El Niño, petróleo e crise da dívida nos EUA e na Europa podem frustrar queda de juros em 2027

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Redução da Taxa Selic é aposta de Flávio e Lula para o próximo ano. Para especialistas, porém, tendência é que o BC siga atitude de cautela diante de incertezas no cenárioOs dois candidatos que disputam o segundo turno das eleições presidenciais contam com a queda dos juros para aliviar as contas públicas a partir de 2027, mas fatores fora do alcance de quem vencer no próximo dia 25 podem limitar esse movimento, pelo menos no que se refere à Taxa Selic. Choques de oferta, como o do petróleo, que continua acima de US$ 100 o barril, o El Niño, a crise da dívida dos EUA e da Europa, com déficits fiscais dos países ricos resultando em aumento de juros e a própria resiliência da economia brasileira devem manter a cautela do Banco Central (BC) na condução da taxa básica.A autoridade monetária deve continuar a “calibragem” da Selic, mas a aceleração dos cortes só deve ocorrer com a apresentação de medidas fiscais que se traduzam em expectativas de inflação mais baixas e pressões menores no mercado de trabalho.Em relação à curva de juros, que teve forte baixa após o 1º turno, economistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que a direção só deve ser mantida se a aposta em uma gestão mais fiscalista, com medidas concretas de corte de gastos e não só promessas, se torne realidade.No caso da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem dito que a redução dos juros é a “última milha” para o equilíbrio das contas públicas e que o governo, caso reeleito, fará sua parte, reforçando o ajuste fiscal, para alcançar o objetivo.Já a equipe do senador Flávio Bolsonaro (PL) aposta que o prometido ajuste fiscal de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro ano de um eventual governo poderia levar a um ajuste na curva de juros de 2,5 pontos percentuais. Em entrevista ao GLOBO, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, disse que 1 ponto percentual na curva pode significar R$ 100 bilhões de despesa com juros da dívida.Indicadores econômicos — Foto: Criação O GloboEntrega fiscal concretaA promessa de ajuste fiscal de Flávio de R$ 200 bilhões no eventual primeiro ano de governo inclui redução de encargos com pagamento de juros, mas, se a premissa não se confirmar, ficaria mais difícil alcançar um corte dessa magnitude.A dívida bruta, que engloba governo federal, estados e municípios, chegou a R$ 11 trilhões ou 82,9% do PIB em agosto. Já a dívida pública federal, que se restringe apenas à União, atingiu R$ 9,3 trilhões em agosto, dos quais quase 53% respondem a variações da Selic. Pelas contas do BC, a sensibilidade da dívida bruta a cada 1 ponto percentual de redução da Selic é de 0,49% do PIB, ou R$ 65,8 bilhões.Atualmente, a taxa está em 13,75% ao ano, depois de cinco reduções seguidas de 0,25 ponto, e o Comitê de Política Monetária (Copom) volta a se reunir em 3 e 4 de novembro, na primeira decisão após a eleição. Pelo Boletim Focus, a Selic termina este ano em 13,25% e o ano que vem em 12%, com a continuidade da estratégia de redução gradual.Após o resultado do 1º turno, em que Flávio terminou na frente, o mercado financeiro começou a discutir a possibilidade de o BC acelerar os cortes de juros devido à crença dos analistas ligados à Faria Lima de que há mais chances de o candidato da oposição promover um ajuste fiscal robusto em comparação a Lula.Isso se traduziu em forte reprecificação nos ativos brasileiros. A taxa do juro futuro com prazo de dois anos caiu 1,1 ponto percentual. Na semana, a queda foi de 1,43 ponto percentual. Os cálculos são do chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital. Em relação ao prazo de dez anos, a redução foi de 1,34 ponto percentual e de 1,8 ponto percentual nas duas comparações.Nas contas da Warren, a reprecificação dos ativos locais após o primeiro turno foi uma das mais intensas do mercado brasileiro desde 2008.Nos últimos dias, porém, a Bolsa devolveu parte dos ganhos e o dólar voltou a ficar acima de R$ 5 diante da perspectiva de disputa mais acirrada no segundo turno e de sinalizações contraditórias do candidato do PL, que se comprometeu a manter políticas sociais e a reajustar o salário mínimo sem explicar como isso seria compatível com o ajuste de R$ 200 bilhões.Para parte dos analistas, a leitura é de um ajuste fiscal menos intenso do que as promessas anteriores.Em conversas privadas às margens do encontro anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), que acontece em Bangcoc, o diretor de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, sinalizou que a autoridade monetária só deve responder a entregas fiscais concretas e não a expectativas do mercado sobre isso, de acordo com o relato do chefe global de estratégia do Citi, Dirk Willer.“O BC pensa, baseado na História, que é melhor esperar até ver a entrega efetiva de reformas fiscais e seus potenciais efeitos desinflacionários, em vez de reagir à antecipação do mercado a isso. Afinal de contas, a História mostrou como governos eleitos podem se comprometer com a disciplina fiscal e não cumprirem”, disse, em relatório.Willer disse que o BC manteve tom cauteloso, embora veja espaço para “flexibilização calibrada”, porque enxerga riscos de alta para as taxas neutras globais, choques de oferta persistentes, como a guerra e o El Niño, que podem gerar efeitos de segunda ordem, e um elevado volume de investimentos pressionando rendimentos dos títulos globais.E destacou que, apesar da desaceleração da atividade, o mercado de trabalho não apresenta folga, pressionando a inflação de serviços, e as expectativas de inflação estão distantes da meta de 3%.‘Mundo mais inflacionário’No front externo, outro fator de atenção para o BC é o aumento dos déficits fiscais nas grandes economias desenvolvidas, como EUA, França e Reino Unido. Isso está elevando o rendimento dos títulos soberanos de longo prazo desses países e pressionando os juros globais. Nesse cenário, mercados emergentes como o Brasil enfrentam dificuldade maior para reduzir taxas, pois precisam manter um diferencial atrativo de juros para evitar a saída de capitais.O próprio Copom projeta inflação de 3,9% para 2027 e diz que o tamanho total do ciclo de cortes vai depender de novas informações.Leonardo França Costa, economista do ASA, destaca que o cenário de inflação para 2027 não será fácil, com continuidade de parte dos choques do petróleo e do El Niño. No caso dos preços de alimentos, a expectativa é que comecem o ano pressionados em virtude de efeitos sazonais e do fenômeno climático, que deve durar até meados de 2027.O economista cita outros riscos para o início do ano que vem, como os impactos nos custos trabalhistas devido ao fim da escala 6×1, principalmente no setor de serviços, e a implementação da Reforma Tributária do consumo. Além disso, é possível que se inicie uma reversão dos subsídios dos combustíveis.— A inflação de 2027 seguirá pressionada, com a necessidade de recomposição de imposto nos combustíveis, pela possibilidade de novos reajustes no diesel, pelo choque corrente do El Niño e pela resistência da inflação de serviços. Mas vale ressaltar o risco de baixa em uma eventual desaceleração mais célere da economia doméstica no caso de um ajuste fiscal, que poderia colaborar para a reaproximação das expectativas de inflação à meta de 3% — disse ele, que espera que o IPCA fique em 4,5% no ano que vem.Os economistas consultados pelo GLOBO, não veem espaço para uma aceleração do ritmo de cortes ainda este ano. Para Carlos Kawall, sócio-fundador da Oriz Partners e ex-secretário do Tesouro Nacional, a questão é mais sobre a continuidade ou não do corte de juros pelo BC, que deve se manter em um cenário de vitória de Flávio, dadas as apostas de que o candidato do PL pode entregar ajuste fiscal mais robusto. Caso contrário, a depender da reação do câmbio à reeleição de Lula, o BC pode ter de interromper o ciclo de alívio da Selic.— Não acho que haja espaço para acelerar o ritmo de queda este ano. O que o resultado da eleição pode determinar é a continuidade ou não do ciclo — disse, citando que reduções maiores só devem ocorrer após anúncios de medidas fiscais e sinais mais claros nos condicionantes da inflação.A diretora de Macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, Solange Srour, diz que é desejável que o BC seja cauteloso, como ocorreu em 2016, sob a presidência de Ilan Goldfajn, para que a queda seja sustentável. Ela lembra que o ambiente internacional é mais inflacionário e de juros mais altos, o que vai na direção contrária de cortes de juros aqui:— O BC só vai cortar juros se tiver um baita esforço fiscal, é um mundo mais inflacionário e de juros mais altos.Sinais de alerta para a taxa SelicImpacto do fenômeno climático El Niño nos preços de alimentosNo Brasil, o fenômeno climático pode alterar regimes de chuvas e provocar mudanças na temperatura,com impacto que varia de acordo com a intensidade do episódio. O consumidor pode sentir efeitos nos preços de frutas, hortaliças e carnes.Cotação do petróleo acima de US$ 100 o barrilAs restrições no trânsito do Estreito de Ormuz e os ataques a navios que tentam fazer o trajeto contribuem para manter a cotação do Brent acima de US$ 100. O efeito é de pressão sobre preços de combustíveis, o que tem sido atenuado por subsídios.Crise da dívida nos EUA e na Europa pressiona jurosO aumento de déficits fiscais em economias desenvolvidas, como Estados Unidos, França e Reino Unido, eleva o rendimento dos títulos soberanos de longo prazo destes países e pressiona os juros globais. Para emergentes, fica mais difícil reduzir a taxa.Resiliência da economia brasileira também interfereNa avaliação dos especialistas, a resiliência da economia brasileira é um entrave. O BC só deve acelerar cortes da Selic diante de medidas fiscais concretas que se traduzam em expectativas de inflação e pressões menores no mercado de trabalho.Com O GloboO post El Niño, petróleo e crise da dívida nos EUA e na Europa podem frustrar queda de juros em 2027 apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.