Carne cultivada: o futuro da alimentação está no laboratório?

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Desde então, esta área tem vindo a crescer ao longo dos anos, com a criação da primeira empresa de carne cultivada, UPSIDE Foods, em 2016, seguida de muitas outras, originando um total de 142 empresas dedicadas à produção de carne e peixe cultivado em 2025. Desde então, foi comercializado o primeiro produto de carne cultivada, em 2020 na Singapura, e atualmente um total de oito empresas têm aprovação para vender carne cultivada em certos países.  Além disso, desde 2025, a carne cultivada já não se limita ao consumo humano, tendo surgido o primeiro produto no mercado para animais de estimação. No entanto, apesar do seu sucesso nos últimos anos, esta área permanece desconhecida para muitas pessoas, sendo muitas vezes considerada um conceito longínquo e futurista, quando na verdade já é uma tecnologia real e em constante evolução. Então, para entender a importância da agricultura celular, é necessário em primeiro lugar compreender os fatores que motivam o seu desenvolvimento.   Somos o que comemos  Os padrões de alimentação das pessoas têm um grande impacto no ambiente, e nada melhor do que olhar para algumas estatísticas para ilustrar este problema.Atualmente, a criação de animais contribui para 14-18% das emissões de gases de efeito de estufa globais e é responsável pelo consumo de 41 % da água utilizada em agricultura.O setor da agricultura ocupa cerca de 50% da terra global disponível, sendo mais de três quartos desta fração utilizados para criação de animais, uma área tão grande como a totalidade do continente americano. Isto traduz-se na ocupação de 80% das terras agrícolas globais para pastagem de animais ou produção de comida para os alimentar, contrastando com as plantações para consumo humano, que correspondem a apenas 16%.  Estes dados revelam a ineficiência da produção de carne convencional, que exige consideravelmente mais calorias para alimentar os animais do que aquelas que é possível obter através do consumo da sua carne no final do processo. Por exemplo, para obter uma caloria de carne de frango, nove calorias são necessárias para alimentar o animal e, no caso de carne de vaca, este problema agrava-se, sendo necessárias 100 calorias para retirar apenas uma caloria no final. Assim, agricultura celular surge como uma solução para atingir uma conversão mais eficiente para o produto final, possibilitando a produção de carne apenas, ou seja, o músculo dos animais, sem a necessidade de criar os animais inteiros.  Em vez de transformar grandes quantidades de recursos em carne através da criação de animais, que é um processo altamente ineficiente, podemos assim focar-nos apenas no produto de interesse final – a carne – otimizando os recursos necessários, ocupando menos terra, e promovendo sistemas de alimentação mais éticos e sustentáveis. Apesar de todos estes problemas, a produção de carne tem vindo a aumentar consideravelmente nas últimas décadas em todas as regiões do mundo, tendo mais do que quadruplicado a nível global desde 1961. Naturalmente, o aumento identificado na produção de carne está diretamente relacionado com o crescimento rápido da população mundial, mas, notavelmente, o consumo global médio per capita tem-se também intensificado ao longo dos anos.Como resultado, o incessante aumento populacional (projeta-se uma população global de 9.8 mil milhões em 2050, um aumento de 18% face aos 8.3 atuais) e uma tendência global para dietas com forte predominância de carne põem uma pressão considerável no sistema alimentar atual. Consequentemente, perante uma inevitável dificuldade em corresponder às necessidades globais de proteína num futuro próximo, as proteínas alternativas desempenham um papel fundamental.  É essencial uma transformação do sistema alimentar nas próximas décadas e, ainda que a agricultura celular tenha um longo caminho a percorrer antes de ser capaz de assegurar os requisitos de proteína da população global, o desenvolvimento de alternativas à carne convencional poderá ser a única forma de os concretizar. As grandes dificuldades estão na escalabilidade e custo dos processos, regulamentação, e também no facto de terem de competir com uma indústria altamente estabelecida, a produção de carne convencional, que atualmente oferece preços mais apelativos.Não obstante, os avanços dos últimos anos demonstram que é possível ultrapassar estas dificuldades através da otimização das condições de cultura de células, e já várias empresas alcançaram resultados positivos neste sentido. Apesar de ser uma área recente que enfrenta inúmeros desafios, a agricultura celular está em crescimento rápido e posiciona-se como uma tecnologia capaz de revolucionar o sistema alimentar atual, em prol de um futuro mais sustentável, seguro e resiliente.  Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. Subscreva a Revista Líder aqui. O conteúdo Carne cultivada: o futuro da alimentação está no laboratório? aparece primeiro em Revista Líder.