Desaparecimento de ferida não significa cura da sífilis; entenda riscos

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Existe uma característica da sífilis que ajuda a explicar por que essa infecção continua sendo um problema de saúde pública: um de seus primeiros sinais pode desaparecer espontaneamente. A pessoa percebe uma ferida, ela cicatriza sem tratamento e fica com a impressão de que o problema acabou. Mas a bactéria pode continuar no organismo.A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível causada pela bactéria Treponema pallidum. Apesar de ser uma doença conhecida há séculos, ter diagnóstico disponível e tratamento eficaz, permanece bastante comum. Em 2024, o Brasil registrou mais de 256 mil casos de sífilis adquirida.A transmissão ocorre principalmente durante relações sexuais sem preservativo, pelo contato com lesões infectadas, e também pode acontecer da gestante para o bebê. Por isso, prevenção, diagnóstico precoce, tratamento das pessoas infectadas e avaliação de suas parcerias sexuais são essenciais para interromper a cadeia de transmissão. Leia Mais Por que a Febre do Nilo Ocidental tem esse nome? Entenda Epidemias: ainda somos vulneráveis Governo prepara classificação de defensivos agrícolas de alto perigo A primeira ferida pode enganarNa sífilis primária, geralmente aparece uma ferida única no local por onde a bactéria entrou no organismo, chamada de cancro duro. Ela pode surgir no pênis, mas não é uma lesão exclusivamente masculina: também pode aparecer na vulva, vagina, colo do útero, ânus, boca ou outras regiões.Essa ferida costuma ter uma característica traiçoeira: normalmente não dói, não coça, não arde e não apresenta pus. Dependendo de onde esteja localizada, pode inclusive passar despercebida.Depois de algum tempo, o cancro duro desaparece espontaneamente, mesmo que a pessoa não tenha recebido nenhum tratamento. É justamente aí que está um dos maiores problemas. A cicatrização da ferida não significa que a sífilis foi curada.Sem tratamento, a infecção pode continuar evoluindo. Na fase secundária podem aparecer manchas pelo corpo, inclusive nas palmas das mãos e plantas dos pés, além de febre, mal-estar, dor de cabeça e aumento dos gânglios. Esses sintomas também podem desaparecer espontaneamente, criando novamente uma falsa sensação de cura.Depois, a doença pode entrar em uma fase latente, na qual não existem sinais ou sintomas aparentes. A pessoa pode se sentir perfeitamente saudável e ainda assim permanecer infectada.Leia também: SUS passa a adotar antibiótico para prevenir sífilis e clamídia | CNN BrasilHPV: vírus é comum e facilmente transmissível, diz especialista | CNN Sinais VitaisUma doença que pode reaparecer anos depoisQuando não é diagnosticada e tratada, uma parcela das pessoas pode evoluir para sífilis terciária, que pode surgir muitos anos após a infecção inicial.Nessa fase, a doença pode provocar comprometimentos graves, atingindo pele, ossos, sistema cardiovascular e sistema nervoso. Existem também manifestações neurológicas e oculares que podem ocorrer em diferentes fases da infecção e exigem investigação e tratamento específicos.Esse comportamento mostra por que não devemos esperar necessariamente por sintomas para procurar o diagnóstico.Quem teve relação sexual sem preservativo, recebeu a informação de que uma parceria sexual foi diagnosticada com uma IST ou acredita ter vivido uma situação de exposição deve procurar um serviço de saúde para avaliação.O SUS oferece teste rápido para sífilis, com resultado em até 30 minutos. Dependendo do resultado e da situação clínica, são utilizados outros exames para complementar o diagnóstico e, posteriormente, acompanhar a resposta ao tratamento.Leia também: SUS passa a adotar antibiótico para prevenir sífilis e clamídia | CNN BrasilSífilis tem cura, mas é possível ter novamenteA boa notícia é que a sífilis tem tratamento e cura. A penicilina benzatina continua sendo o medicamento de escolha, e o número de aplicações depende da fase da doença. Depois do tratamento, o acompanhamento com exames também é importante para verificar a resposta adequada.As parcerias sexuais precisam ser avaliadas e, quando indicado, tratadas. Caso contrário, existe o risco de reinfecção. Ter tido sífilis uma vez não produz uma proteção capaz de impedir uma nova infecção.O preservativo continua sendo uma das principais formas de reduzir o risco de transmissão, embora não ofereça proteção absoluta quando existem lesões em áreas que não ficam cobertas.Há ainda uma razão para levar o diagnóstico especialmente a sério durante a gestação. A bactéria pode ser transmitida para o bebê e provocar aborto, prematuridade, natimortalidade, sífilis congênita e outras consequências graves. Por isso, a testagem durante o pré-natal e o tratamento adequado são fundamentais.No Dia Nacional de Combate à Sífilis e à Sífilis Congênita, talvez a mensagem mais importante seja também uma das mais simples: não espere uma ferida permanecer para procurar ajuda. Na sífilis, o sinal pode desaparecer enquanto a infecção continua presente.Reconhecer essa característica, fazer o teste diante de uma exposição de risco e tratar corretamente são medidas capazes não apenas de curar uma pessoa, mas também de impedir que a bactéria continue circulando.*Artigo escrito por Dr. Alfredo Salim Helito, membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e head nacional de Clínica Médica da Brazil Health – CRM/SP 43163 | RQE 132808Sífilis continua em ritmo acelerado de crescimento no país