À CNN, embaixador do Japão chama Brasil de potência mundial de terras raras

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O embaixador do Japão no Brasil, Yasushi Noguchi, disse à CNN Brasil em uma entrevista exclusiva com o âncora Márcio Gomes que o país é uma potência mundial em terras raras e minerais críticos e destacou o interesse japonês em parcerias comerciais.O Brasil possui cerca de 25% das reservas mundiais de terras raras, mas responde por menos de 1% da extração global do mineral. Segundo Yasushi, uma parceria entre Tóquio e Brasília poderia mudar esse panorama.“Por exemplo, algumas empresas japonesas colaboraram com uma empresa brasileira, CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), que produz nióbio, e estão colaborando para fazer bateria da próxima geração, usando o nióbio da CBMM. Dessa forma, sim, podemos criar ou podemos fazer algo de valor agregado, e, contando com a empresa japonesa ou tecnologia japonesa, estamos dispostos a ajudar”. Leia Mais Equipes de resgate tentam encontrar sobreviventes após terremoto no Japão Trump diz que crise migratória na Espanha é invasão causada por lei liberal Prédio desaba na Itália e deixa ao menos um morto e vários desaparecidos Além dessa parceria, durante a entrevista exclusiva de Noguchi com a CNN Brasil, o embaixador falou sobre a atual crise etária no Japão, os investimentos em segurança que o país tem feito, sua perspectiva sobre um arsenal nuclear e a importância do turismo para a economia nacional do Japão.Leia os principais trechos da entrevista:A China vem investindo pesadamente em armamentos; nós vemos que a questão com Taiwan é extremamente delicada. Fala-se muito numa possível ação militar chinesa em Taiwan. Então eu pergunto: qual é o papel do Japão, a responsabilidade japonesa em fazer um equilíbrio militar na Ásia? “Temos uma certa preocupação sobre o incremento de gastos militares da China; segundo a cifra de 2024, foram 314 bilhões de dólares, o que é quase metade do gasto militar da Ásia-Oceania”, afirmou Noguchi.“Outra preocupação é o comportamento chinês, enviando navios de guarda-costas chinesa ao mar territorial do Japão. Então, sim, temos preocupações, mas sempre estamos abertos ao diálogo”, respondeu o embaixador.[…] Então podemos solucionar esses problemas por meio de diálogo e, também, enquanto a Taiwan, nossa política não muda, nossas relações com Taiwan, focando em relações culturais ou comerciais, e nossa posição sobre Taiwan é que, sinceramente, desejamos que essa diferença ou questão de Taiwan seja solucionada por meio de diálogo entre China e Taiwan, acrescentou.Há muito tempo já se fala em mudar a constituição pacifista japonesa e até ir mais longe, investir em armas nucleares. O que há de real nesse investimento militar do Japão, embaixador?“Nossa política de defesa é muito clara, temos três pilares: primeiro, nossa política é aumentar nossa capacidade de defesa e também estamos aumentando gastos de defesa para o Japão, porque é o Japão que defende o Japão por si mesmo”, respondeu.“Segundo ponto é fortalecer a aliança de segurança entre Japão e Estados Unidos. Os Estados Unidos são aliados únicos para o Japão, então é muito importante fortalecer essa aliança”, disse Noguchi.“Já tive conversas duas vezes [com os líderes de ambos os países], e eles acordaram fortalecer a cooperação de segurança, cooperação de defesa, e eles acordaram desenvolvimento conjunto de mísseis ou produção conjunta de mísseis entre Japão e Estados Unidos”, acrescentou.“O terceiro ponto é fortalecer parceria com outros países vizinhos, como Coreia do Sul, Filipinas ou Austrália. Estamos aumentando nossa cooperação de defesa; dessa maneira, acredito que podemos assegurar nossa segurança nacional”, concluiu.Donald Trump, assim como ele faz com os aliados europeus, recentemente criticou os gastos militares que os Estados Unidos têm em manter bases na Coreia do Sul. Ele esteve na China numa visita praticamente inédita, um presidente americano indo visitar Pequim. Eu pergunto: até que ponto os Estados Unidos são um aliado confiável?“Como eu disse, estamos muito seguros sobre o compromisso dos Estados Unidos, e também é muito importante esforçar o esforço do Japão mesmo”, respondeu.“Quanto ao fortalecimento da capacidade de defesa, estamos aumentando nossos gastos de defesa para o Japão, e também para nós a presença das bases militares americanas é muito importante para deter qualquer agressão. Então acredito que sim, esse compromisso dos Estados Unidos sobre a aliança entre o Japão e os Estados Unidos não muda, e isso, sim”, disse o embaixador.O Japão iniciou formalmente a negociação para um acordo de parceria econômica com o Mercosul. Nós sabemos o peso que o Brasil tem dentro do Mercosul, então eu pergunto: o que particularmente interessa ou mais interessa ao Japão nesse acordo?“Essas negociações entre o Japão e o Mercosul sobre acordo de parceria econômica são muito importantes, e queremos facilitar ou aumentar mais o comércio por meio desse acordo. Queremos facilitar investimento japonês, e o Japão é um parceiro tradicional do Brasil”, afirmou Noguchi.“Estamos muito orgulhosos dos investimentos japoneses no campo da agricultura, no campo da indústria manufatureira, e entendo que, sim, empresas japonesas podem criar empregos aqui no Brasil, empregos de qualidade”, acrescentou.“Aqui no Brasil, e também agora para o Japão, uma das prioridades é segurança econômica. Sobretudo, estamos importando menos minerais críticos, como a terra rara, da China. Então, para nós, o Brasil é muito atrativo.[O país é] a segunda potência da terra rara no mundo, depois da China, e estamos colaborando com o Brasil, com as empresas brasileiras, sobre desenvolvimento de minerais críticos, incluindo terra rara”, disse.Eu pergunto se esse interesse do Japão em cima das nossas terras raras é apenas em comprá-las, levá-las para o Japão, ou se, de alguma forma, vocês poderiam investir também no beneficiamento dessas terras raras aqui no Brasil?“Então, é um ponto muito importante, porque o governo brasileiro, o presidente Lula, sempre enfatiza esse aspecto de criar valor agregado, não só exportar minerais”, ponderou o embaixador.“Por exemplo, algumas empresas japonesas colaboraram com uma empresa brasileira, A CBMM, que produz nióbio, e estão colaborando para fazer bateria da próxima geração, usando o nióbio da CBMM. Dessa forma, sim, podemos criar ou podemos fazer algo de valor agregado, e, contando com a empresa japonesa ou tecnologia japonesa, estamos dispostos a ajudar, facilitar o Brasil para esse aspecto de valor agregado sobre minerais críticos, incluindo terras raras”, acrescentou.Agora, sobre esses possíveis novos investimentos japoneses no nosso país, a gente sabe o quanto algumas nações estrangeiras, quando olham o nosso país, veem muito as potencialidades, mas veem também as instabilidades, instabilidades econômicas, instabilidades políticas, que o Brasil teve nos últimos anos. Até que ponto isso preocupa os investidores japoneses, e o que seria necessário para trazer mais segurança, até segurança jurídica, para mais investimentos japoneses aqui no Brasil. “Algumas empresas japonesas têm dificuldade com o processo burocrático, ou processo administrativo; demora tempo, mas acredito que sim. Por exemplo, esses acordos entre o Japão e o Mercosul poderiam facilitar ou melhorar condições empresariais, e esse é um ponto nas negociações em que o Japão presta mais atenção, enquanto há negociações com o Mercosul sobre esse acordo”, respondeu o embaixador.O Japão enfrenta enormes desafios econômicos neste momento. O governo do Japão pensa em fazer algum tipo de intervenção na economia? “A primeira-ministra Sanae Takaichi anunciou um novo plano econômico para reativar a economia japonesa, e uma das prioridades é que o Japão tem que aumentar o potencial do crescimento econômico, e, para isso, precisa investir para o futuro”, disse.“A primeira-ministra identificou alguns setores estratégicos, como os semicondutores, inteligência artificial, espaço, essas coisas, e o objetivo desse plano é alcançar investimento público-privado em total de 240 trilhões de ienes em 2040 […] Esse é o objetivo, a meta, quase 8 trilhões de reais em reais brasileiros”, prosseguiu.“Então, investimento para o futuro, investimento público-privado nesses setores estratégicos já está identificado, e o setor privado e o setor público vão trabalhar juntos para alcançar esse investimento”, afirmou.“E também, como eu disse, segurança econômica, como conseguir, como obter esses minerais críticos”, concluiu.Talvez um dos desafios maiores para a economia japonesa seja a falta de mão de obra. Muitos países enfrentam esse problema, mas acabam equilibrando, solucionando com a imigração. Pergunto até que ponto o país pode receber novos imigrantes, especialmente os brasileiros, visto a nossa histórica relação. “Então, sim, a falta de mão de obra ou a população diminuindo é um desafio muito grande para o Japão”, afirmou.“E o governo japonês está fazendo muitos esforços para reverter essa tendência de baixa taxa de nascimento. Ao mesmo tempo, agora cada vez mais mulheres estão no mercado laboral. Anteriormente, não muito, mas agora cada vez mais mulheres trabalhando estão no mercado laboral”, disse o embaixador.“Agora o Japão é uma sociedade envelhecida. Mas agora as pessoas idosas têm muita saúde e podem continuar trabalhando. E também estamos facilitando que as pessoas idosas continuem trabalhando”.“E também podemos usar tecnologia, como inteligência artificial. Isso ajuda muito para menos demanda de mão de obra […] Mas, sim, é verdade que em alguns setores estamos contando com trabalhadores estrangeiros”, acrescentou.“E no Japão, como sabem, temos 210 mil brasileiros trabalhando muito e contribuindo à economia japonesa. Apreciamos muito esses esforços brasileiros morando no Japão. E assim estamos aumentando, na verdade, no Japão, cada vez mais trabalhadores estrangeiros, incluindo brasileiros”, concluiu.De alguma forma, os brasileiros podem ter mais acesso a novos vistos, a mais tempo de permanência no Japão, até mesmo para trabalhar. Isso está no radar de vocês, da embaixada japonesa no Brasil?“Então, estamos, por exemplo, enquanto, para jovens brasileiros, estamos começando o sistema de working holiday. Isso facilita os brasileiros trabalhando no Japão e os japoneses trabalhando aqui no Brasil. E também estamos estendendo a exoneração de vistos para brasileiros”, respondeu Noguchi.“Estamos muito felizes de que agora mais e mais brasileiros viajem ao Japão. No ano passado, mais de 110 mil brasileiros viajaram ao Japão, 30% mais que no ano anterior”, disse.“E queremos que esses brasileiros repitam viajar ao Japão. Não só uma vez, mas várias vezes. E sejam bem-vindos”, afirmou.“E também, do ponto de vista da nossa política de turismo, aqui no Japão, no Brasil, temos 2,7 milhões de descendentes japoneses, nem que brasileiros. E eles gostam muito do Japão, querem visitar o Japão. E eles querem visitar as províncias locais de onde sua família veio […] E nossa política de turismo é convidar estrangeiros”, ponderou.O senhor falou do número de turistas brasileiros cada vez maior indo ao Japão. E não apenas turistas brasileiros. Turistas do mundo inteiro estão conhecendo o Japão. E, quando voltam para casa, levam as características do seu país. O que representa esse soft power japonês do ponto de vista global? “Quando tanta gente vai ao país, se encanta com o Japão, o que eles levam de volta para casa? […] Ficamos muito felizes que o Japão, a cultura japonesa, a culinária japonesa estejam bem apreciadas pelos estrangeiros. Incluindo os brasileiros. E agora, como eu disse, sim […] Esperamos que não [venham] só uma vez, né? Que repitam. Viajem e viajem ao Japão”, respondeu.“E também a presença dos brasileiros no Japão é muito importante, porque cada dia eles divulgam a culinária japonesa, a paisagem japonesa, a natureza japonesa, né? Por redes sociais… Acho que isso também ajuda os brasileiros a terem mais interesse em visitar o Japão. E esse intercâmbio por meio de redes sociais é muito importante”.