Mário Simões e a consciência mais vasta que o céu

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Começou por admitir o desconforto. «Sinto-me como um peixe fora deste aquário», disse, vindo das neurociências e da psiquiatria para um encontro cujos temas centrais lhe pareceram ser o sentido (meaning) e a mente (mind). A consciência, explicou, é «aquilo que faz a ponte entre um e outro». Deixou claro que não falaria da consciência moral, mas da consciência psicológica.Partiu de um esquema de António Damásio, que no livro de 2010 liga a consciência à interação com a vida, às sensações do corpo e àquilo que se integra na mente, fazendo-a resultar do cérebro. Simões modificou o esquema e acrescentou o que, no seu entender, não cabe nessa definição: fenómenos que sucedem sem que o cérebro pareça estar presente, a que chamou consciência não local.Assista à Talk aqui:Mário Simões – A Propósito da ConsciênciaPara o explicar, recorreu ao que descreveu como a primeira cartografia da consciência, o símbolo AUM da tradição do ioga, com os seus campos. Percorreu a vigília, o sono profundo, o sonho e um quarto campo, em cima, que funcionaria como filtro de um campo muito maior. Cruzou-o com o mapa do psicólogo Kenneth Ring, que o amplia com o que a investigação foi acrescentando. A linha que separa os três estados fisiológicos do quarto campo corresponde, disse, ao cérebro. «O cérebro não está posto de parte, mas parece que não explica tudo.»Na vigília, mostrou como os sentidos podem enganar: uma mesma imagem pode ser vista como pessoa jovem ou idosa, e o espetro visível fica entre o ultravioleta e o infravermelho. A memória, acrescentou, também tem limites, e esquecemos muito do que vivemos. No sono profundo, referiu que se sonha com algo abstrato, como a poesia, a música, a harmonia ou a paz. Nos sonhos, distinguiu os recorrentes, como os do stress pós-traumático de um soldado, os lúcidos, ilustrados com o pião de «A Origem», e os pesadelos, com Freddy Krueger. Para estudar os sonhos, é preciso acordar a pessoa quando os olhos se movem rapidamente e perguntar-lhe o que sonhava, senão esquece-se.Ainda dentro do que chamou a naturalidade da vida de todos os dias, situou o plano psicodinâmico, o da psicologia e da psicanálise: os conflitos com os irmãos ou na escola, as imagens estranhas dos sonhos que se procura decifrar.A partir daqui, a linha passa a ser, na linguagem do símbolo AUM, um véu da realidade. Simões lembrou que os antropólogos estudaram sociedades que o ultrapassam através de estados ampliados de consciência, para fins de cura ou mágicos. Enumerou as portas: a meditação e o mindfulness, a respiração prolongada, os psicadélicos, como a ayahuasca e o LSD, a dança e o ritmo, a hipnose clínica. «A nuvem só se manifesta através da porta», afirmou, sustentando que, nesses estados, as experiências «são tão reais como agora que eu estou aqui a falar convosco».Do outro lado do véu, descreveu níveis sucessivos: memórias do nascimento, da vida intrauterina e até da fecundação; supostas vidas passadas, com referência ao trabalho de Ian Stevenson; fenómenos paranormais, como a transmissão de pensamento e a clarividência, com o exemplo do filme «Minority Report»; e memórias de espécie, que algumas pessoas relatam, sob hipnose ou psicadélicos, como vividas há seis, sete ou dez mil anos. Mencionou ainda íncubos e súcubos, fantasmas e os seres extraterrestres que há quem diga ver sob o efeito da ayahuasca.Seguiram-se as experiências de quase morte, com o túnel e a luz ao fundo, que lembrou já estarem representadas num quadro de Hieronymus Bosch, do século XV. Quem as viveu, disse, fala delas como mais nítidas do que a vida de todos os dias. Mais além, apontou a vacuidade e a experiência mística, em que a pessoa sente «Eu sou tudo». Citou Teilhard de Chardin para afirmar que somos seres espirituais a ter uma experiência humana, e não o contrário.Recorreu a René Magritte para ilustrar o que a ciência tem dificuldade em captar: a presença de alguém que se vê a ver. Se fôssemos apenas cérebro, uma espécie de máquina fotográfica, argumentou, as imagens não teriam o efeito que têm. «Somos pessoas, vamos ter reações diferentes.»As hipóteses de uma consciência não local, de memórias de vidas passadas ou de fenómenos paranormais não reúnem consenso na comunidade científica e foram apresentadas pelo orador como indícios.Na conclusão, defendeu que é preciso abrir-se a estas técnicas, porque aquilo que parece estranho existe. Evocou a importância do que é visto pelo coração e a tríade do bom, do bem e do belo, que, disse, dá sentido e o leva a afirmar que «a consciência é mais vasta que o céu».Aceda à galeria de imagens completa aqui.Todos os conteúdos da cimeira estão disponíveis na Líder TV.O conteúdo Mário Simões e a consciência mais vasta que o céu aparece primeiro em Revista Líder.