Cessar-fogo anunciado por Trump fracassa, Ucrânia volta a atacar refinarias russas e Zelensky acusa EUA de traição

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O cessar-fogo energético anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entre Rússia e Ucrânia fracassou poucos dias depois de sua divulgação. Nesta quinta-feira (15), forças ucranianas retomaram os ataques contra refinarias de petróleo russas, em resposta à continuidade dos bombardeios de Moscou contra instalações de energia e áreas civis da Ucrânia. A escalada militar ocorre em meio a uma crise diplomática entre Washington e Kiev, agravada pelo recente acordo firmado entre Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, para permitir a comercialização de diesel russo.A retomada das operações ucranianas foi confirmada pela Reuters e pela Associated Press. Um dos alvos foi uma refinaria da petrolífera estatal russa Rosneft, na região de Ryazan, a sudeste de Moscou. A instalação faz parte da infraestrutura de processamento de petróleo da Rússia, setor considerado estratégico pelo governo ucraniano por gerar receitas utilizadas para financiar a guerra.O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que a Ucrânia não poderia continuar respeitando uma trégua enquanto a Rússia mantivesse ataques contra sua infraestrutura energética. Segundo autoridades ucranianas, bombardeios russos provocaram mortes de civis, danos a instalações elétricas e interrupções no fornecimento de energia.Um dos episódios deixou aproximadamente 600 mil ucranianos sem eletricidade, de acordo com os relatos sobre a nova ofensiva russa. Os ataques aumentaram a preocupação com a capacidade do país de manter o abastecimento de energia durante a aproximação do inverno europeu.O acordo anunciado por Trump no domingo (11) previa a suspensão imediata de ataques contra instalações energéticas dos dois países. Em publicação na rede Truth Social, o presidente americano afirmou:“Ambas as partes concordaram. Não violem o acordo!”Entretanto, a declaração foi feita sem a divulgação de um documento formal assinado por Moscou e Kiev. Zelensky afirmou inicialmente que não havia sido informado sobre os detalhes do entendimento e que aguardava esclarecimentos de Washington. A Rússia também não confirmou, naquele momento, ter aceitado os termos anunciados pela Casa Branca.A Ucrânia demonstrou disposição para suspender ataques contra refinarias russas, desde que Moscou interrompesse os bombardeios contra usinas elétricas e outras instalações essenciais ao abastecimento da população. A reciprocidade, porém, não se concretizou.A divergência evidencia um dos principais obstáculos à proposta americana: enquanto a Ucrânia utiliza drones para atingir instalações petrolíferas russas, Moscou mantém ataques contra a rede de eletricidade e aquecimento ucraniana. As duas operações atingem setores energéticos, mas apresentam consequências militares e humanitárias diferentes.Zelensky diz que se sente traído pelos Estados UnidosO agravamento da crise ganhou novos contornos depois de entrevistas concedidas por Zelensky ao Financial Times e ao jornalista britânico Piers Morgan. O presidente ucraniano afirmou que se sente traído pela administração americana e questionou a relação de Trump com Putin.Ao ser perguntado diretamente por Morgan se se sentia traído pelo presidente americano, Zelensky respondeu: “Na verdade, sim, entre nós.”O líder ucraniano também declarou que seu país depende dos Estados Unidos como parceiro estratégico para enfrentar a invasão russa, iniciada em fevereiro de 2022.Em entrevista ao Financial Times, Zelensky anunciou o fim da suspensão dos ataques contra refinarias russas: “A restrição acabou. Terminamos.”A declaração representa uma mudança na postura de Kiev, que inicialmente havia aceitado interromper os bombardeios contra instalações petrolíferas para dar uma oportunidade à proposta americana.Zelensky também criticou a admiração demonstrada por Trump por líderes que permanecem décadas no poder. Segundo o presidente ucraniano, Trump associa a permanência prolongada no comando de um país à demonstração de força política.A insatisfação aumentou depois que Washington anunciou um acordo com Moscou para permitir a venda de diesel russo, apesar das sanções impostas à Rússia por causa da guerra.Acordo de Trump com Putin amplia tensãoO entendimento sobre o diesel foi anunciado na sexta-feira (9), depois de contatos entre Trump e Putin. O governo americano autorizou uma flexibilização temporária de restrições comerciais para facilitar o fornecimento do combustível russo.O acordo prevê uma remessa inicial superior a 300 mil toneladas de diesel para os Estados Unidos, além de outras entregas previstas para os meses seguintes. O Departamento do Tesouro americano emitiu uma autorização de seis meses para viabilizar operações relacionadas ao combustível.A decisão representa uma mudança na política de restrições comerciais adotada por Washington contra Moscou desde o início da invasão da Ucrânia.Trump argumenta que o fornecimento de diesel russo pode contribuir para aliviar os preços internacionais dos combustíveis. A administração americana enfrenta pressão doméstica diante da alta dos custos de energia, agravada pela guerra com o Irã e pelas dificuldades de abastecimento no mercado internacional.O anúncio ocorreu a poucas semanas das eleições legislativas americanas de novembro, quando os republicanos tentarão preservar sua força no Congresso.A decisão, entretanto, provocou críticas de parlamentares americanos e autoridades ucranianas, que alertam para a possibilidade de Moscou utilizar novas receitas obtidas com exportações de combustíveis para financiar operações militares.Zelensky classificou anteriormente o acordo como um sinal de fraqueza de Washington e um presente político para Putin.Trump chama ataques ucranianos de vergonhososEm entrevista à emissora americana Newsmax, divulgada nesta sexta-feira (16), Trump condenou a decisão ucraniana de retomar os bombardeios contra refinarias russas.“Tudo o que ele está fazendo é aumentar o preço mundial do petróleo. Acho isso uma vergonha”, declarou o presidente americano.Trump argumentou que as refinarias são importantes para o abastecimento internacional de diesel e que os ataques prejudicam consumidores e setores produtivos.O presidente também voltou a criticar Zelensky e afirmou considerar o líder ucraniano mais difícil de negociar do que Putin.“Não sou um grande fã de Zelensky”, disse Trump, acrescentando que acredita que os dois líderes desejam o fim da guerra, mas que considera Zelensky mais difícil de lidar do que o presidente russo.As declarações reforçam a divergência entre Washington e Kiev sobre a estratégia para encerrar o conflito.Ucrânia enfrenta restrições em tecnologia militar americanaOutro fator que agravou a crise foi a redução temporária de capacidades do sistema de comunicações por satélite Starshield, versão militar da tecnologia Starlink, desenvolvida pela SpaceX, empresa de Elon Musk.Autoridades ucranianas relataram dificuldades para operar drones militares depois que limitações foram aplicadas aos terminais utilizados em equipamentos de alta velocidade.Zelensky afirmou que as restrições não decorreram de uma falha técnica, mas de uma decisão deliberada.A Reuters informou que a ordem para limitar o sistema partiu de dentro da Casa Branca, segundo dois funcionários americanos e uma autoridade ocidental informados sobre o assunto.O governo ucraniano também relatou interrupções no recebimento habitual de alertas de inteligência sobre lançamentos de mísseis balísticos russos. Trump negou ter determinado a suspensão dessas informações.As restrições geraram preocupação porque os sistemas americanos de comunicação e inteligência desempenham papel importante na defesa aérea ucraniana e na operação de drones.Rússia e Ucrânia mantêm ofensivasA refinaria atingida na região russa de Ryazan responde por quase 5% do processamento de petróleo do país, segundo a Reuters. O governador regional, Pavel Malkov, confirmou que um ataque de drones provocou um incêndio na instalação.O Kremlin contestou a versão de que a Ucrânia havia respeitado integralmente a suspensão dos ataques. O porta-voz Dmitry Peskov afirmou que as ofensivas ucranianas contra refinarias nunca foram completamente interrompidas.O ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, classificou os ataques contra instalações petrolíferas como um desafio direto ao presidente americano.Do lado ucraniano, os bombardeios russos continuam atingindo áreas residenciais e instalações estratégicas. Na região central de Kirovohrad, um ataque com drones que durou mais de dez horas deixou três mortos e seis feridos, segundo o serviço de emergência ucraniano.Com o fracasso da iniciativa energética, permanecem as dúvidas sobre a capacidade dos Estados Unidos de negociar uma interrupção mais ampla das hostilidades.A guerra, iniciada com a invasão russa em fevereiro de 2022, já ultrapassou quatro anos e meio. Apesar das iniciativas diplomáticas de Washington, Rússia e Ucrânia continuam distantes de um entendimento sobre as condições para encerrar o conflito.A retomada dos ataques contra refinarias, a continuidade dos bombardeios russos e o desgaste nas relações entre Trump e Zelensky colocam novos obstáculos às negociações. Para Kiev, a prioridade declarada continua sendo impedir ataques contra a população e preservar a infraestrutura energética. Para Washington, a preocupação com os preços internacionais dos combustíveis passou a ocupar posição central nas discussões sobre a guerra.