Antes mesmo de subir ao palco do Espaço Unimed, em São Paulo, no último sábado (17), Pitty deixou um recado no telão. Tolerância zero a preconceito, homofobia, machismo, racismo e assédio. Para além das regras de convivência, a declaração ajudou a contextualizar uma artista cuja trajetória sempre combinou inconformismo e afirmação da individualidade — mesmo num momento em que se cobra seu posicionamento mais claro antes do segundo turno das eleições presidenciais. Sua história lhe posiciona.Pouco depois, às 22h43, ela chegaria junto de Martin Mendonça (guitarra), Paulo Kishimoto (baixo) e Nico (bateria) para dar início à turnê de seu sexto álbum de inéditas, homônimo e disponibilizado na sexta (16). Após uma excursão na qual celebrou os 20 anos de “Admirável Chip Novo” (2003), foi refrescante ouvi-la executar uma nova canção. “Sobremesa”, faixa que abre o disco e foi lançada antes das demais como single, é uma composição sobre desejo que retoma o rock por vezes visceral, por vezes sexy que guiou seus primeiros anos de carreira solo.Foto: Ellen Artie @ellenartie“Pitty”, o álbum, mostra a artista sem tantos mecanismos de proteção. É liricamente introspectivo e até pessoal demais — a ponto de, ocasionalmente, nem permitir que o público crie tanta identificação —, musicalmente maduro ao agregar o som mais pesado dos primeiros discos com influências mais dançantes exploradas em trabalhos recentes. Sua autora define como “dois anos de terapia em dois meses”, visto que registra o fim de seu casamento de 19 anos com o baterista Daniel Weksler, apresenta a conexão consigo mesma enquanto mulher de 49 anos solteira a essa altura da vida e até revisa a dolorosa relação com a mãe.O novo disco foi executado integralmente, ainda que intercalado a músicas antigas. A decisão é ousada para uma artista com tantos sucessos associados ao rock brasileiro dos anos 2000 e em meio a um momento extremamente nostálgico da indústria. Provou-se acertada, especialmente porque boa parte dos 8 mil fãs que esgotaram os ingressos para o show com mais de um mês de antecedência pareciam saber as letras de várias canções — mesmo as ouvindo pela primeira vez pouco mais de 24 horas antes.Foto: Ellen Artie @ellenartieRock dançante, corpo e inconformismoDepois de “Sobremesa”, “Admirável Chip Novo” provocou os primeiros coros ensurdecedores da noite. Uma das canções mais atemporais do rock brasileiro questiona o condicionamento social, a obediência e os comportamentos automatizados. Influenciada pelo livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, parecia prever a era dos algoritmos. Na contramão, Pitty parece buscar organicidade e simplicidade, seja pela produção de palco simplificada (com um telão que exibia basicamente o nome da cantora, fotos ou simplesmente nada) ou pela retomada da formação quarteto. Ver esse post no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Na dançante “Armadura”, baixo e bateria assumiram o protagonismo com um groove sensual. A frase sobre ser “mais difícil abrir o coração do que as pernas” talvez soe juvenil, mas é forte. “Desobediente”, por sua vez, esteve entre os destaques da noite por sua melodia com inflexões características da música do Oriente Médio, o uso de spoken word e a recusa de uma estrutura previsível.Se em “Sobriedade Seletiva” ficou evidente o contexto de “show de estreia” após dois erros (um da banda e outro da cantora) provocarem reinícios de uma interessante canção com direito a solo de synth da protagonista, “Teto de Vidro”, pouco tempo antes, reforçou a química de Pitty com sua banda. Aqui, ela recorre a um painel de silhueta para trocar de roupa em cima do palco e sai não apenas com um traje menos elaborado como, também, empunhando uma guitarra. Pela emoção da estreia, deu para notar que a noite não contaria com sua melhor performance vocal, dada a afinação menos estável e perda de fôlego reconhecida pela própria. Ninguém se importou.Foto: Ellen Artie @ellenartieNem todas as composições novas tiveram o mesmo impacto. “Prazer, Universo”, entre “Teto de Vidro” e “Sobriedade Seletiva” passou rápido demais, apesar do bom e pesado riff introdutório. Mais adiante, “Madame” mostrou-se um filler de letra pouco relacionável e “Não à Deriva” soou menos impactante do que outras faixas do disco. “Nó”, encerramento do álbum e da apresentação antes do bis, ficou densa demais para o ambiente ao vivo, embora no disco soe intrigante por não oferecer uma solução reconfortante.Foto: Ellen Artie @ellenartieDivertida “Pileque de Poeta” à parte, o miolo do set fica emocional com a sequência composta pela delicada “Caminhada”, marcada pela sororidade em sua letra e antecedida por uma interrupção para que uma fã passando mal na pista premium fosse socorrida; “Na Sua Estante”, única mais antiga dessa etapa e com cada palavra acompanhada pela plateia; a soturna “Cuidada”, responsável por revisitar a distante e complicada relação de Pitty com sua já falecida mãe; e o alt-blues “Álbum de Casamento”, que transforma o fim de um relacionamento em reivindicação de autonomia. Pitty contou ter chorado diversas vezes durante os ensaios do novo show — e essa etapa do repertório ajuda a compreender os porquês.Foto: Ellen Artie @ellenartieA etapa final da noite trouxe um pouco mais do passado. “Memórias” contou com seu tradicional momento de incentivo às rodas de pogo — e trouxe Pitty economizando nos gritos do refrão —, enquanto “Máscara” foi executada por mais de um minuto sem guitarra, devido a um problema técnico. Ninguém se importou com os dilemas. Estava divertido e ensurdecedor demais para qualquer detalhe comprometer a noite.Mais de uma hora de show havia se passado quando Pitty discursou por aproximadamente quatro minutos sobre a importância do voto e da defesa de direitos coletivos. Ela citou mães solo, o SUS e universidades públicas, sem declarar apoio a um candidato pelo nome. Também ironizou críticas recebidas de quem, ao discordar de seu posicionamento, a critica por supostamente fazer uso de Lei Rouanet. Assista, na íntegra, abaixo. Ver esse post no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Peso, densidade e discursos não deram o tom do bis. “Só Agora”, lado B cantado a capela e com a protagonista da noite sentada no chão, surpreendeu a plateia antes de “Equalize” e “Me Adora” encerrarem a apresentação. O público havia pedido “Equalize” antes mesmo de o bis começar, e a canção recebeu uma execução mais direta em comparação à da turnê “Matriz”. A linha de guitarra originalmente criada pelo saudoso Peu Sousa continua sendo um dos elementos mais marcantes da composição e de todo o catálogo de Pitty.Foto: Ellen Artie @ellenartieA ausência de músicas como “Semana Que Vem”, “Anacrônico”, “Déjà Vu” e “Pulsos” chama atenção, mas nem de longe representa um erro. A proposta era outra: apresentar um álbum recém-lançado em sua totalidade e descobrir se ele sustentaria a aposta. Sustentou, ainda que algumas músicas pareçam menos destinadas a permanecer nos repertórios futuros do que outras.O visual relativamente simples, a formação de quarteto e a presença de canções novas deslocam o foco para a composição e a interpretação. Depois de um intervalo de aproximadamente um ano e um mês sem um show completo, Pitty retornou com um show marcado por frescor e diálogo com diferentes fases de sua carreira — inclusive os primórdios, após tantas tentativas de seguir em frente sem olhar tanto para trás.Foto: Ellen Artie @ellenartiePitty — ao vivo em São PauloLocal: Espaço UnimedData: 17 de outubro de 2026Turnê: PittyRepertório:SobremesaAdmirável Chip NovoArmaduraDesobedienteTeto de VidroPrazer, UniversoSobriedade SeletivaSetevidasCaminhadaPileque de PoetaNa Sua EstanteCuidadaÁlbum de CasamentoNão à DerivaMemóriasAmiga,MadameMáscaraNóBis:Só Agora (a capela)EqualizeMe AdoraFoto: Ellen Artie @ellenartieQuer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? 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