Jovens no Brasil são mais ou menos conservadores do que os mais velhos? O que pesquisa descobriu sobre a geração Z

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Jovens no Brasil são mais ou menos conservadores do que os mais velhos? O que pesquisa descobriu sobre a geração ZAdobe StockA ideia de que a geração Z estaria se tornando mais conservadora do que os mais velhos ganhou força nos últimos anos, impulsionada por pesquisas realizadas em outros países e por fenômenos culturais como Adolescência, a segunda série mais vista da história da Netflix. Mas um novo estudo sugere que a história pode ser diferente — ao menos no Brasil.Segundo o levantamento, realizado pela Quaest a pedido do instituto More in Common, embora a maioria dos jovens brasileiros de 16 a 24 anos — faixa etária que concentra a maior parte da geração Z — se identifiquem como conservadores (68% entre os homens e 62% entre as mulheres), esses índices são menores do que os registrados entre as gerações mais velhas, como mostra o gráfico abaixo.'Adolescência': Crise nas escolas exige medida radical para 'impedir que meninos machuquem meninas e a si mesmos', diz criador da sérieA pesquisa retrata uma juventude que ocupa uma posição intermediária no debate de costumes: embora demonstrem maior apoio à igualdade de direitos para as mulheres, os jovens — especialmente os homens — mantêm resistência a rótulos como feminismo e a algumas minorias sociais como travestis e mulheres trans."Descobrimos que o conservadorismo não tem uma especificidade geracional", diz Helena Vieira, professora e gestora cultural que atuou como consultora do estudo. "Existe uma aceitação de determinados conteúdos políticos, mas uma rejeição das identidades políticas que os mobilizam."Agora no g1Homossexualidade e feminismoA pesquisa registrou opiniões que, embora tratem de temas correlatos, podem parecer contraditórias.Um exemplo é o debate sobre a homossexualidade: cerca de 70% dos homens e 83% das mulheres jovens concordam que "casais gays devem ter o direito de adotar crianças", mas mais da metade também diz concordar com a ideia de que "a homossexualidade deve ser vivida entre quatro paredes, de maneira reservada".Helena Vieira propõe uma interpretação para essas respostas que, à primeira vista, podem soar contraditórias. Em sua avaliação, a concordância com a adoção homoparental não estaria, necessariamente, ligada à aceitação de casais gays."A sociedade tem uma preocupação em tirar essas crianças da ausência de uma família, ou seja, em cuidar delas. É uma espécie de solidariedade com a infância, e é difícil dizer não para isso", ela explica.Paradoxos semelhantes foram observados nas perguntas sobre gênero. Embora menos de um quarto dos jovens tenha concordado que "homens são superiores às mulheres", quase metade endossou afirmações críticas ao feminismo, entre elas a de que "o feminismo promove ódio aos homens" e que "a ideologia feminista é uma ameaça à família brasileira".Os questionamentos sobre o ensino da chamada "ideologia de gênero" também despertaram respostas mais alinhadas ao conservadorismo: entre os jovens, 59% concordam que o tema, ao ser discutido nas escolas, "confunde a sexualidade das crianças", e 55% afirmam que a sexualidade "é assunto a ser tratado somente pela família, não pela escola".Para Vieira, os dados sugerem que os jovens podem até concordar com reivindicações associadas à igualdade de direitos, mas reagem de forma diferente quando elas são apresentadas sob a bandeira de algum movimento político."Boa parte dos brasileiros é contra falar de gênero na escola, mas quando você pergunta se precisamos fazer alguma coisa contra o bullying, algo para os meninos afeminados não apanharem, aí sim, precisa. Tem um sentimento quase religioso de ser contra ver uma criança apanhar. É uma lógica protetiva mais relacionada às relações interpessoais do que às relações políticas", ela exemplifica.A pesquisa não encontrou, em nenhuma das perguntas feitas, evidência de que os jovens sejam mais conservadores do que os mais velhos. Mesmo nos casos em que uma parcela ligeiramente maior deles tenha concordado com afirmações conservadoras, a diferença é algo que tende a ser absorvido pela margem de erro do estudo, que pode ser verificada nos gráficos exibidos na reportagem.Homens jovens são mais bolsonaristasOutro achado do estudo é que o bolsonarismo é mais forte entre homens jovens do que entre os mais velhos, apesar de a identificação com a direita variar pouco entre os diferentes grupos etários.Entre os homens de 16 a 24 anos, 42% afirmam se identificar com ideias defendidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e por seus apoiadores políticos. O percentual cai para cerca de 35% entre aqueles de 25 a 54 anos, para 29% entre os de 55 a 64 e para 25% entre os maiores de 65 anos.Mesmo considerando a margem de erro, que chega a quatro pontos percentuais para mais ou para menos na última faixa etária, a distância em relação aos mais jovens se mantém.Pode mais uma vez parecer contraditório que, embora sejam menos conservadores, os jovens sejam mais bolsonaristas — afinal, o próprio Bolsonaro se diz conservador e fez inúmeras declarações contra a igualdade de gênero e o direito das chamadas minorias sociais como os homossexuais.Essa diferença é algo que os pesquisadores constataram, sem se propor a explicar, mas Vieira esboça uma hipótese, dizendo que "o voto é uma composição complexa"."Os bolsonaristas não necessariamente compraram o pacote inteiro do Bolsonaro e todas as declarações dele", ela analisa. "É possível encontrar pessoas desse universo que têm posições mais diversas, assim como podemos encontrar eleitores do Lula, talvez até a maior parte deles, que dizem ser conservadores.""O conservadorismo talvez seja a gramática política que mais organiza o brasileiro. O que a gente observou na pesquisa é que a oposição entre conservadorismo e progressismo é mais intensa do que entre esquerda e direita ou entre liberdade econômica ou economia planificada", Vieira acrescenta.Como a pesquisa foi feitaA Quaest fez 14 perguntas a cerca de 10 mil brasileiros em seus domicílios. Os questionamentos ocupavam três eixos — gênero, sexualidade e política.As entrevistas aconteceram entre janeiro e fevereiro de 2025, como parte de uma pesquisa mais ampla chamada O Brasil Invisível, na qual também foram feitas perguntas sobre outras áreas controversas do debate público para conclui que o país está menos dividido do que parece. O recorte por faixa etária e gênero, porém, só está sendo divulgado agora.Os participantes do estudo responderam aos questionamentos listados abaixo. O objetivo, ressaltam os pesquisadores, não era medir suas posições sobre esses temas, mas utilizá-los como um instrumento para avaliar o grau de adesão a ideias conservadoras ou progressistas.Identidade de gêneroEu concordo, muito ou um pouco, que…Os papéis de homens e mulheres são e devem ser diferentes;Homens são superiores às mulheres;Hoje em dia os direitos das mulheres valem mais do que os direitos dos homens;O feminismo promove ódio aos homens;A ideologia feminista é uma ameaça para a família brasileira;Casais gays devem ter o direito de adotar crianças;A homossexualidade deve ser vivida entre quatro paredes, de maneira reservada;A ideologia de gênero nas escolas confunde a sexualidade das crianças;Sexualidade é assunto a ser tratado somente pela família, não pela escola;O SUS deve pagar pelas cirurgias de mudança de sexo;Travestis devem ter o direito de usar o banheiro feminino.Identidade políticaEu me identifico muito ou um pouco com…A direita;O conservadorismo;O bolsonarismo.Como as perguntas foram feitas — e por que isso importaA forma como as perguntas foram formuladas também pode chamar atenção. Vieira reconhece que algumas delas podem soar até preconceituosas, mas afirma que isso foi deliberado.A consultora da pesquisa, que também é ativista transgênero, usa uma dessas questões para ilustrar seu argumento. O enunciado era: "travestis devem ter o direito de usar o banheiro feminino". Se a frase tivesse sido redigida de modo a incluir também mulheres trans, o resultado poderia ter sido diferente?Vieira diz acreditar que sim, mas afirma que a escolha do termo foi proposital. "Usamos o que mais circula socialmente: de modo geral, a sociedade brasileira olha para a mulher trans como travesti. Na verdade, travesti é até um termo educado, porque a forma como os brasileiros chamam mulheres transexuais é outra palavra mais ofensiva", ela diz.Esta, aliás, foi a questão que despertou maior resistência entre os homens jovens. Apenas 19% deles disseram concordar que travestis devam ter acesso a banheiros femininos.Vieira associa isso ao fato de o debate sobre os direitos das pessoas trans ter ganhado visibilidade mais tarde do que outras pautas igualitárias, tanto no noticiário quanto em produtos culturais de grande alcance, como as telenovelas.O que pode explicar a diferença com estudos estrangeirosNa avaliação dos pesquisadores brasileiros, a discrepância entre o estudo brasileiro e os estrangeiros se deve às metodologias adotadas — no exterior, eles têm sido feitos, em geral, a partir de entrevistas virtuais, enquanto no Brasil foram realizadas entrevistas presenciais, com um esforço para abranger diferentes perfis da população.Diretor-executivo do More in Common e professor de gestão de políticas públicas da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado diz que pesquisas virtuais podem gerar distorções — principalmente no Brasil, devido às limitações de acesso à internet em determinadas regiões e entre diferentes classes sociais — e têm maior probabilidade de alcançar públicos que já se identificam ou se interessam pelo debate, o que pode gerar respostas enviesadas."Pela internet, são as pessoas que aceitam participar, porque querem colaborar ou até porque recebem alguma remuneração. Esse caráter mais voluntário de o entrevistado aderir ao painel, e não o contrário, pode gerar viés de seleção, porque podem ser recrutadas pessoas que estão querendo falar, com determinadas características que as distorcem em relação à população em geral", diz Ortellado.Uma das pesquisas feitas dessa maneira foi a do King's College com o Ipsos. Os próprios pesquisadores, no entanto, alertaram que suas conclusões não representavam a população em geral, mas segmentos mais conectados e urbanos — uma limitação especialmente relevante em um país com diferenças tão amplas.Publicada em março, a pesquisa do King's College ouviu 23.268 pessoas em 29 países, incluindo o Brasil, entre dezembro e janeiro. A principal conclusão foi que a geração Z está mais conservadora do que os millennials, grupo que reúne adultos de 30 a 45 anos. Embora os dados por faixa etária não tenham sido divulgados para cada país — o que impede verificar se esse padrão também se aplica ao Brasil —, os achados gerais do estudo divergem dos resultados da pesquisa da Quaest.O problema, diz Ortellado, esteve menos nos estudos e mais na forma como suas conclusões foram interpretadas e amplificadas por reportagens e fenômenos culturais.Ele cita como exemplo a série Adolescência, sobre um garoto que assassina uma colega sob influência de comunidades misóginas na internet, e a popularização da machosfera, como são chamadas as comunidades masculinistas da internet, e do movimento looksmaxxing.Tratam-se de vídeos curtos, muito comuns no TikTok, que incentivam jovens a modificar a própria aparência — por meio de mudanças de hábitos, estilo e até procedimentos estéticos — com o objetivo de se tornarem mais masculinos.Segundo Ortellado, quando esses fenômenos ganham grande repercussão na mídia, pode surgir a impressão de que a masculinidade exacerbada entre os jovens é mais disseminada do que realmente é.Isso não significa, ressalta ele, que esses movimentos não existam ou deixem de ser motivo de preocupação. Mas eles podem representar apenas uma parcela da juventude — justamente a mais conectada às redes sociais e que, por isso, tende a estar mais presente em pesquisas feitas pela internet como a do King's College."A internet não é um retrato fiel da sociedade brasileira", ele diz. "Muitas dessas coisas são fenômenos de nicho. Não devemos menosprezá-las. Tem fenômenos muito preocupantes. Existe misoginia organizada na internet e ela é preocupante. Precisa ser monitorada e combatida. Mas os dados sugerem que isso não parece ser um fenômeno de massa."Os pesquisadores também ressaltam que a pesquisa brasileira não é definitiva sobre o tema, que ainda demanda mais estudos. Não é possível saber, por exemplo, se os brasileiros que hoje têm entre 25 e 34 anos eram menos conservadores uma década atrás, quando estavam na faixa dos 16 aos 24 anos.Essa é uma questão central para compreender se há uma mudança de valores entre os brasileiros. Ainda não se sabe se as pessoas se tornam mais conservadoras com o passar dos anos ou se as diferenças observadas entre as gerações de hoje tendem a persistir ao longo do tempo, por exemplo.Gráficos por Caroline Souza, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil