Foi-se o tempo em que apenas promessas de promoção seriam suficientes para fazer com que os profissionais permanecessem em uma empresa. Pela primeira vez em 20 anos, a qualidade de vida ultrapassou as oportunidades de crescimento na carreira como principal razão para continuar no emprego, de acordo com o ranking das Melhores Empresas para Trabalhar no Brasil, divulgado pelo Great Place To Work.A mudança, que apareceu nesta 30ª edição da pesquisa, sinaliza uma transformação nas prioridades dos trabalhadores e impõe o desafio às empresas de oferecer perspectivas de desenvolvimento profissional sem comprometer o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, de acordo com o GPTW.Entre os funcionários das organizações premiadas, 37% apontaram a qualidade de vida como principal fator de permanência, enquanto 33% escolheram as oportunidades de crescimento profissional. Remuneração e benefícios ficaram em terceiro lugar, com 16%, seguidos pelo alinhamento de valores, com 9%, e pela estabilidade, com apenas 5%.O resultado, segundo o GPTW, não significa que salário e carreira tenham perdido importância, mas mostra que a possibilidade de crescer profissionalmente deixou de ocupar isoladamente o centro das estratégias de retenção. Para as empresas, a mudança pode exigir uma revisão das políticas de gestão, com maior atenção à carga de trabalho, à flexibilidade, ao ambiente organizacional e à capacidade das lideranças de conciliar desempenho e bem-estar.O resultado da pesquisa também indica que oferecer boas condições de trabalho pode estar associado a resultados financeiros positivos. As 175 empresas premiadas registraram crescimento médio de 12,3% no faturamento em 2025, desempenho equivalente a 5,4 vezes maior que a evolução de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no mesmo período.O levantamento reuniu 5.897 empresas participantes, das quais aproximadamente 5.580 atenderam aos critérios de elegibilidade para o ranking nacional. Ao todo, o processo abrangeu organizações que empregam cerca de 5 milhões de pessoas. Apenas 175 foram premiadas, divididas em três categorias, conforme o número de funcionários.Evolução do trabalhoA análise histórica revela que a mudança nas prioridades dos trabalhadores não aconteceu de uma hora para outra. Em 2006, as oportunidades de crescimento eram apontadas por 51% dos profissionais como principal razão para permanecer na empresa, contra 29% que mencionavam a qualidade de vida.Em 2018, a distância ainda era expressiva, com 46% priorizando a carreira, enquanto apenas 22% escolhiam a qualidade de vida. A partir daí, porém, as trajetórias começaram a se aproximar. Em 2025, crescimento profissional ainda liderava, com 39%, diante de 30% para qualidade de vida. Mas neste ano a relação se inverteu, ficando 33% para carreira e 37% para qualidade.O avanço de sete pontos percentuais da qualidade de vida em apenas um ano é um dos sinais mais claros dessa transformação. Mas a mudança não é uniforme. Entre os profissionais com até 25 anos, metade ainda considera o crescimento profissional o principal motivo para continuar na empresa, enquanto 27% priorizam a qualidade de vida.Leia também: O retorno ao escritório tem menos a ver com controle e mais com aprendizadoA situação se inverte entre os trabalhadores mais experientes. Na faixa de 35 a 44 anos, a qualidade de vida lidera com 40%, contra 29% para crescimento. Entre aqueles com 55 anos ou mais, a diferença é ainda maior: 44% apontam a qualidade de vida, enquanto apenas 17% mencionam oportunidades de ascensão.O que cria outra questão para as empresas, porque indica que elas precisam lidar com expectativas distintas dentro de uma mesma equipe. Enquanto os profissionais mais jovens tendem a valorizar perspectivas de desenvolvimento, os mais experientes dão maior importância às condições em que o trabalho é realizado.Essa diferença também aparece conforme o tempo de casa. Entre os funcionários com menos de dois anos na empresa, 46% apontam as oportunidades de crescimento como principal motivo para permanecer. Já entre aqueles com 16 a 20 anos de vínculo, a qualidade de vida lidera com 40%, enquanto a carreira é citada por 23%.Leia Mais: Melhores varejistas para se trabalhar crescem quase 5 vezes o PIB; veja quais sãoTamanho da empresaO levantamento mostra ainda que a qualidade de vida tem maior peso nas empresas de médio porte. Entre aquelas com 100 a 999 funcionários, 43% dos profissionais apontam esse fator como principal razão para permanecer, contra 31% que escolhem as oportunidades de crescimento.Nas organizações com mais de 10 mil empregados, a relação se inverte. O crescimento profissional lidera com 39%, enquanto a qualidade de vida recua para 27%. A diferença sugere que as grandes companhias continuam oferecendo um atrativo importante por meio de estruturas mais amplas de carreira, promoções e movimentações internas. Nas empresas menores, em contrapartida, a experiência cotidiana de trabalho pode ter maior peso na decisão de ficar.Também existem diferenças relevantes entre setores. Nos serviços financeiros e de seguros, a qualidade de vida é o principal motivo de permanência para 44% dos profissionais. Na tecnologia da informação, o percentual chega a 43%. Já nos serviços profissionais, as oportunidades de crescimento lideram com 47%, enquanto a qualidade de vida aparece com 28%. Na engenharia, a relação é de 42% para crescimento e 32% para qualidade de vida.Esses resultados mostram que a mudança identificada pelo GPTW não significa o desaparecimento da ambição profissional. O que se observa é uma diversificação das expectativas, influenciada pela idade, pelo estágio da carreira e pelas características de cada atividade econômica.Leia também: Tentei a semana de 4 dias na minha empresa e ela falhou – para alguns funcionáriosMulheres avançam na gestãoSe a qualidade de vida passou a ocupar o centro das estratégias de retenção, o levantamento mostra que a igualdade de oportunidades ainda representa um desafio a mais para as empresas reconhecidas como bons lugares para trabalhar. A participação feminina no quadro de funcionários avançou de 27% em 2000 para 44,5% em 2026. Entre os profissionais sem cargos de gestão, as mulheres já representam 46% do total.Nos postos de liderança, também houve progresso. Em 2005, as mulheres ocupavam 24% dos cargos de gestão. Neste ano, a participação chegou a 40%. A evolução, entretanto, perde força à medida que aumenta o nível hierárquico. As mulheres representam 43% das posições de supervisão e gerência operacional, mas ocupam apenas 10% dos cargos de CEO.A diferença evidencia que ampliar a presença feminina no quadro de funcionários não é suficiente para garantir igualdade de acesso ao poder de decisão. Mesmo entre empresas premiadas por suas práticas de gestão, persistem obstáculos à ascensão profissional das mulheres.A desigualdade também aparece na composição racial das lideranças. Pessoas brancas representam 53% dos colaboradores sem cargos de gestão, mas sua participação sobe para 73% entre presidentes e diretores. O contraste revela que os avanços em diversidade ainda não se distribuem de maneira equilibrada pela estrutura organizacional. Para as empresas, a dificuldade deixa de ser apenas ampliar a contratação de profissionais de diferentes perfis e passa a incluir mecanismos mais efetivos de promoção, desenvolvimento e sucessão.Capacidade de inovaçãoAlém do crescimento do faturamento, o GPTW identificou diferenças relevantes na capacidade de inovação das organizações. Entre as empresas que não foram premiadas, 66% estão classificadas no estágio de atrito, caracterizado por ambientes em que os funcionários encontram mais barreiras para apresentar ideias e participar dos processos de inovação.Já nas organizações reconhecidas pelo ranking, esse percentual cai para 31%. Em contrapartida, 48% das premiadas estão no estágio funcional de inovação e só 21% alcançam o estágio acelerado. Entre as não premiadas, apenas 6% chegam ao estágio acelerado.O resultado sugere uma relação entre ambientes organizacionais mais favoráveis e a disposição dos profissionais para contribuir com novas ideias. Empresas nas quais os trabalhadores encontram espaço para participar das decisões e propor melhorias podem ter vantagens em processos de transformação e adaptação às mudanças do mercado.Empresas premiadasOutro indicador destacado pelo levantamento é a longevidade das organizações reconhecidas. Enquanto a idade média das empresas brasileiras é de aproximadamente 11 anos, segundo dados do IBGE utilizados pelo GPTW, entre as premiadas a média chega a 51 anos e a mediana, a 37 anos.A diferença sugere que empresas com estruturas mais consolidadas também podem desenvolver culturas organizacionais capazes de favorecer a permanência dos profissionais e a continuidade dos negócios.A composição setorial também ajuda a explicar as características do ranking. Serviços financeiros e seguros representam 26% das premiadas, seguidos por tecnologia da informação, com 21%, e produção e manufaturas, com 12%. Juntos, os três segmentos concentram 59% das organizações reconhecidas.Geograficamente, a concentração também é expressiva. São Paulo reúne 81 das 175 empresas premiadas, seguido pelo Rio de Janeiro, com 17. Santa Catarina e Rio Grande do Sul aparecem com 13 cada, enquanto o Paraná tem 12, conforme a distribuição apresentada no mapa do relatório.Essa concentração mostra que, embora o ranking reúna empresas de diferentes regiões e setores, sua composição ainda reflete desigualdades na distribuição das atividades econômicas e das organizações de maior porte pelo país.Ao completar três décadas no Brasil, o ranking do GPTW revela uma mudança estrutural que pode ter consequências duradouras para o mercado de trabalho. Mesmo ainda sendo importante, o crescimento profissional já não é suficiente para explicar a decisão de permanecer em uma organização. O desafio, portanto, passa pela construção de condições para que os funcionários possam se desenvolver, participar das decisões e alcançar posições de liderança, sem abrir mão da qualidade de vida.The post Qualidade de vida supera carreira como principal motivo para ficar no emprego appeared first on InfoMoney.