João Saldanha é uma das figuras mais marcantes da história do futebol brasileiro. Ele foi um comentarista brilhante e, por causa da popularidade, a CBD (atual CBF) o chamou para comandar a seleção em 1969. O objetivo era recuperar o moral da equipe, abalado desde a derrota em 1966, no mundial da Inglaterra. A redenção veio quatro anos depois com a conquista do tricampeonato.Polêmico, temperamental e comunista, Saldanha foi chamado para apagar um incêndio. O biógrafo dele, o escritor André Iki Siqueira, revela que a estratégia de João Havelange, então presidente da CBD, era calar o maior crítico da Confederação: o próprio Saldanha. Havelange sonhava com a presidência da FIFA, fato que se consumou em 1974, e sabia que o tricampeonato seria fundamental para suas aspirações. Sobre a eliminação do Brasil em 1966, João Saldanha fez a seguinte análise: “Quem no Brasil não sabe que a causa de nossa derrota foi a presunção e a incompetência? Só os ‘enlatados’. Mas estes, coitados, podem ser compreendidos. Afinal de contas vivem disso” (Última Hora 22/08/1966).João Saldanha, chamado de “João sem medo” por Nelson Rodrigues, sempre teve uma verve afiada e era um crítico dos cartolas e da própria CBD. Mas os dirigentes acreditavam que ele, por ser uma pessoa popular, como comentarista de rádio e de TV, e ter bom trânsito com cartolas paulistas e cariocas, poderia ajudar a melhorar a imagem e a confiança da torcida na seleção. Campeão carioca como treinador pelo Botafogo, em 1957, Saldanha falava fácil e revolucionou a forma de analisar o futebol nos meios de comunicação. Com as “Feras de Saldanha”, a seleção se classificou com facilidade para a Copa de 1970, no México. No entanto, os militares começaram a implicar com o treinador e até o presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, cobrava, via auxiliares, a convocação de Dario. Saldanha criticava a imprensa, colecionava inimigos, e, talvez, o fato mais grave foi quando, em 12 de março de 1970, saiu armado atrás do técnico Yustrich, do Flamengo, depois de ter sido chamado por este de ignorante, falastrão, mentiroso e ser acusado de não conhecer futebol. O incidente foi a gota d’água: em 17 de março de 1970, 78 dias antes da estreia do Brasil na Copa, João Havelange resolveu demitir João Saldanha. Já fora do cargo e substituído por Zagallo, ele escreveu o que chamou de “Carta aberta ao futebol brasileiro” para a edição da revista Placar de 27 de março de 1970, dando as impressões dele sobre a crise e a demissão. Chamou o médico Lídio Toledo de traidor, em razão da polêmica sobre um problema de miopia de Pelé, e defendeu uma espécie de intervenção na CBD. Citou as pressões para a convocação do jogador Dario e concluiu: “vamos dar apoio à seleção brasileira, mas vamos livrar a seleção da sujeira”.Saldanha seguiu a vida e com a carreira de comentarista. Funcionário do Grupo Globo, trabalhou nas transmissões da TV na Copa de 1970, ao lado do narrador Geraldo José de Almeida. Sugiro aos amigos que me acompanham por aqui o livro “João Saldanha, uma vida em jogo” de André Iki Siqueira.