Você já ouviu falar sobre memória muscular? O termo é bastante usado por quem pratica atividade física, principalmente quando alguém retorna aos treinos após um tempo parado e percebe que os músculos “respondem” mais rápido do que o esperado.Embora o nome possa sugerir que os músculos armazenam lembranças como o cérebro, a explicação para o fenômeno é fisiológica e envolve adaptações celulares e neurais.Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a memória muscular é a capacidade que o corpo tem de reativar mais rapidamente os ganhos obtidos com treinos anteriores, mesmo após um período de inatividade. Leia Mais Abdominal: vale a pena fazer? Entenda para que serve e como fazer do jeito Ativação de glúteos na corrida: por que e como fazer “No pain, no gain”? O mito que pode estar acabando com seus resultados Essa recuperação acelerada ocorre porque o tecido muscular sofre alterações permanentes com a prática de exercícios. Durante o treino, principalmente de força, como a musculação, as fibras musculares sofrem pequenos danos que, ao se regenerarem, aumentam de tamanho.Nesse processo, há a multiplicação dos núcleos celulares dentro das fibras musculares — estruturas responsáveis pela síntese de proteínas e regeneração do tecido. Mesmo após um longo período sem treinar, esses núcleos extras permanecem, o que permite uma retomada mais rápida dos ganhos quando os estímulos voltam a acontecer.“Durante o treinamento, o cérebro cria caminhos mais eficientes entre os neurônios motores e as fibras musculares. Isso aumenta a recrutabilidade das unidades motoras, ou seja, mais fibras são ativadas com maior precisão, e melhora a sincronização muscular, resultando em contrações mais coordenadas e eficientes”, explica Flávia Magalhães, médica do esporte que tem mais de 20 anos de atuação na área.Além disso, há também uma adaptação neuromuscular envolvida. A prática regular de atividade física melhora a comunicação entre o sistema nervoso e os músculos, tornando os movimentos mais eficientes. Quando essa conexão é restabelecida, o corpo “lembra” como executar certos movimentos com mais facilidade, o que contribui para o desempenho.“No aspecto neuromuscular, relacionado ao aprendizado do movimento, já é possível observar resultados entre duas e oito semanas de treino. No aspecto celular, responsável pela formação das proteínas ligadas à regeneração e à hipertrofia, são necessários de três a seis meses de exercícios consistentes e com progressão de carga”, acrescenta Magalhães.Os especialistas destacam que a memória muscular é mais clara em quem já teve uma rotina consistente de treinos, com duração mínima de algumas semanas ou meses. Quanto maior o tempo de prática anterior, maior tende a ser a resposta do corpo ao retomar as atividades.“Ela é muito importante na recuperação muscular quando se recupera de uma lesão, por exemplo, ou quando se deixa de treinar por algum período. Tem papel também no aspecto comportamental, porque pode determinar uma motivação a mais para retorno aos programas de exercício. Para quem já teve a experiência do treinamento físico, a memória muscular será o grande impulsionador. Qualquer outro agente que tenha esse possível papel, seja ele medicamentoso, nutricional ou comportamental, vai precisar do estímulo muscular para ser mais efetivo”, explica Páblius Staduto Braga, médico do esporte do Hospital Nove de Julho.Embora não seja possível “acelerar” artificialmente esse processo, manter uma alimentação equilibrada, respeitar o tempo de descanso e seguir um plano de treinos adaptado à condição atual do corpo são atitudes que favorecem a recuperação da força e da resistência muscular.Abdominal: vale a pena fazer? Entenda para que serve