O lixo que sai de nossas casas, dos comércios e das indústrias não precisa terminar sua trajetória em um aterro sanitário. Parte desses materiais pode retornar à cadeia produtiva, substituir matérias-primas virgens e contribuir para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Transformar essa possibilidade em realidade, entretanto, exige infraestrutura, tecnologia, planejamento e, sobretudo, uma mudança na maneira como a sociedade encara aquilo que descarta. É nesse contexto que os ecoparques operados pela Veolia em Brusque e Blumenau, em Santa Catarina, ganham importância.As unidades integram uma estrutura de gestão de resíduos que envolve coleta, tratamento, recuperação de materiais e alternativas de valorização energética. O trabalho mostra como a economia circular pode sair do discurso e chegar à operação cotidiana das cidades.A Veolia é líder mundial em serviços ambientais, com atuação nas áreas de água, resíduos e energia. Sua presença em Santa Catarina inclui serviços de coleta domiciliar, coleta seletiva em municípios atendidos e diferentes tecnologias para o tratamento e a destinação de resíduos.Mas, para compreender a importância desse trabalho, é preciso olhar além dos caminhões de coleta e das instalações industriais. A questão central é o destino dos materiais depois que deixam de ter utilidade para quem os descartou — e o impacto ambiental que pode ser evitado quando eles encontram uma nova finalidade.Com a Unidade de Triagem Mecanizada, resíduos da coleta comum deixam de ir para o aterro e são separados por tipo. Fotos: Natasha OlsenBrusque aposta na tecnologia para ampliar a reciclagemEm abril de 2026, o EcoParque Brusque recebeu uma Unidade de Triagem Mecanizada (UTM) da plataforma Ciclare, iniciativa desenvolvida em parceria com a eureciclo e a Just Climate, com financiamento do BID Invest. A Veolia abriga a instalação e é responsável por sua operação.A nova estrutura representa um avanço importante diante de um dos principais desafios brasileiros: recuperar materiais recicláveis que ainda seguem misturados aos resíduos domiciliares e acabam perdidos em aterros sanitários.Com capacidade para processar até 220 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, a unidade tem potencial para recuperar aproximadamente 15 mil toneladas anuais de materiais recicláveis, como plásticos e metais. A estimativa divulgada pelos responsáveis pelo projeto é evitar cerca de 33 mil toneladas de emissões de CO₂ equivalente por ano.Planta de triagem mecanizada combina diferentes tecnologias. Foto: Natasha Olsen Leia também: 1.Resíduos: enterrar melhor não basta 2.Tecnologia separa recicláveis em “lixo” residencial comum A tecnologia utiliza sistemas automatizados e separadores ópticos capazes de identificar e classificar diferentes materiais. Na prática, isso amplia a possibilidade de recuperar recicláveis que não foram separados adequadamente na origem, reinserindo-os na cadeia produtiva.O resultado esperado vai além de reduzir o volume encaminhado aos aterros. Quando plástico, metal, papel e outros materiais retornam à indústria, diminui a necessidade de extrair e processar novas matérias-primas. Dependendo do material e do processo industrial substituído, isso também pode representar uma economia expressiva de energia e emissões.A iniciativa não elimina a importância da coleta seletiva feita nas residências, nos estabelecimentos comerciais e nas empresas. Pelo contrário: a separação correta na origem continua sendo fundamental para melhorar a qualidade dos materiais recuperados. A triagem mecanizada funciona como uma camada adicional de recuperação, capaz de aproveitar parte do que ainda escapa desse processo.Triagem de reaíduos inclui tecnologia de ponta e mão de obra especializada. Foto: Reinaldo Canto Leia também: 1.Como a Turquia transformou resíduos em riqueza 2.Cientistas transformam resíduos de PVC em lubrificante Blumenau: resíduos também podem gerar energiaNo EcoParque Blumenau, a atuação inclui diferentes alternativas de tratamento e valorização de resíduos, entre elas o aproveitamento energético de materiais industriais.Uma dessas soluções é a transformação de resíduos com características adequadas em combustível derivado de resíduos (CDR), utilizado como alternativa a combustíveis fósseis em processos industriais, como o da fabricação de cimento. A Veolia também opera em Blumenau uma unidade de valorização energética que transforma em energia cerca de 3 mil toneladas anuais de resíduos de diferentes indústrias, segundo informações divulgadas pela companhia.É importante fazer uma distinção: reciclar um material e utilizá-lo para produzir energia não são a mesma coisa. Na reciclagem, o material retorna à cadeia produtiva como matéria-prima. No aproveitamento energético, seu conteúdo energético é utilizado para substituir outra fonte de combustível.O CDR (Combustível Derivado de Resíduos) pode substituir combustíveis fósseis na indústria cimenteira. Foto: Natasha OlsenAmbas as alternativas podem contribuir para reduzir a quantidade de resíduos enviada aos aterros e diminuir determinados impactos ambientais, desde que aplicadas aos materiais adequados e com controles ambientais rigorosos. A prioridade deve continuar sendo evitar a geração desnecessária de resíduos, reutilizar produtos e reciclar materiais sempre que houver viabilidade técnica e ambiental.A valorização energética tem seu papel, sobretudo para resíduos que não encontram uma rota de reciclagem material viável. Não deve, contudo, ser confundida com uma solução universal para o lixo ou servir de justificativa para reduzir os esforços de reciclagem. Leia também: 1.USP transforma resíduos em energia, biometano e biofertilizante 2.Calculadora converte resíduos agroindustriais em créditos de carbono Oktoberfest: uma grande festa e grandes volumes de resíduosA Oktoberfest de Blumenau é um exemplo de como a gestão ambiental precisa acompanhar a dimensão dos eventos que movimentam milhares de pessoas, geram empregos e impulsionam a economia local.Pelo quinto ano consecutivo em 2026, a Veolia participa como parceira de sustentabilidade da festa. O trabalho envolve a coleta e a destinação dos resíduos, a oferta gratuita de água ultrafiltrada e o monitoramento de indicadores de consumo de água e energia.Em Blumenau, a Veolia participa da gestão de resíduos da Oktoberfest. Foto: Reinaldo CantoNa edição de 2025, foram coletadas 123 toneladas de resíduos ao longo dos 19 dias do evento. Segundo o balanço divulgado pela organização, todo esse material foi reaproveitado como combustível derivado de resíduos ou encaminhado para reciclagem, evitando seu envio ao aterro sanitário.O número ajuda a dimensionar o desafio. Copos, embalagens, restos de materiais e outros resíduos se acumulam em grandes quantidades durante uma festa que reúne moradores e turistas. Sem uma operação planejada, esse volume poderia representar uma pressão adicional sobre os sistemas municipais de coleta e destinação.A parceria também inclui iniciativas para reduzir o consumo de embalagens descartáveis. Nas edições de 2023 e 2025, foram distribuídos, ao todo, 84 mil litros de água ultrafiltrada gratuitamente ao público, volume equivalente a aproximadamente 168 mil garrafas plásticas de 500 mililitros que deixaram de circular na festa, conforme os dados divulgados pela organização.Oktoberfest em Blumenau, Santa Catarina. Foto: Reinaldo CantoOutro destaque é o monitoramento de recursos. Desde 2024, a operação conta com sensores e hidrômetros que acompanham o consumo de água e energia, além de indicadores relacionados aos resíduos. Os dados permitem identificar oportunidades para tornar a estrutura mais eficiente e orientar melhorias nas edições seguintes.São iniciativas que mostram como a sustentabilidade de um evento não se limita à comunicação ou à adoção de ações pontuais. Ela depende de planejamento, acompanhamento de resultados e decisões práticas sobre a utilização de recursos e a destinação dos materiais descartados. Leia também: 1.Coala leva gestão de resíduos para sua 12ª edição 2.Copo reutilizável reduz impacto ambiental de grandes eventos No Brasil, ainda reciclamos poucoOs resultados alcançados em Brusque e Blumenau mostram que tecnologia e gestão podem ampliar o aproveitamento dos resíduos. Mas também evidenciam a distância entre o que já é possível fazer e a realidade da gestão de resíduos em boa parte do Brasil.De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), o país gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024. Desse total, 76,4 milhões de toneladas foram coletadas. A destinação adequada em aterros sanitários recebeu 41,4 milhões de toneladas, enquanto 40,3% do volume gerado teve destinação final inadequada, incluindo lixões e aterros controlados.Tratamento de resíduos é monitorado por câmeras em Ecoparque da Veolia. Foto: Reinaldo CantoO índice de reciclagem também merece atenção. Considerando a recuperação de resíduos secos, como papel, plástico, vidro e metais, o levantamento estima que foram recicladas mecanicamente cerca de 7,1 milhões de toneladas em 2024, o equivalente a aproximadamente 8,7% dos resíduos sólidos urbanos gerados. O mesmo estudo apresenta um índice mais amplo de 20,4% quando incorpora diferentes modalidades de valorização orgânica e bioenergética, com metodologias e resultados distintos da reciclagem material.A diferença entre esses indicadores é importante: transformar resíduos em energia pode evitar emissões e reduzir a disposição final, mas não significa que os materiais tenham sido reciclados para voltar à fabricação de novos produtos.Os números deixam claro que o desafio brasileiro não será resolvido apenas com novas tecnologias. É preciso ampliar a coleta seletiva, melhorar a infraestrutura municipal, fortalecer cooperativas e catadores, criar mercados para os materiais reciclados e estimular a responsabilidade compartilhada entre governos, empresas e consumidores.A Política Nacional de Resíduos Sólidos já estabelece princípios como a redução da geração, a reutilização, a reciclagem e a destinação ambientalmente adequada. O problema está em transformar essas diretrizes em resultados mais abrangentes e consistentes. Leia também: 1.Brasil recicla apenas 20% dos resíduos têxteis que produz 2.Brasil bate recorde mundial de latinhas para reciclagem O que muda quando o lixo deixa de ser apenas descarte?A contribuição ambiental da recuperação de resíduos acontece por diferentes caminhos. A reciclagem pode evitar emissões associadas à extração e ao processamento de matérias-primas virgens. O desvio de resíduos dos aterros reduz a pressão sobre essas estruturas e pode evitar emissões relacionadas à decomposição de materiais orgânicos, especialmente quando não há captura eficiente do metano. Já o aproveitamento energético de determinados resíduos pode substituir combustíveis fósseis em processos industriais.Os resultados efetivos dependem do tipo de material, da tecnologia utilizada, do transporte e da atividade que deixa de ser realizada. Por isso, os benefícios climáticos precisam ser avaliados com critérios técnicos, sem presumir que todo resíduo recuperado produza a mesma redução de emissões.Planta inaugurada em Brusque pode separar 15 mil toneladas de recicláveis por ano. Foto: Natasha OlsenNo caso da nova unidade de Brusque, a estimativa de evitar 33 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano indica o potencial climático anunciado para a operação. O resultado efetivamente alcançado dependerá do desempenho da unidade e das condições consideradas no cálculo.A discussão também passa por uma mudança cultural. O resíduo não deixa de existir quando o caminhão desaparece da rua. Ele apenas muda de lugar. A responsabilidade ambiental começa muito antes da coleta, com escolhas de consumo, redução de desperdícios e separação correta dos materiais, e continua depois dela, com sistemas capazes de recuperar recursos e dar a eles uma destinação adequada. Leia também: 1.Xangai reduz em 98% resíduos industriais com reciclagem 2.Mercado de resíduos: uma fonte de investimentos bilionários Uma transformação que precisa ganhar escalaOs ecoparques de Brusque e Blumenau demonstram que há caminhos concretos para melhorar a gestão dos resíduos, reduzir a pressão sobre aterros sanitários e contribuir para a redução das emissões de gases de efeito estufa. A nova unidade de triagem mecanizada de Brusque acrescenta capacidade tecnológica a esse esforço, enquanto a operação da Oktoberfest mostra como a gestão ambiental pode ser incorporada a eventos de grande porte.A atuação da Veolia, empresa de alcance mundial, ajuda a ilustrar o papel que infraestrutura, conhecimento técnico e investimento privado podem desempenhar nessa transformação. Mas nenhuma empresa, isoladamente, será capaz de resolver um problema que envolve milhões de toneladas de resíduos e uma cadeia inteira de responsabilidades.Foto: Jas Min | UnsplashO Brasil precisa fazer com que experiências como essas deixem de ser exceções e se tornem parte de uma política abrangente de gestão de resíduos. Isso exige investimento, planejamento público, educação ambiental, valorização dos profissionais da reciclagem e compromisso efetivo da indústria em incorporar materiais recuperados.No fim das contas, a questão não é apenas o que fazer com o lixo que produzimos. É como produzir menos, aproveitar melhor os recursos disponíveis e impedir que materiais com valor econômico e ambiental sejam desperdiçados.Matéria escrita pelo jornalista Reinaldo Canto, parceiro do CicloVivo que viajou para Santa Catarina a convite da Veolia. The post Ecoparques dão nova vida aos resíduos e reduzem emissões appeared first on CicloVivo.