A produção de castanha-da-Amazônia deve enfrentar novos desafios nos próximos anos com o avanço de eventos climáticos extremos associados ao El Niño. Embora a safra que começa em novembro tenha perspectiva relativamente favorável, a recorrência de calor intenso e seca pode comprometer a recuperação do setor, que já registrou quedas expressivas.O ciclo dos frutos ajuda a explicar a diferença. Entre a floração e a frutificação passam de 12 a 18 meses, e por isso a safra de novembro a abril responde ao clima do ano anterior. “A expectativa é que a gente tenha este ano uma boa safra”, avalia Patrícia da Costa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente. O cenário, segundo ela, é menos favorável para as safras seguintes.Quedas acumuladas Leia Mais Cacau avança de forma sustentável na Amazônia, segundo Embrapa Chuvas devem deixar mais de 35 milhões de toneladas de cana no campo Redução da cota de açúcar vai gerar prejuízo de US$ 30 milhões ao Nordeste Dados do IBGE mostram a dimensão do problema. Antes dos eventos climáticos extremos da década passada, a produção amazônica girava entre 38 mil e 42 mil toneladas. Em 2017, depois de El Niños severos em 2015 e 2016, o volume caiu para cerca de 23 mil toneladas, e o melhor resultado desde então foi o de 2022, com 38 mil. Após o novo El Niño de 2023 e 2024, a produção de 2025 recuou para 26 mil toneladas.O que mais preocupa a pesquisadora é a frequência. O intervalo entre os eventos extremos está diminuindo: entre o de 2015 e 2016 e o de 2023 e 2024 foram sete anos, e agora, apenas um.O rio como estradaMesmo quando a produção dos frutos não é comprometida, a estiagem atrapalha a atividade extrativista. Na Amazônia, os rios são essenciais tanto para chegar aos castanhais quanto para levar a produção até as unidades de processamento. Em períodos de seca intensa, a redução do nível da água dificulta a navegação e aumenta o tempo e o custo da retirada da castanha. “Você acaba dificultando o transporte. Os rios são os meios de locomoção na Amazônia”, explica Patrícia.Ela também alerta para o risco de incêndios em períodos de seca severa. No El Niño de 2023 e 2024, houve fogo que saiu do controle e se espalhou por áreas de floresta.Roraima é exceçãoHá ainda diferenças regionais. Na maior parte dos estados produtores, a safra está associada ao período chuvoso, de novembro a abril, mas Roraima tem calendário climático distinto, com chuvas concentradas entre abril e setembro. Por isso, a pesquisadora avalia que o estado pode sofrer impacto do atual El Niño já na safra do ano que vem.Com a queda da produção, os preços reagiram. O quilo passou de R$ 3,97 em 2020, um dos menores valores registrados, para R$ 7,96 em 2025, segundo cálculos da pesquisadora a partir de dados do IBGE. A castanha concorre com as outras nozes no mercado internacional, numa espécie de “cesta”, o que significa que a oferta de outros produtos também pesa sobre o valor.A cadeia da castanha é majoritariamente extrativista. As estimativas apontam cerca de 60 mil famílias envolvidas e um valor bruto de R$ 209,6 milhões, mas a pesquisadora ressalta que os números de produção e de valor estão subestimados. Para ela, a cadeia importa não só pela renda: também contribui para a conservação da floresta e para a soberania alimentar das populações amazônicas.Mercado externoAté cerca de 2008, o Brasil exportava castanha diretamente para a Europa. Uma mudança na legislação europeia sobre contaminação por aflatoxina levou à rejeição de alguns carregamentos brasileiros. Desde então, o país passou a vender a castanha in natura, com casca, no mercado nacional e para a Bolívia. Hoje, Bolívia e Peru são os maiores exportadores, embora o Brasil tenha a maior área de ocorrência da espécie. Eles compram o produto brasileiro, processam e vendem à Europa e aos Estados Unidos.Segundo a pesquisadora, a avaliação europeia é feita por país e produto, e o Brasil era fiscalizado com maior frequência do que a Bolívia, mesmo vendendo o mesmo produto. No ano passado, o país voltou ao mesmo patamar dos concorrentes, mas recuperar o mercado “não é uma questão tão simples”, diz. Agroindústrias e entidades do setor têm se mobilizado para retomar a exportação e investido em qualidade e em amêndoa descascada.