benigna do Ego, ou seja, as fronteiras rígidas da identidade individual se suavizam, permitindo que o sujeito se funda a uma comunidade maior; a angústia existencial é atenuada pela catarse coletiva do gol.Fisicamente, essa fusão é viabilizada pelos neurônios-espelho. Ao testemunharmos o triunfo ou a queda do atleta ou a frustração do torcedor ao lado, nosso cérebro simula internamente a mesma experiência. O resultado é uma sincronia neural coletiva: batimentos cardíacos e estados de alerta do grupo se alinham, promovendo validação mútua e reduzindo os níveis de cortisol, o que atua como antídoto direto ao isolamento social contemporâneo.Marcadores de Tempo: Nostalgia e consolidação da MemóriaA fixação indelével de onde estávamos, com quem assistimos a determinados jogos, que cheiros sentimos, revela a Copa como um marcador de tempo psíquico.Para a psicanálise, a nostalgia despertada pelo evento não é algo passivo, mas um refúgio de segurança psíquica, um reencontro com a infância e com os primeiros objetos de amor, compartilhamento e pertencimento.Essa permanência subjetiva encontra lastro na neuropsicologia da memória:Eventos de forte carga emocional ativam agudamente a amígdala, que atua como um amplificador para o hipocampo.Diante do clamor coletivo, o cérebro interpreta o momento como vital para a sobrevivência, registrando o contexto com precisão, eternizando o instante na biografia do sujeito.A Pausa Sagrada no Mundo HiperaceleradoPor fim, a Copa do Mundo impõe uma suspensão do tempo utilitário e produtivo, instaurando o que a antropologia e a psicanálise entendem como tempo do ritual e da festa. Trata-se de uma trégua temporária nas exigências punitivas do superego social: ali, o choro, o grito, o xingamento e a paralisação da rotina são legitimados.Ao desviar o foco das tarefas estressantes e das telas individuais para um macroevento presencial, permitimos que o cérebro descanse e se reorganize.O sociólogo Gustave Le Bon apontava que a massa possui uma alma coletiva transitória. Nela, os sentimentos coletivos são extremamente contagiosos e se propagam por sugestão. Se a energia da sala é de ansiedade antes do pênalti, essa ansiedade não é apenas somada, ela é multiplicada pelo grupo.Fazer parte desta massa gera uma profunda sensação de onipotência e segurança. O isolamento gera desamparo inconsciente. Ao compartilhar a torcida, o indivíduo sente que faz parte de um corpo gigante, invencível.A solidão existencial desaparece, pois você está “influenciado” pela presença e pelo eco do outro.Em suma, a Copa do Mundo sobrevive como um dos raros oásis da contemporaneidade, em que a biologia e a psique se alinham para nos lembrar de que, fundamentalmente, somos seres de conexão, presença e afeto, e que podemos ter uma trégua, dissolvendo o peso do “EU”, descansando na correnteza de um afeto comum…*Texto escrito pela psicóloga Marcia Lenci Viscomi (CRP: 06/17014)Vai viajar para a Copa do Mundo? Veja quais vacinas deve tomar