Ainda que registre uma forte alta de 47% nos últimos 12 meses, o S&P Merval, principal índice do mercado argentino, registra queda de 6,64% no acumulado de 2026. Neste cenário, há oportunidades em ações? Enquanto o Itaú BBA destaca desconto relevante das ações argentinas e oportunidades em energia e bancos, o Bradesco BBI mantém recomendação underweight (exposição abaixo da média, equivalente à venda) diante da falta de gatilhos para uma recuperação mais ampla da economia.O mercado acionário argentino atravessa um momento emblemático, apontam analistas. As ações negociam com desconto relevante, a inflação desacelera, o governo conta disciplina fiscal e os investimentos em energia e mineração avançam. Mas o crédito segue fraco, a atividade doméstica ainda não mostra uma recuperação consistente e as eleições presidenciais de 2027 começam a ganhar importância para os investidores.O equilíbrio entre melhora estrutural e recuperação ainda incompleta aparece nos relatórios recentes de Itaú BBA e Bradesco BBI, que também divergem parcialmente sobre o momento de investimento.Ações seguem descontadasPara as duas casas, os ativos argentinos continuam baratos. O Itaú BBA afirma que as ações seguem negociando com desconto relevante em relação ao valor justo estimado pelo banco. Segundo a instituição, os preços atuais parecem compatíveis com prêmios de risco soberano entre 800 e 1.000 pontos-base, mesmo com o risco-país próximo de 600 pontos-base.Já o Bradesco BBI observa que o MSCI Argentina negocia a apenas 7,8 vezes o lucro projetado, abaixo da média histórica de 10,4 vezes. O setor financeiro, por sua vez, negocia próximo de 5,9 vezes lucro e cerca de 1 vez valor patrimonial, níveis considerados atrativos na comparação histórica.Apesar disso, o BBI avalia que ainda faltam catalisadores capazes de sustentar uma reprecificação mais ampla dos ativos argentinos.Eleições de 2027 continuam no radarPara o Itaú BBA, a política continua sendo o principal fator de volatilidade no curto prazo. O banco divide a tese de investimento em três camadas: o “Surf”, relacionado às expectativas eleitorais; a “Maré”, ligada à política econômica; e a “Corrente”, associada às vantagens estruturais do país.Segundo a instituição, indicadores como confiança no governo e spreads dos títulos soberanos continuarão funcionando como termômetros das expectativas para as eleições presidenciais de 2027.Leia tambémBrasil lidera atração de capital entre emergentes na Bolsa: quais os próximos passos?Entradas recordes após o primeiro turno levaram o Brasil à liderança entre emergentes; XP e JPMorgan avaliam que ainda há espaço para novas compras, especialmente em ações domésticas e sensíveis aos jurosO Bradesco BBI segue linha semelhante e, embora considere a reeleição de Javier Milei como cenário-base, avalia que o atraso na recuperação da atividade doméstica aumenta gradualmente a relevância de candidatos da oposição, especialmente Axel Kicillof.Fiscal e inflaçãoNa frente macroeconômica, os dois relatórios continuam relativamente construtivos. O Itaú BBA projeta que a Argentina registre em 2027 o quarto ano consecutivo de equilíbrio fiscal, acompanhada de nova desaceleração da inflação para cerca de 25%, após estimados 30% em 2026 e muito abaixo dos 211% registrados em 2023. Segundo o banco, o governo deve continuar priorizando desinflação e disciplina fiscal mesmo durante o ciclo eleitoral.O BBI concorda com essa visão, mas argumenta que os benefícios da estabilização ainda não se traduziram em uma recuperação ampla da demanda doméstica, do crédito e da confiança do consumidor.Neste sentido, o BBI ressalta que o crescimento real dos empréstimos desacelerou para 1,6% no terceiro trimestre, abaixo dos 4,7% observados no segundo trimestre. Além disso, os indicadores de inadimplência seguem elevados e os depósitos continuam pressionados. Na avaliação da instituição, uma recuperação mais significativa dos fundamentos bancários deve acontecer apenas em 2027.Assim, o BBI mantém recomendação underweight (exposição abaixo da média, equivalente à venda) para Argentina mesmo reconhecendo que os valuations estão mais atrativos.Energia, petróleo e mineração seguem liderandoOs bancos convergem, contudo, em verem oportunidades em setores ligados aos recursos naturais.O BBA argumenta que as vantagens estruturais da Argentina continuam concentradas em agricultura; petróleo e gás; cobre e lítio.Segundo o banco, os grandes projetos anunciados sob o regime de incentivos ao investimento (RIGI) seguem concentrados justamente nesses segmentos. Os projetos já confirmados somam cerca de US$ 50 bilhões, enquanto propostas em análise ultrapassam US$ 150 bilhões.O BBI também mantém preferência por empresas ligadas a energia e ativos reais, argumentando que esses segmentos apresentam dinâmica de lucros mais favorável do que os setores domésticos tradicionais.Alguns nomes de empresas também convergem, com o Itaú BBA favorecendo empresas de petróleo, gás e infraestrutura energética dentro do mercado argentino. Já o Bradesco BBI mantém como preferidas empresas como Banco Macro (BMA) e Vista Energy (VIST). Segundo o banco, esses ativos combinam valuations atrativos, qualidade de balanço e exposição à normalização gradual da economia argentina.Sobre uma reprecificação dos ativos, o BBA acredita que investidores de longo prazo devem olhar além do ciclo eleitoral e focar nas transformações estruturais que estão ocorrendo na economia argentina. O Bradesco BBI, por sua vez, entende que a assimetria de valuation melhorou bastante, mas ainda vê ausência de gatilhos capazes de impulsionar uma reprecificação mais ampla no curto prazo.The post Ações da Argentina estão baratas, mas é hora de comprar? Veja o que levar em conta appeared first on InfoMoney.