Clubes e os patrocínios

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O futebol brasileiro tem tudo para atrair as maiores marcas do mundo: milhões de torcedores, paixão intensa, audiência massiva e um mercado consumidor gigante.Ainda assim, nomes tradicionais como Coca-Cola, Pepsi, Gatorade, BBVA, Claro, KFC, Smart Fit e Hyundai continuam longe das camisas e das propriedades dos nossos clubes, enquanto patrocinam agremiações em outros países da América Latina.É o que mostra a quinta edição do estudo bienal do IBOPE “Por que, ‘ainda’, não aqui?”, que desde 2018 mapeia exatamente essa ausência. A chegada de montadoras chinesas (BYD, Leapmotor, GAC, GWM e outras) fez o setor automotivo dar o maior salto de patrocínios no período recente — de um para dez contratos entre 2024 e 2026 —, mas as marcas globais consolidadas seguem distantes.O veto às casas de apostas, ainda em tramitação, só torna a pergunta mais urgente: o que realmente afasta esses investidores?Reputação, governança e o “ambiente interno”José Colagrossi, autor das primeiras edições do estudo (2018 e 2020) e um dos nomes mais respeitados do marketing esportivo brasileiro, aponta a má reputação dos clubes como um freio importante. Formado em Marketing nos EUA e com MBA pela Columbia, Colagrossi atuou por anos na Ibope Repucom, passou pela superintendência de Marketing do Corinthians e hoje ocupa cargos de liderança em empresas do Grupo Cartão de Todos. Sua leitura é clara: falta profissionalismo, sobra dívida e a infraestrutura e a governança ainda são insuficientes para muitas marcas.Especialistas ouvidos reforçam o ponto. Fábio Wolff destaca que o potencial existe, mas não se desenvolve sozinho — clubes gigantescos ainda operam com equipes de marketing minúsculas e pouca estrutura capacitada. Eduardo Corch, consultor e professor do Insper, resume: empresas preferem clubes mais estruturados, com regras de governança claras. O ambiente interno faz diferença.Idel Halfen, ex-vice-presidente de marketing do Fluminense, relativiza um pouco: a reputação pesa no compliance (marcas evitam associação a instituições problemáticas), mas o marketing dos clubes evoluiu na última década. O entrave maior, segundo ele, está na cúpula dos clubes associativos — muitos presidentes ainda veem marketing como despesa, não como investimento.Rafael Plastina, da Sport Track, acrescenta um olhar mais pragmático: as multinacionais perguntam o que um clube brasileiro entrega de estratégico que um clube de outro país não entrega. Companhias aéreas, por exemplo, querem posicionar hubs e gerar turismo. Além disso, o futebol brasileiro ainda não é transmitido globalmente com a mesma força de outras ligas, o que limita o alcance da marca.Dívidas, justiça e a “balbúrdia” políticaPor trás da reputação está a realidade da gestão. A maioria dos grandes clubes carrega passivos enormes. Rankings recentes mostram vários ultrapassando R$ 1 bilhão em dívidas; alguns, como Corinthians, Atlético-MG, São Paulo e Botafogo, na casa dos R$ 2 bilhões ou mais. Levantamentos indicam que o endividamento de um grupo de clubes subiu bilhões mesmo no período em que as bets injetaram centenas de milhões. Há transfer bans da FIFA, processos trabalhistas e cíveis, e tentativas de adiar sanções do Fair Play Financeiro da CBF sobre dívidas antigas.No modelo associativo tradicional, presidentes eleitos frequentemente priorizam o curto prazo e a política interna. Isso gera instabilidade, troca constante de comando e falta de planejamento de longo prazo — exatamente o que assusta empresas com compliance rigoroso.A SAF e o caminho da profissionalizaçãoA Lei da Sociedade Anônima do Futebol (2021) surgiu para atacar esse problema: separar o futebol da associação, atrair capital privado, exigir governança de empresa e reestruturar dívidas. Casos como Botafogo, Cruzeiro e Bahia mostram avanços reais em competitividade e gestão. Outros ainda enfrentam disputas de controle e dificuldades para quitar o passivo histórico. A SAF não é solução mágica — como dizem no mercado, “SAF não é solução; gestão é” —, mas representa o caminho mais consistente de profissionalização já adotado em escala no futebol brasileiro.O verdadeiro desafioComo lembra Colagrossi, simplesmente trocar um patrocinador por outro muda a marca, não o modelo. O futebol brasileiro precisa criar propriedades e produtos que as grandes marcas enxerguem como estratégicos — não apenas exposição na camisa.Enquanto a combinação de dívidas, instabilidade jurídica, governança frágil e alcance internacional limitado persistir, as marcas tradicionais vão continuar preferindo outros mercados da América Latina.O potencial está lá. A torcida também. O que falta, na maioria dos casos, é o ambiente de confiança e profissionalismo que essas empresas exigem para colocar seu nome e seu dinheiro no jogo.Até a próxima.