Patrocínio no fitness virou risco reputacional, e quase ninguém percebeu

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Por fora, a imagem perfeita do sucesso: 22 anos, milhões de seguidores, um corpo que muita gente queria copiar. Por dentro, um coração que não aguentou. O rapaz morreu há poucas semanas, em São Paulo, e o laudo preliminar apontou cardiomiopatia hipertrófica, espessamento do músculo cardíaco que o uso de anabolizantes agrava. O caso segue sob investigação. Não vou repetir o nome dele aqui, porque já circulou demais, e porque transformar uma morte em gancho é parte do problema que quero discutir.O que mudou não foi o anabolizante. Ele existe há décadas, e o esporte sempre conviveu com essa zona cinzenta. O que mudou foi a plateia.Quem treinava nos anos 80 e 90 aprendia o ofício devagar, lendo, errando, ouvindo quem tinha mais estrada. Havia uma cultura de estudo, ainda que imperfeita. Hoje é outra coisa: um jovem que precisa crescer rápido, não para subir num palco de competição, mas no feed. A pressa não é mais por um troféu. É por relevância, por contrato, por mais um corte viral. O corpo virou portfólio, e o portfólio precisa de entrega semanal.Nesse ambiente, o perigo maior não mora no atleta. Mora no intermediário. O perfil que ensina protocolo sem ter formação, o “coach” que receita o que nenhum médico pode receitar, o podcast que chama o garoto de fenômeno enquanto ele se afunda numa dosagem que ninguém auditou. Vale lembrar uma coisa que escapa do debate: desde 2023, a Resolução 2.333 do Conselho Federal de Medicina veda a prescrição de esteroides e anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular ou desempenho esportivo, para amador ou profissional. Ou seja, o acompanhamento médico legítimo aqui não é o que receita o ciclo. É o que pede o exame, lê o resultado e tem coragem de mandar parar.E é aí que entra um detalhe cruel desse tipo de doença: ela costuma ser silenciosa. Em muitos casos, a cardiomiopatia hipertrófica não dá aviso claro, e a morte súbita acaba sendo o primeiro e único sintoma. É por isso que o exame periódico não é luxo nem frescura. Eletrocardiograma, ecocardiograma, exame de sangue. Um coração que se transforma deixa rastros, mas só para quem procura. A diferença entre um susto e uma manchete às vezes mora num laudo que ninguém leu a tempo, porque se cuidar não rende engajamento.Quero ser justo com quem leva o esporte a sério. A maioria dos atletas que conheço estuda, se cerca de profissionais e não confunde disciplina com autodestruição. O fisiculturismo não é o vilão. O vilão é a romantização: a estética do sofrimento extremo vendida como mérito, a ideia de que dor sem limite é seriedade, a narrativa de que existe um atalho e quem não toma é frouxo. Essa romantização não nasce na academia. Nasce na tela, onde sofrimento dá audiência e cautela dá tédio.Agora o ponto que interessa a quem dirige empresa, e que costuma ser ignorado até virar crise.As marcas estabelecidas do setor não são, por princípio, causadoras desse problema. Muitas vezes, estão entre as primeiras prejudicadas por ele. Quando um patrocinado faz apologia velada ao uso, posta o resultado e silencia sobre o método, quem está estampado ao lado vira réu no tribunal da opinião pública, mesmo sem ter pecado. E o risco se espalha por todo o ecossistema. A marca de roupa é a mais exposta: o logo está literalmente no corpo do post, é a associação mais visível e a menos controlável. A de suplemento carrega o peso simbólico de quem entrega resultado. E as academias, palco físico de boa parte desse conteúdo, são o cenário onde a cultura do excesso se constrói ou se contém. Nenhuma delas mandou ninguém tomar nada. Mas todas aparecem na foto.O dano, nesses casos, não é jurídico no sentido estrito. É reputacional, e reputação não tem liminar.O problema é que boa parte do contrato de patrocínio no setor ainda é insegura e ineficaz nesse ponto. Trata de exclusividade, número de posts, uso de imagem, e esquece o essencial: o que acontece se o influenciador associar a marca a uma conduta de risco à saúde. Isso não significa que a empresa seja descuidada. Significa que o mercado mudou mais rápido que os contratos. Não é caso de censurar ninguém, é caso de governança. Cláusula de conduta. Compromisso expresso de não estimular uso de substância proibida. Direito de encerrar o vínculo sem indenização diante de associação a prática que contraria norma sanitária ou médica. Critério mínimo de seleção de quem carrega a marca no corpo.Para as academias, há uma vantagem que poucas exploram: ser a rede conhecida por promover saúde de verdade, e não a estética do limite, virou ativo de marca num momento em que o público começa a desconfiar do excesso. Liderar essa cultura, em vez de só conviver com ela, virou diferencial competitivo.Chamam isso de juridiquês. É autopreservação pura. A empresa que organiza essa casa não está apontando o dedo para o mercado. Está se protegendo de um risco que o próprio mercado normalizou.O recado, no fim, é simples. Para a comunidade fitness: não existe atalho que valha um coração. Para quem produz conteúdo: influência traz responsabilidade, e aplaudir o excesso alheio tem custo humano. E para as marcas: a próxima crise do setor não vai começar num laboratório nem num tribunal. Vai começar num post. Quem entender isso antes vai estar protegido. Quem só perceber depois vai estar explicando.Romantizar o limite sempre rendeu bons números. Mas número nenhum paga a conta quando ela chega.