O colesterol, especialmente o LDL, é fundamental na avaliação cardiovascular. Quanto maior a exposição ao LDL ao longo da vida, maior o risco de aterosclerose, ou seja, maior a perda de elasticidade das paredes das artérias. O problema é acreditar que um resultado classificado como “normal” pelo laboratório significa que as artérias estão livres de doença.‘Normal’ nem sempre é ‘ideal’Primeiro, porque “normal” não significa necessariamente “ideal”. A meta de LDL depende do risco individual. Um valor aceitável para uma pessoa de baixo risco pode ser inadequado para quem tem diabetes, doença cardiovascular estabelecida ou risco elevado.Outros exames podem mostrar um risco escondidoAlém disso, a apolipoproteína B (ApoB) estima o número de partículas aterogênicas circulantes. Duas pessoas podem ter valores semelhantes de LDL e quantidades diferentes dessas partículas, capazes de penetrar na parede arterial e participar da formação da placa.Outro marcador importante é a lipoproteína(a), ou Lp(a). Sua concentração é determinada principalmente pela genética e, quando elevada, associa-se a maior risco cardiovascular, mesmo quando o colesterol convencional parece adequado. Diretrizes atuais recomendam sua dosagem pelo menos uma vez na vida adulta.Como saber se a aterosclerose já chegou ao coraçãoMas existe outra pergunta: a aterosclerose já chegou às artérias coronárias? Isto é, para os vasos sanguíneos responsáveis por levar sangue rico em oxigênio e nutrientes para o músculo cardíaco.Em pacientes selecionados, o escore de cálcio coronariano pode ajudar. Realizado por tomografia sem contraste, ele identifica e quantifica cálcio nas coronárias, um marcador de aterosclerose. Quanto maior a carga de cálcio, maior tende a ser o risco cardiovascular. Entretanto, escore zero não exclui totalmente a aterosclerose, sobretudo em pessoas mais jovens, que podem apresentar placas ainda não calcificadas.Quando existe indicação clínica, a angiotomografia das coronárias permite visualizar diretamente as artérias, identificar placas calcificadas e não calcificadas e avaliar estreitamentos. Isso não significa que todas as pessoas devam realizar ApoB, escore de cálcio ou angiotomografia: esses exames devem ser usados de forma individualizada, conforme idade, sintomas, história familiar e risco cardiovascular.A mensagem é simples: colesterol aparentemente normal não é um certificado de que o coração está protegido. Prevenir o infarto exige avaliar pressão arterial, diabetes, tabagismo, obesidade, história familiar, LDL, ApoB, Lp(a) e, quando indicado, procurar sinais de aterosclerose por imagem.A medicina cardiovascular moderna não deve perguntar apenas “quanto está o seu colesterol?”, mas também: “qual é o seu risco cardiovascular e suas artérias já apresentam sinais de doença?”Por Dr. Roque Savioli – CRM 22338 | RQE 46468Doutor em Cardiologia pela FMUSPMédico assistente da Unidade de Cardiogeriatria do InCor – HC FMUSP