Os operadores do mercado de câmbio, que já enfrentam uma ação coordenada — algo raro — entre EUA e Japão para sustentar o iene enfraquecido, também estão assimilando outra dinâmica incomum: a venda de euros pelos norte-americanos.O Japão confirmou nesta segunda-feira que havia realizado uma intervenção de compra de ienes na última sexta-feira em conjunto com o Departamento do Tesouro dos EUA. Mas, em vez de comprar ienes e vender dólares, o Financial Times informou que o Tesouro comprou ienes em troca de euros na sexta-feira. Uma fonte de uma corretora também disse à Reuters que o Tesouro havia intervido na cotação do euro em relação ao iene. Analistas do HSBC afirmaram que essa foi “uma medida altamente incomum — talvez sem precedentes”.A medida provavelmente reflete o desejo das autoridades norte-americanas de ajudar o Japão a fortalecer o iene, mas sem incentivar a percepção de que Washington deseja um dólar mais fraco — o que apenas complicaria os esforços para conter a inflação acima da meta, acrescentaram analistas da área de câmbio.“Considerando que, no momento, os EUA têm uma inflação acima da meta, um dólar mais fraco agora não é a melhor coisa para eles”, disse Lee Hardman, analista sênior de câmbio do MUFG.Um aumento da inflação causado por um dólar mais fraco em geral poderia dar ao Federal Reserve, que está dividido, mais motivos para elevar as taxas de juros dos EUA.O Ministério das Finanças do Japão também interveio nos mercados na quinta-feira e, além da ação de sexta-feira, houve outros movimentos acentuados nesta segunda-feira, potencialmente impulsionados por intervenções.O iene, sendo negociado a cerca de 157 por dólar nesta manhã (no horário de Brasília), se recuperou das mínimas de 40 anos, próximas a 164. Ele se valorizou quase 4% na semana passada, seu maior salto semanal em dois anos.“A escolha da moeda de intervenção pelo Tesouro dos EUA evita sinalizar um desejo de enfraquecimento generalizado do dólar, em nossa opinião, mantendo a operação restrita apenas ao iene”, afirmaram analistas do Barclays em uma nota. Após atingir 187,4 ienes na quinta-feira, o euro ficou brevemente abaixo de 180 nesta segunda-feira, uma variação de mais de 4%.Os movimentos em um par de moedas se repercutem em todo o mercado quase instantaneamente, à medida que bancos e operadores reavaliam o que uma variação no euro/iene, por exemplo, significa para as taxas de câmbio dólar/iene e euro/dólar.Coordenação mais ampla?Dados do banco central indicaram nesta segunda-feira que o Japão pode ter gastado até US$36,58 bilhões comprando ienes durante a intervenção conjunta de sexta-feira.O foco agora se volta para as implicações de longo prazo da venda do euro/iene pelos EUA.Hardman, do MUFG, disse que é improvável que isso tenha grande efeito sobre o euro, dada a quantidade relativamente limitada da moeda detida pelos Estados Unidos.Os EUA têm cerca de 26 bilhões de euros prontamente disponíveis para intervenção por meio de sua Conta de Mercado Aberto do Sistema e do Fundo de Estabilização Cambial, de acordo com os dados mais recentes.Um porta-voz do Banco Central Europeu se recusou a comentar as notícias de que as autoridades norte-americanas teriam vendido euros em troca de ienes, embora uma fonte a par dos acontecimentos tenha afirmado que o BCE esteve em contato com o Fed sobre essa questão. O Tesouro e o Fed de Nova York — que normalmente realiza intervenções em nome do Tesouro — não responderam imediatamente aos pedidos de comentário enviados por email na manhã desta segunda-feira nos EUA. A próxima questão é o que isso significa para o iene e se os bancos centrais estão coordenando suas ações de forma mais ampla.A Reuters informou na semana passada que a Coreia do Sul havia se coordenado com o Japão quando vendeu dólares e comprou won na semana passada.“Seria muito mais significativo se o BCE vendesse euros/ienes — pois isso pareceria um acordo cambial entre as principais economias para fortalecer o iene”, afirmaram analistas do HSBC.“Esse seria um evento de baixa probabilidade, mas de alto impacto.”