O uso de celular ao volante levou a polícia de Dunellen, em Nova Jersey (EUA), a adotar uma tática peculiar para fiscalizar o trânsito local. Em uma operação intensiva de seis horas de duração, um oficial vestiu um traje de camuflagem militar — o chamado ghillie suit, semelhante a um arbusto denso —, misturando-se à vegetação da via para flagrar condutores distraídos. A ação resultou em 74 autuações registradas em uma única tarde.A abordagem inusitada expõe a ineficiência da fiscalização convencional contra a desatenção no trânsito. Motoristas que dividem o foco entre a tela do smartphone e o trânsito raramente notam a presença de viaturas paradas. A ousadia da operação foi completada por um segundo policial que, operando um rádio comunicador, vestia uma camiseta com a frase “Não sou um policial”, passando despercebido pela maioria absoluta dos infratores autuados.O impacto da tecnologia embarcadaEmbora o smartphone seja o vilão mais evidente, os próprios carros modernos podem contribuir para a desatenção. A concentração de comandos essenciais, como os ajustes de climatização, em centrais multimídia complexas obriga o condutor a desviar o olhar da pista por longos períodos, potencializando os riscos.–Departamento de Polícia de Dunellen Borough/FacebookSoma-se a isso a popularização dos sistemas avançados de assistência à condução (ADAS). Tecnologias que deveriam atuar como redes de segurança, a exemplo do assistente de permanência em faixa e do controle de cruzeiro adaptativo, frequentemente geram uma falsa sensação de autonomia. Esse excesso de confiança induz o motorista a delegar a condução aos sensores do carro, aproveitando a oportunidade para checar notificações no celular. Continua após a publicidadeLeis brandas e colisões traseirasO impacto dessa combinação de fatores aparece nas apólices de seguro e nos registros rodoviários. O Insurance Institute for Highway Safety (IIHS) possui estudos que ligam a distração eletrônica ao aumento expressivo de colisões traseiras e aos episódios de excesso de velocidade por falta de percepção do fluxo. O instituto alerta que apenas a existência de normas não resolve o problema.A impunidade legislativa agrava o cenário. Em uma análise publicada em 2022, o IIHS criticou a legislação do estado da Califórnia, cujos textos interpretativos dificultam a aplicação efetiva das multas, resultando em taxas de acidentes piores que as de regiões vizinhas. Diante desse vácuo de fiscalização, iniciativas como a dos policiais camuflados podem forçar os motoristas a estarem mais atentos. Publicidade