A eleição da rejeição

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A disputa presidencial de 2026 caminha para consolidar uma característica que se tornou recorrente nas democracias contemporâneas: eleições cada vez menos decididas pelo entusiasmo em torno de um candidato e cada vez mais influenciadas pela rejeição ao adversário.As pesquisas divulgadas ao longo dos últimos meses apontam um cenário de elevada polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Embora os levantamentos variem quanto à vantagem de um ou de outro, praticamente todos convergem em dois aspectos: a tendência de um segundo turno entre ambos e os elevados índices de rejeição dos dois principais polos políticos.Essa constatação altera significativamente a lógica da campanha.Tradicionalmente, eleições são interpretadas como um julgamento da gestão do governo. O eleitor avalia resultados econômicos, políticas públicas, segurança, saúde, educação e decide se deseja manter ou substituir quem ocupa o poder. Sob esse aspecto, a eleição de 2026 também possui um caráter plebiscitário, pois inevitavelmente representa uma avaliação da administração Lula.Entretanto, há um segundo plebiscito em curso. Parte expressiva do eleitorado também avaliará a capacidade da oposição de apresentar uma alternativa suficientemente viável para retornar ao Palácio do Planalto. A disputa deixa de ser apenas sobre aprovação do governo e passa a envolver a comparação entre duas rejeições políticas bastante consolidadas.Nesse contexto, a rejeição assume papel estratégico. Em sistemas altamente polarizados, os candidatos tendem a encontrar limites para expandir sua base eleitoral, pois boa parte do eleitorado já possui preferências relativamente cristalizadas. A margem de crescimento deixa de depender apenas da conquista de novos apoiadores e passa a depender, sobretudo, da redução das resistências junto aos eleitores moderados.Os levantamentos mais recentes mostram justamente esse ambiente. Embora a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro oscile conforme o instituto de pesquisa, ambos apresentam elevado conhecimento público e dificuldades para ampliar significativamente seus respectivos eleitorados.Esse quadro também ajuda a compreender as dificuldades enfrentadas pelos nomes posicionados fora da polarização.Há lideranças que procuram ocupar o espaço de uma chamada terceira via ou construir uma alternativa para o futuro, projetando-se nacionalmente já de olho em 2030. Alguns desses nomes podem crescer durante a campanha, ganhar visibilidade e consolidar capital político para os próximos anos, como Renan Santos. Todavia, o atual ambiente eleitoral oferece poucos sinais de que exista espaço suficiente para romper a lógica bipolar que domina a política brasileira desde 2018.Isso não significa que candidaturas alternativas sejam irrelevantes. Ao contrário, elas podem influenciar o debate público, deslocar temas para o centro da agenda, pressionar os candidatos mais competitivos e até alterar margens eleitorais importantes. O que parece menos provável, à luz das pesquisas disponíveis até o momento, é que consigam romper a tendência de concentração da disputa entre os dois polos predominantes.Talvez essa seja a principal característica da eleição presidencial de 2026. Ela não parece caminhar para ser vencida exclusivamente por quem desperta maior entusiasmo popular, mas por quem conseguir produzir menor resistência no eleitorado decisivo.Em outras palavras, não basta mobilizar a própria base. Será necessário convencer aqueles que não desejam votar em nenhum dos extremos, mas que inevitavelmente terão de fazer uma escolha no segundo turno.Durante décadas, candidatos venceram por inspirar esperança. Em 2026, o caminho para o Palácio do Planalto pode passar menos pelo voto de adesão e mais pelo voto de contenção. Se isso se confirmar, a eleição não será lembrada como a disputa entre o mais popular, mas entre o menos rejeitado.