Mais caro transportar a alface do que comprar a alface: o novo choque nos EUA

Wait 5 sec.

O mais recente salto nos preços dos combustíveis é mais difícil de absorver do que o registrado no início deste ano, já que empresas e consumidores têm menos capacidade para suportar o choque, enquanto novos dados de preços mostram que a inflação está se espalhando para além do setor de energia.Embora os preços do petróleo bruto tenham se moderado parcialmente apesar da recente escalada da guerra com o Irã, limitações nas refinarias mantiveram elevados os custos da gasolina e do diesel. O preço médio do diesel atingiu US$ 6,30 por galão na quarta-feira, cerca de 68% acima do nível registrado antes do conflito com o Irã, segundo a AAA. E como o diesel é especialmente importante como combustível industrial usado na manufatura, na agricultura e no transporte, sua alta de preços se espalhou por diversos setores.O índice de preços ao consumidor divulgado pelo Departamento do Trabalho mostrou que a inflação subjacente subiu para 2,6% em setembro, ante 2,4% em agosto, sinalizando que empresas estão repassando mais custos aos consumidores. Ao mesmo tempo, o relatório de vendas no varejo mostrou que os gastos básicos, excluindo postos de gasolina, avançaram apenas 0,2%, à medida que os combustíveis passaram a consumir uma parcela maior do orçamento das famílias.Essas tendências foram corroboradas pelo mais recente Livro Bege do Federal Reserve, levantamento sobre as condições econômicas e empresariais dos Estados Unidos, repleto de alertas sobre os impactos dos preços mais altos dos combustíveis em todo o país.O relatório mostrou que não apenas mais sobretaxas de combustível estão surgindo ao longo das cadeias de suprimentos, mas também que as margens de lucro estão sendo comprimidas e os consumidores estão reduzindo gastos para compensar os custos mais elevados nos postos.O Federal Reserve de Nova York informou que um fabricante de alimentos não via pressões inflacionárias tão amplas desde a pandemia. Já o Federal Reserve de São Francisco destacou que um fabricante reclamou que praticamente todo material comprado nas últimas semanas veio acompanhado de uma sobretaxa de frete.O Federal Reserve de Boston observou que contratos de transporte ainda vigentes ajudaram a segurar os preços de produtos agrícolas, mas alertou que os custos podem disparar quando esses contratos forem renegociados. Da mesma forma, o Federal Reserve da Filadélfia apontou que o vencimento de mecanismos de proteção contra oscilações de custos deu aos fabricantes maior poder para repassar aumentos aos consumidores.“Os custos mais altos de combustíveis continuaram sendo o principal fator de pressão e vários entrevistados observaram que esses custos estão se espalhando para frete, embalagens e materiais derivados de petróleo”, afirmou o Federal Reserve de Cleveland no Livro Bege, acrescentando que um construtor classificou os custos elevados dos combustíveis e as tarifas como um “duplo golpe”.Os gastos dos consumidores na região do Federal Reserve de Cleveland ficaram estáveis após quatro períodos consecutivos de queda, com varejistas de diversos setores atribuindo o ritmo fraco da atividade aos altos preços dos combustíveis. Nem todas as regiões registraram retração. A maioria relatou pouca ou nenhuma mudança nos gastos dos consumidores, e o Federal Reserve de Richmond informou que houve crescimento moderado em sua área de atuação.Embora as transportadoras estejam cobrando mais, elas também estão absorvendo parte dos aumentos. O Federal Reserve de Richmond afirmou que empresas de transporte tiveram dificuldades para manter a rentabilidade após a alta do diesel, já que haviam firmado contratos com valores fixos. Para compensar os custos, muitas recorreram a reservas financeiras, reduziram gastos com manutenção ou suspenderam compras de caminhões mais eficientes.Outra empresa consultada pelo Fed de Richmond relatou como o aumento dos combustíveis alterou drasticamente sua estrutura de custos.“Uma rede regional de supermercados observou que, com os preços do diesel subindo 30% desde o ano passado, agora paga mais para transportar uma alface da Califórnia do que pelo valor da própria alface”, diz o Livro Bege. “Ao mesmo tempo, a empresa destacou a extrema sensibilidade dos consumidores a preços e sua incapacidade de repassar os custos crescentes do transporte.”A volatilidade dos combustíveis também tem sido um problema. O Federal Reserve de Minneapolis informou que uma empresa madeireira de Montana relatou que seus custos de combustível mais que dobraram em um contrato assinado há alguns meses.O Federal Reserve de Kansas City afirmou que os custos mais altos do diesel obrigaram fornecedores, distribuidores e clientes a renegociar contratos para proteger margens de lucro. A maioria das empresas da região acredita que a demanda enfraquecerá ainda mais se os preços permanecerem elevados.Algumas regiões também registraram sinais de pressão na oferta. O Fed de Kansas City informou que vários contatos no interior do Colorado relataram “escassez intermitente de diesel em postos de combustíveis nas últimas semanas”, levando alguns compradores a antecipar entregas para garantir abastecimento.O aumento dos gastos com combustíveis também está se espalhando para o mercado de trabalho, à medida que trabalhadores passam a exigir salários mais altos, potencialmente alimentando um novo ciclo inflacionário.O Federal Reserve de Cleveland informou que várias empresas concederam reajustes salariais devido ao aumento do custo de vida, especialmente com gasolina e eletricidade. Já entrevistados do Federal Reserve de São Francisco relataram que funcionários têm pedido, e em alguns casos recebido, aumentos salariais para compensar os maiores gastos com combustíveis e alimentação.“O preço mais alto do diesel foi, de longe, o fator mais citado para explicar o aumento dos custos, impactando fretes, agricultura e passagens aéreas, além de provocar ampla compressão de margens em diversos setores”, afirmou o Federal Reserve de Dallas.Embora os consumidores tenham demonstrado surpreendente resiliência diante das tarifas impostas pelo presidente Donald Trump e da guerra com o Irã, eles perderam um importante amortecedor financeiro.Quando os preços da gasolina subiram na primavera, após o início da guerra com o Irã, os americanos ainda estavam recebendo restituições de impostos impulsionadas pelo pacote fiscal aprovado no ano anterior. Agora, porém, com o conflito entrando em seu oitavo mês e sem perspectiva de encerramento, além de uma nova alta dos combustíveis, os consumidores já não contam com essa rede de proteção.“Os preços mais altos da gasolina estão começando a pesar porque, ao contrário do que ocorreu no início do ano, desta vez não existe compensação vinda da política fiscal”, escreveu Michael Pearce, economista-chefe para os Estados Unidos da Oxford Economics, em nota divulgada na quinta-feira. “Estimamos que o gasto adicional acumulado com gasolina neste ano já supera o aumento das restituições de impostos em comparação com o ano passado.”© 2026 Fortune Media IP LimitedThe post Mais caro transportar a alface do que comprar a alface: o novo choque nos EUA appeared first on InfoMoney.