Microrganismo com genoma minúsculo desafia definição do que é estar vivo

Wait 5 sec.

Um microrganismo com um dos menores genomas já identificados pela ciência está levando pesquisadores a questionar os limites do que caracteriza a vida. Batizado de Sukunaarchaeum mirabile, ele possui apenas 238 mil pares de bases de DNA e apresenta uma estrutura genética tão reduzida que pode depender de outro organismo para sobreviver.A descoberta aconteceu por acaso, durante uma pesquisa com o plâncton unicelular Citharistes regius, coletado em águas superficiais do mar na costa de Shimoda, no Japão. Os cientistas investigavam o material genético de cianobactérias que vivem em associação com esse plâncton quando encontraram uma pequena sequência circular de DNA que chamou a atenção da equipe.O estudo foi publicado na revista científica Current Biology e reúne pesquisadores das áreas de biologia e ciência da computação.Organismo tem menos DNA do que alguns vírusO Sukunaarchaeum mirabile pertence ao domínio Archaea, formado por organismos unicelulares que, assim como as bactérias, não possuem o DNA protegido por um núcleo envolvido por membrana. Apesar dessas semelhanças, as arqueias têm uma história evolutiva própria e características distintas das bactérias;O tamanho do genoma recém-identificado é particularmente impressionante. Existem vírus com genomas maiores do que o do microrganismo, alguns com 730 mil pares de bases e outros com até 2,5 milhões;A comparação chama a atenção porque os vírus não são considerados seres vivos por muitas definições convencionais, entre outros motivos, por não possuírem metabolismo próprio.O Sukunaarchaeum mirabile também apresenta limitações importantes. Seu genoma não contém quase todos os genes normalmente necessários para manter o metabolismo de forma independente. Isso significa que ele aparentemente não consegue produzir sozinho tudo de que precisa para sobreviver.Quando os resultados preliminares foram divulgados, em 2025, os pesquisadores chegaram a descrever sua existência como semelhante à de um vírus. Na versão final do estudo, porém, essa comparação foi abandonada para evitar confusão sobre sua classificação biológica.Dentro desse plâncton dinoflagelado existe um minúsculo micróbio que age mais como um vírus do que como uma célula – Imagem: Takuro Nakayama/Universidade de TsukubaLeia mais:Cientistas descobrem o segredo genético dos gatos laranjasO mistério do genoma obscuro. Ele representa 80% do nosso DNAEstudo aponta que duas aves brasileiras estão entre as mais barulhentasMicrorganismo pode depender de um hospedeiroUma das principais questões levantadas pela descoberta é como o organismo consegue sobreviver com tão pouca informação genética.Segundo os pesquisadores, o microrganismo perdeu quase todos os genes necessários para produzir nutrientes e energia, mas preservou boa parte dos mecanismos responsáveis por copiar seu próprio genoma e fabricar proteínas a partir das informações contidas no DNA.Essa combinação sugere que ele pode estar próximo do limite mínimo de informação genética necessário para uma célula continuar sendo capaz de se reproduzir e manter seu material genético.Thorsten Allers, biólogo molecular da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, explica que a capacidade de se replicar e o grau de autonomia desse processo são questões centrais para definir a vida.A descoberta, segundo o pesquisador, oferece novas pistas sobre o quão simples uma célula viva pode se tornar e ainda preservar a capacidade de reprodução e manutenção de suas informações genéticas.Os únicos organismos conhecidos com menos material genético do que o Sukunaarchaeum mirabile são bactérias que se tornaram tão dependentes de hospedeiros simbióticos que praticamente perderam sua identidade como organismos separados.Parasita ou parceiro de outro organismo?Os pesquisadores também consideram a possibilidade de o microrganismo ser um parasita, em vez de um parceiro que oferece algum benefício ao organismo que o abriga.Uma das hipóteses é que ele esteja em processo de integração com seu hospedeiro, em fenômeno que pode ajudar a compreender como células mais complexas surgiram ao longo da evolução.As mitocôndrias, estruturas responsáveis por grande parte da produção de energia nas células humanas, são um exemplo desse tipo de relação evolutiva. Segundo a explicação científica apresentada no artigo, elas descendem de bactérias que passaram a viver dentro de células eucarióticas há cerca de 1,5 bilhão de anos e mantiveram seu próprio DNA.No caso do Sukunaarchaeum mirabile, entretanto, os cientistas não identificaram evidências suficientes para concluir que exista uma relação de benefício mútuo. Como o organismo aparentemente não oferece vantagem metabólica clara ao hospedeiro, o parasitismo é uma possibilidade considerada pela equipe.Outro indício é que aproximadamente um quarto de seu genoma está dedicado à produção de grandes proteínas de membrana. Proteínas semelhantes já foram identificadas em outras arqueias parasitas, nas quais participam de mecanismos de invasão de hospedeiros.Até o momento, o Sukunaarchaeum mirabile é conhecido apenas por meio de seu genoma: os pesquisadores ainda não o observaram diretamente em um microscópio. Por isso, sua forma de vida e sua relação com o plâncton continuam sendo questões em aberto.A investigação amplia o conhecimento sobre os limites da redução genética e sobre as diferentes estratégias que organismos podem desenvolver para sobreviver, mesmo quando dispõem de um conjunto extremamente limitado de genes.O post Microrganismo com genoma minúsculo desafia definição do que é estar vivo apareceu primeiro em Olhar Digital.