Nova regulação cripto cria desafio tecnológico para bancos e exchanges no Brasil, diz especialista

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A nova regulamentação de criptomoedas no Brasil está criando um desafio para bancos, exchanges e outras empresas do setor que vai além dos custos para conseguir autorização do Banco Central. Segundo Caio Mattos, CEO da NearX, empresa especializada em infraestrutura tecnológica, uma das principais dificuldades será adaptar os sistemas de monitoramento e compliance para interpretar operações realizadas em blockchain e transformá-las em informações exigidas pelo regulador.A avaliação ocorre a duas semanas do prazo final para que as empresas de criptoativos que já operam no Brasil apresentem a primeira fase de seus pedidos de autorização ao Banco Central, marcado para 30 de outubro. Além das exigências de capital mínimo, governança e segurança, a regulamentação também estabelece novas obrigações de fiscalização, acompanhamento de transações e envio de dados.“Não basta conhecer a norma. As empresas precisam conseguir entender o que está acontecendo tecnicamente em cada operação. Uma movimentação on-chain tem características próprias, envolve endereços, redes, tipos de ativos, smart contracts e diferentes formas de interação. Para quem vem exclusivamente do mercado financeiro tradicional, muitas vezes tudo isso chega como uma transação financeira comum, quando não é”, explica Mattos.O problema também atinge instituições financeiras que já possuem equipes de compliance estruturadas, mas que ainda precisam desenvolver conhecimento sobre as particularidades das criptomoedas.Diferentemente de uma transferência bancária convencional, uma operação em blockchain pode envolver contratos inteligentes, stablecoins, diferentes redes, plataformas de finanças descentralizadas (DeFi) e carteiras controladas diretamente pelos usuários.Leia também: Regulação cripto: veja a situação de cada exchange no processo de autorização do Banco CentralEssas características dificultam a identificação da origem e do destino dos recursos e a classificação das transações para fins regulatórios, especialmente quando uma operação envolve vários protocolos ou diferentes criptomoedas.Segundo Mattos, o desafio é desenvolver ferramentas capazes de analisar automaticamente essas informações, sem depender exclusivamente de profissionais verificando cada movimentação.“Existe um processo de aprendizado acontecendo no mercado inteiro. São obrigações novas, aplicadas a uma infraestrutura que também tem características muito diferentes daquilo que bancos e instituições estavam acostumados a analisar. O desafio passa a ser como cumprir essas exigências sem colocar dezenas de pessoas olhando manualmente para volumes enormes de dados.”Banco Central amplia exigências de monitoramento de criptomoedasAs dificuldades apontadas pelo executivo ganham importância com as mudanças recentes anunciadas pelo Banco Central.Em setembro, o regulador publicou as Resoluções BCB nº 588 e 589, que ampliaram as exigências de prevenção à lavagem de dinheiro e aperfeiçoaram as regras de acompanhamento das operações com ativos virtuais.Uma das novidades é a obrigação de comunicação específica ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) de transferências de criptomoedas de ou para carteiras autocustodiadas em valor igual ou superior ao equivalente a US$ 10 mil.Essas carteiras são aquelas em que o próprio usuário controla as chaves privadas que permitem movimentar os recursos, sem depender da custódia de uma exchange ou instituição financeira.A exigência entrou em vigor em 1º de outubro e busca ampliar a capacidade das autoridades de acompanhar transações que não passam necessariamente pelos sistemas tradicionais de monitoramento bancário.Outra mudança envolve informações sobre ativos de clientes utilizados em operações de staking, mecanismo pelo qual criptomoedas são empregadas para ajudar a validar transações em determinadas blockchains, em troca de recompensas.Pela Resolução BCB nº 589, novas obrigações relacionadas ao envio de dados para supervisão e monitoramento passarão a produzir efeitos em 1º de janeiro de 2027.Na avaliação de Mattos, o cumprimento dessas exigências dependerá da integração entre profissionais de tecnologia e as equipes jurídicas e regulatórias.“O dado existe, mas ele precisa ser traduzido para uma lógica que a instituição consiga utilizar. A tendência é que tarefas que hoje dependem de profissionais analisando operação por operação sejam cada vez mais automatizadas, deixando para as equipes humanas os casos que realmente exigem investigação ou decisão”, afirma.O executivo também destaca as stablecoins como um desafio adicional. Embora sejam criptomoedas que buscam manter seu valor vinculado a moedas tradicionais, como o dólar e o real, esses ativos podem utilizar diferentes redes, emissores e modelos de reservas.“Stablecoin não pode ser analisada apenas como se fosse uma versão digital de uma moeda tradicional. Existe uma infraestrutura por trás daquela movimentação, e compreender essa infraestrutura passa a ser necessário para avaliar corretamente a operação e os riscos envolvidos”, explica.Prazo regulatório pressiona empresasA necessidade de adaptação tecnológica se soma aos custos financeiros impostos pela nova regulamentação.As regras publicadas pelo Banco Central em novembro de 2025 estabeleceram exigências de capital mínimo que variam de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, dependendo das atividades desenvolvidas e da estrutura da instituição. Além disso, as empresas precisam investir em governança, segurança cibernética, controles internos e prevenção à lavagem de dinheiro.A proximidade do prazo de 30 de outubro já provocou mudanças no mercado brasileiro. Algumas exchanges decidiram encerrar suas atividades por não conseguirem atender às novas exigências ou por considerarem inviável a continuidade de seus negócios.É o caso da Coinext, que anunciou o fechamento de sua operação de negociação de criptomoedas após concluir que não conseguiria cumprir o capital regulatório mínimo. A empresa encerrou as negociações em 15 de outubro e estabeleceu esta sexta-feira (16) como prazo final para solicitar saques de ativos virtuais.Outras plataformas, como NovaDAX, Digitra.com e Bitnuvem, também anunciaram o encerramento de suas operações no país, enquanto empresas que pretendem continuar no mercado estão reorganizando suas estruturas ou buscando parcerias com instituições autorizadas.O cenário deve ficar ainda mais restritivo a partir de 6 de novembro, quando instituições financeiras e de pagamento autorizadas pelo Banco Central passarão a enfrentar limitações para realizar ou viabilizar operações com prestadoras de serviços de ativos virtuais que não estejam autorizadas ou enquadradas nas condições previstas na regulamentação.Para Mattos, a mudança significa que a capacidade de cumprir as normas dependerá cada vez mais da infraestrutura tecnológica utilizada pelas empresas.“A discussão sobre regulação cripto durante muito tempo ficou concentrada no jurídico. Agora entramos em uma etapa em que ela também é um problema de engenharia. Não adianta uma empresa saber quais obrigações precisa cumprir se não consegue capturar, interpretar e organizar os dados necessários para fazer isso de maneira eficiente. A infraestrutura tecnológica passa a fazer parte da própria capacidade de estar em conformidade”, conclui.Se você quer investir em criptomoedas com segurança, o Mercado Bitcoin oferece um benefício especial aos nossos leitores: use o cupom PORTAL250 no cadastro e ganhe R$ 50 de bônus em Bitcoin ao comprar R$ 250 em ativos. Clique aqui para abrir sua conta.O post Nova regulação cripto cria desafio tecnológico para bancos e exchanges no Brasil, diz especialista apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.