O país que nasceu devendo

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Todo brasileiro já nasce devendo. A gente costuma usar a frase para falar de imposto, de boleto, de parcela no cartão. Mas ela vale, ao pé da letra, para o próprio país.Para o mercado, o grande tema desta eleição é o ajuste fiscal. Não como fim em si, mas por tudo o que ele carrega, se feito e se não feito. O curioso é que, embora atualíssimo, o problema não tem nada de novo. Ele está na certidão de nascimento do Brasil.Vem que eu te explico. Em 1825, para reconhecer a nossa independência, Portugal cobrou de Dom Pedro uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas. O Brasil não tinha o dinheiro e foi buscar emprestado na Europa. E parte desse valor foi direto para quitar uma dívida que os próprios portugueses tinham contraído para bancar a guerra contra… o Brasil. Contra a independência que agora estava sendo paga.Repare nas camadas de absurdo. Com três anos de vida, o país precisou pagar para ser livre, se endividou para fazer o pagamento e sabia que parte do dinheiro ia custear o inimigo que ele tinha acabado de vencer. Nem García Márquez teria ousado um enredo desses para Macondo.Foi com esse creme de absurdo batido com ultraje que a dívida brasileira começou a sua longa carreira. Hoje, ela passa de R$ 10,9 trilhões, ou 82,5% do PIB, o maior patamar desde 2021.Cabe um esclarecimento. O tamanho da dívida em relação ao PIB, sozinho, diz pouco. Estados Unidos e Japão devem proporcionalmente muito mais do que a gente e dormem razoavelmente bem. O nosso problema é outro: a dívida brasileira é cara. Em 2025, o setor público gastou R$ 1 trilhão só com juros, um recorde. É mais do que o orçamento de Bolsa Família, Saúde e Educação somados.E aqui vale tirar a ideologia da sala. Corrigir a trajetória da dívida não é pauta de mercado. É pauta de quem depende do SUS, da escola pública e do próprio Bolsa Família, porque cada real que vai para os juros é um real que deixa de ir para eles.A Moody’s calcula que os juros consomem cerca de 20% da receita do governo brasileiro. Entre países com nota de risco parecida, a média fica em torno de 14%. Você talvez já tenha visto por aí um número bem maior, dizendo que uma fatia gigante do orçamento “vai para a dívida”. Esse cálculo inclui a rolagem: o Tesouro emite um título novo para pagar um título velho que venceu. Entra e sai. Não é gasto de verdade. O número que dói é o outro. É o juro.O mesmo juro que empurrou gigantes como Raízen, Casas Bahia e Braskem para processos de recuperação, judicial ou extrajudicial, só neste ano. O mesmo juro que deixa as famílias endividadas e inadimplentes até dentro do programa criado para desendividá-las: cerca de 30% das renegociações parceladas do Novo Desenrola estão em atraso, segundo dados do Fundo Garantidor de Operações. Pense no tamanho da coisa. A pessoa renegocia a dívida com desconto e juro camarada e, ainda assim, não consegue pagar. É o retrato de um país em que o dinheiro custa caro para todo mundo, do Tesouro ao sujeito do cheque especial.É ingênuo olhar para esse endividamento generalizado, do governo, das empresas e das famílias, como um acidente de percurso. Ele se agravou com governos gastadores e com estímulos ao consumo, sem dúvida. Mas as raízes são bem mais fundas e mais antigas do que o último mandato.Foi para desenterrar essas raízes que fizemos a segunda edição do Market Makers Originals, nosso programa de documentários. Nele, eu percorro o passado, o presente e o que já dá para medir sobre o futuro da dívida pública brasileira. Confesso que saí da apuração mais revoltado do que entrei. Você pode assistir aqui. Ou logo mais abaixo.A boa notícia é que o final foi pensado para que você não termine como eu. Ouvimos especialistas e apresentamos quatro caminhos possíveis para sair desse entrevero.O Brasil nasceu devendo. Não precisa continuar assim.