Cooperativas: propriedade, poder e liderança nas organizações do futuro 

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É neste debate que um modelo empresarial nascido no século XIX revela uma particular atualidade. As cooperativas permitem que pessoas com necessidades e aspirações comuns as satisfaçam através de uma empresa de propriedade coletiva e democraticamente governada. A identidade cooperativa conjuga atividade económica, cooperação, autonomia, participação democrática e compromisso com a comunidade, oferecendo uma arquitetura organizacional distinta para pensar a propriedade, o poder, a liderança e o propósito. Numa cooperativa, os membros participam na atividade económica e ocupam um lugar central na governação: elegem os titulares dos órgãos, intervêm nas decisões fundamentais e fiscalizam a atuação dos dirigentes. O poder não é determinado pela proporção da participação no capital. Nas cooperativas vigora, como regra, o princípio de um membro, um voto, embora a lei admita, em condições limitadas, o voto plural e a participação de membros investidores. Esta distribuição do poder conduz a uma conceção exigente da liderança. Dirigir uma cooperativa não significa apenas gerir eficientemente recursos e alcançar resultados. Significa exercer um poder recebido dos membros e responder perante eles pelo modo como é utilizado. A liderança cooperativa articula, assim, profissionalização da gestão, responsabilidade, transparência e controlo democrático. A adaptação do modelo cooperativo às novas formas de organização da atividade económica e do trabalho é visível nas cooperativas de plataforma. Perante plataformas digitais marcadas pela concentração da propriedade e do poder, estas transpõem para o ambiente digital uma lógica alternativa, assente na propriedade coletiva, na governação democrática e numa distribuição mais equitativa do valor criado. Neste contexto, a inteligência artificial introduz um desafio decisivo. A IA pode apoiar a decisão, tratar informação, antecipar riscos e identificar soluções. Mas, quanto maior for a sua intervenção, mais importa determinar quem conserva o poder de definir objetivos, validar escolhas e responder pelas consequências. Numa organização democraticamente governada, a tecnologia deve permanecer subordinada à identidade, à finalidade e aos valores da cooperativa. A IA pode assistir à decisão, mas não deve diluir a responsabilidade humana nem esvaziar a participação democrática. A tecnologia pode, aliás, ampliar essa participação. Assembleias à distância, voto eletrónico e maior acesso à informação podem reduzir barreiras e facilitar o envolvimento dos membros. Mas a participação digital exige capacidade para compreender criticamente os instrumentos utilizados. O princípio cooperativo da educação, formação e informação adquire, por isso, uma nova dimensão: a literacia digital e em inteligência artificial torna-se condição de uma governação democrática informada. Há, depois, uma questão de propósito. A cooperativa não tem como finalidade principal maximizar a remuneração do capital. Existe para satisfazer necessidades económicas, sociais ou culturais dos seus membros através da cooperação e da participação destes na atividade cooperativa. O capital é necessário, mas tem natureza instrumental relativamente a essa finalidade. Esta orientação para os membros não significa que a cooperativa se feche sobre si própria. O interesse pela comunidade integra a identidade cooperativa: as cooperativas trabalham para o desenvolvimento sustentável das comunidades em que se inserem, através de políticas aprovadas pelos seus membros. A sua responsabilidade projeta-se, assim, para além do círculo dos cooperadores. Esta dimensão ganha especial relevância perante os desafios do futuro. A transformação tecnológica, as desigualdades, a transição ambiental e a coesão dos territórios obrigam a perguntar não apenas que valor cria uma organização e como o distribui, mas também que impacto produz na comunidade. Também a distribuição do valor reflete a singularidade cooperativa. Os benefícios económicos gerados pela atividade não são apropriados segundo uma lógica puramente proporcional ao capital investido. Quando existem excedentes suscetíveis de retorno, a sua distribuição aos cooperadores faz-se em função das operações realizadas com a cooperativa, enquanto outra parte dos resultados reforça a organização através de reservas, algumas irrepartíveis, formando um património coletivo ao serviço da cooperativa e dos seus membros presentes e futuros. Esta forma de distribuir e preservar coletivamente o valor criado oferece uma perspetiva particularmente atual para pensar as organizações do futuro. A experiência cooperativa mostra que é possível ligar propriedade, participação na atividade económica, poder e distribuição do valor, sem reduzir a empresa a um instrumento de remuneração do capital nem desligar a criação de valor da responsabilidade perante a comunidade. Talvez resida aqui um dos contributos mais relevantes das cooperativas para pensar o “depois de amanhã”. Perante a transformação tecnológica e as profundas mudanças económicas, sociais e ambientais, o modelo cooperativo recorda-nos que a questão decisiva continuará a ser humana: que organizações queremos construir, quem as governa, em benefício de quem e com que impacto nas comunidades em que se inserem?  Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. Subscreva a Revista Líder aqui.O conteúdo Cooperativas: propriedade, poder e liderança nas organizações do futuro  aparece primeiro em Revista Líder.