Uma vulnerabilidade na plataforma de hospedagem de código GitHub e no gerenciador de pacotes npm expôs mais de 1.500 pacotes de software a invasões, sem precisar roubar credenciais ou senhas. A falha, revelada por pesquisadores da empresa de cibersegurança Bloom Security, possibilitava a inclusão de arquivos maliciosos em programas legítimos, o que afetou diretamente ferramentas e agentes de inteligência artificial (IA) que baixam dependências de forma automática. Em resposta às descobertas, o GitHub alterou as regras de validação do sistema para conter o risco.A brecha estava localizada no mecanismo “publicação confiável” (Trusted Publishing), lançado em julho do ano passado para substituir o uso de senhas e tokens de longa duração por credenciais temporárias. O sistema tinha como objetivo aumentar a segurança, porém apresentava uma vulnerabilidade na forma como identificava os repositórios de código. Em vez de registrar o número de identificação permanente atribuído pelo GitHub, o npm checava apenas o endereço legível, conhecido como slug (formado pelo nome do proprietário e do projeto). Assim, caso um desenvolvedor trocasse o nome do perfil, transferisse ou apagasse o projeto, o endereço antigo ficava livre para ser registrado por qualquer outra pessoa e mantinha a confiança prévia do sistema.A manobra, apelidada pelos pesquisadores de “SlugFest”, permitia que um invasor criasse um projeto com o mesmo endereço abandonado e emitisse atualizações maliciosas para um pacote legítimo já existente no npm. “A vulnerabilidade expõe pacotes legítimos e os invasores os comprometem. O agente de inteligência artificial faz a distribuição”, afirmou o analista de segurança Golan Myers, no relatório divulgado pela empresa. O GitHub informou na documentação oficial da plataforma que passou a impor um prazo de 48 horas para que novas configurações de publicação confiável sejam validadas por meio do primeiro envio bem-sucedido de um pacote. Caso o envio não ocorra dentro desse intervalo de dois dias, a autorização expira automaticamente. “Mudanças na identidade do repositório ou do projeto exigem uma nova relação de confiança com um novo prazo de validação de 48 horas, e edições comuns não reiniciam essa data limite”, declarou a subsidiária da Microsoft, em nota sobre a atualização do serviço.A urgência para corrigir a falha aumentou com a popularização de assistentes de IA focados em programação, como Claude Code, Codex, Gemini e Cursor. Segundo dados levantados pela Bloom Security em empresas, cada agente automatizado instala dezenas de pacotes de software por mês para construir e atualizar programas, na maioria das vezes sem a interferência ou revisão direta de um ser humano. Se um pacote com reputação positiva é adulterado por meio do endereço reaproveitado, as ferramentas inteligentes puxam a versão mais recente e executam códigos no computador dos desenvolvedores sem emitir alertas.Segundo o relatório, as descobertas foram comunicadas ao GitHub em 6 de junho. A empresa identificou que mais de 1.500 pacotes estavam expostos à brecha e acumulavam mais de 10 milhões de downloads no total. O encerramento definitivo do risco para novas configurações ocorreu após a implementação das regras de expiração e das atualizações de segurança lançadas neste mês.Como funcionava o ataque aos pacotes de códigoO problema central do sistema estava na diferença entre o nome público de um projeto e a identidade real nos servidores. Enquanto o GitHub gera números de identificação fixos que continuam iguais mesmo se o projeto mudar de nome, o npm ignorava esses números até que a primeira publicação oficial fosse realizada. Para explorar a brecha, o invasor precisava apenas identificar um pacote cujo recurso de publicação confiável estivesse ativado, mas que nunca tivesse enviado uma versão ao npm, e cujo endereço no GitHub estivesse disponível após ter sido alterado pelo dono original. Assim, o criminoso criava um repositório com o mesmo nome na plataforma, configurava a rotina de envio automatizado e solicitava a validação. O sistema do npm comparava apenas o texto do endereço e liberava a autorização de publicação para o pacote do proprietário verdadeiro.A partir desse momento, a versão adulterada passava a ser distribuída com o nome oficial do projeto, herdando o histórico de downloads e a reputação construída ao longo do tempo. O envio também gerava um comprovante de proveniência assinado automaticamente, o que podia enganar ferramentas de checagem que analisam apenas a presença da assinatura, sem checar a origem exata do projeto.Riscos em bibliotecas e extensores de programasEsse tipo de vulnerabilidade em nomes e endereços não se limita aos pacotes de código do npm. Em agosto de 2026, a Bloom Security identificou uma falha semelhante, batizada de “Extension Resurrection”, que afetou lojas de extensões para editores de código — como o VS Code Marketplace, da Microsoft, e o Open VSX.Na ocasião, os pesquisadores descobriram que conjuntos de extensões recomendados para programadores citavam complementos que haviam sido apagados ou que nunca existiram nas plataformas. Bastava criar um perfil com o nome exato do criador ausente e publicar um arquivo com um número de versão superior para que a loja atualizasse o pacote automaticamente nos computadores de quem já usava o conjunto de ferramentas. “Os invasores podiam reivindicar esses espaços vazios, publicar código malicioso neles e fazê-los ser instalados automaticamente junto com o pacote confiável, enviando atualizações silenciosas para qualquer pessoa que tivesse instalado o pacote anteriormente”, escreveu Golan Myers, na divulgação da pesquisa. O problema nas lojas de extensores foi comunicado às empresas responsáveis e corrigido após as notificações.Para evitar contaminações por meio da brecha no npm, o especialista orienta que os mantenedores de programas revisem as autorizações de publicação conectadas aos perfis. Caso um projeto tenha mudado de nome ou de conta no GitHub, a recomendação é apagar a regra de confiança antiga e criar uma nova apontando para o endereço atualizado, além de realizar o primeiro envio de código imediatamente para fixar a identificação permanente da aplicação.Siga o TecMundo no X, Instagram, Facebook e YouTube e assine a nossa newsletter para receber as principais notícias e análises diretamente no seu e-mail.