Zarifa Ghafari: «Qual é o propósito de imaginar o futuro se não tivermos coragem para mudar o presente?»

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Zarifa Ghafari, antiga presidente da câmara de Maidan Shahr, no Afeganistão, enviou uma mensagem em vídeo à décima edição da Leadership Summit Portugal, na qual defendeu que o mundo de amanhã «não deve ser apenas tecnologicamente mais avançado», mas «mais humano». Não pôde estar presente. Pediu desculpa por isso e disse esperar juntar-se à próxima edição em pessoa.Felicitou a organização pelos dez anos do encontro: «Dez anos a reunir pessoas para pensar a liderança, a transformação e o futuro é uma conquista que vale a pena celebrar.» Pediram-lhe que refletisse sobre o mundo a construir para depois de amanhã, e a resposta começou por uma pergunta: «Qual é o propósito de imaginar o futuro se não tivermos coragem para mudar o presente?»Assista aqui:Zarifa Ghafari – Testemunho VídeoO que demora gerações a construirGhafari lembrou de onde vem. «Venho do Afeganistão, um país onde milhões de mulheres e raparigas viram desaparecer, de repente, possibilidades que antes consideravam normais.» Raparigas que sonhavam ser médicas, professoras, engenheiras e líderes estão hoje impedidas de aprender, de trabalhar e de moldar o seu futuro. Para a oradora, a experiência afegã é um aviso: o progresso nunca está garantido. «O que demora gerações a construir pode perder-se com uma rapidez notável se deixarmos de o defender.»Daí a sua definição de futuro: um mundo «onde a inovação sirva a dignidade» e onde liderar signifique «responsabilidade e não poder». O êxito, defendeu, mede-se não só pela distância a que chegam os mais fortes, mas por «quantas pessoas nos recusamos a deixar para trás».A mensagem terminou num tom pessoal. Ghafari prepara-se para receber o filho em dezembro e disse querer que a geração dele herde um mundo onde «o género, o local de nascimento ou as circunstâncias» de uma criança não determinem os limites dos seus sonhos. «Esse futuro não virá por si só. Temos de trabalhar para ele», afirmou, e acrescentou que será construído com as escolhas que fizermos amanhã.Da rádio à presidência da câmaraO percurso de Ghafari ajuda a perceber o peso da frase. Segundo a editora do seu livro de memórias, tinha três anos quando os talibãs proibiram as raparigas de frequentar a escola, e começou a estudar em segredo. Estudou Economia na Índia e fundou uma rádio dirigida a mulheres na província de Wardak, antes de ser escolhida, em 2018, para presidir à câmara de Maidan Shahr, capital daquela província, por concurso público.Tinha 24 anos, segundo a editora, e tornou-se uma das autarcas mais jovens do país e das primeiras mulheres no cargo, numa das províncias mais conservadoras do Afeganistão. O preço foi pesado. Sobreviveu a tentativas de assassinato e o pai foi morto, como o New York Times relatou em novembro de 2020. Em agosto de 2021, com a tomada de Cabul pelos talibãs, fugiu do país. Vive hoje na Alemanha.Recebeu em 2019 a distinção da BBC como uma das 100 mulheres mais inspiradoras e influentes do mundo, em 2020 o prémio Mulheres de Coragem do Departamento de Estado norte-americano, em 2021 o Prémio Coragem da Oxi Day Foundation e, em 2022, o prémio de direitos das mulheres da Cimeira de Genebra para os Direitos Humanos e a Democracia. Publicou o livro de memórias «Zarifa: A Woman’s Battle in a Man’s World», é protagonista do documentário «In Her Hands» e criou uma fundação para mulheres afegãs.Um país em númerosA educação é o terreno onde a sua mensagem tem mais correspondência nos dados. A UNESCO estima que, em 2026, 2,4 milhões de raparigas estejam excluídas do ensino secundário, mais 200 mil do que no ano anterior, e avisa que o número pode aproximar-se dos quatro milhões em 2030 se a política não mudar. O Afeganistão é o único país do mundo que proíbe formalmente o acesso de raparigas e mulheres à educação além do ensino primário. Em 2021, quase um milhão de raparigas frequentava o secundário. Desde 20 de dezembro de 2022, as mulheres estão também impedidas de frequentar a universidade, o que afeta mais de 100 mil jovens.O representante da UNICEF no Afeganistão, Tajudeen Oyewale, resumiu a consequência prática: «Num contexto em que as mulheres só podem ser tratadas por mulheres, quem cuidará das raparigas e das mulheres doentes no futuro, se hoje lhes for negada a educação?» As autoridades talibãs rejeitaram os apelos internacionais e descrevem a política como um assunto interno.O quadro humanitário é mais vasto. Segundo o OCHA, 21,9 milhões de pessoas, 45% da população, precisam de ajuda humanitária em 2026. Cerca de 17,4 milhões enfrentam insegurança alimentar aguda, dos quais 4,7 milhões em situação de emergência. O plano de resposta da ONU para este ano pede 1,71 mil milhões de dólares e, à data de 6 de outubro, apenas cerca de 31% desse valor estava financiado. Só em 2025 regressaram ao país mais de 2,61 milhões de afegãos vindos do Irão e do Paquistão, e, em média, cerca de 50 pessoas por mês morrem ou ficam feridas por engenhos explosivos.A isto juntam-se os desastres naturais. A 31 de agosto de 2025, um sismo de magnitude 6,0 atingiu o leste do país, junto à fronteira com o Paquistão. Até 6 de setembro, as autoridades confirmavam 2.205 mortos, entre eles 731 crianças, mais de 3.640 feridos e cerca de 6.700 casas destruídas ou parcialmente destruídas, segundo o plano de resposta da UNICEF. Foi um dos sismos mais mortíferos no país desde Herat, em 2023, e Paktika, em 2022.A regiãoA instabilidade não para na fronteira. Desde outubro de 2025, o Afeganistão e o Paquistão trocam fogo e ataques aéreos de forma intermitente. A missão da ONU no Afeganistão (UNAMA) documentou, até ao final de junho de 2026, 499 civis mortos e 1.216 feridos em território afegão, 372 dos mortos nos primeiros três meses do ano, valor superior ao de qualquer primeiro trimestre registado pela UNAMA desde 2011. Os ataques aéreos foram a principal causa das vítimas nesse período, 64% do total.Islamabad afirma que os ataques visam infraestruturas de grupos armados responsáveis por atentados no Paquistão e nega ter atingido hospitais ou instalações civis. A UNAMA só tem mandato para monitorizar o Afeganistão, e o Paquistão não divulgou um balanço global de vítimas civis. Depois de conversações na China, em abril, os dois países comprometeram-se, segundo Pequim, a evitar uma escalada.São estes alguns dos números do presente que a pergunta de Zarifa Ghafari coloca em cima da mesa.Aceda à galeria de imagens completa aqui.Todos os conteúdos da cimeira estão disponíveis na Líder TV.O conteúdo Zarifa Ghafari: «Qual é o propósito de imaginar o futuro se não tivermos coragem para mudar o presente?» aparece primeiro em Revista Líder.