A disparada dos preços no Brasil, maior produtor de carne bovina do mundo, significa que as famílias devem comprar menos carne vermelha quando se reunirem para assistir ao primeiro jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo neste sábado (13).César Visini, por exemplo, abasteceu a churrasqueira com frango e linguiça para o encontro em família neste fim de semana.“É mais econômico”, disse o professor de 29 anos, que mora na cidade litorânea de Praia Grande. Ele se diz irritado com o fato de os açougues estarem reduzindo a qualidade dos produtos para driblar o alto custo dos cortes nobres. “Às vezes o preço continua o mesmo, mas a qualidade piora. Isso tem acontecido bastante.”Fazer churrasco e torcer pela seleção é uma tradição antiga, mas os preços da carne bovina, perto de níveis recordes, e a crise de endividamento das famílias ameaçam reduzir o apetite dos brasileiros justamente quando o país se prepara para semanas de futebol e churrasco. Nesta edição do torneio, os brasileiros devem colocar mais frango e linguiça suína na grelha do que carne bovina, segundo projeções da Worldpanel by Numerator.Leia também: UE fecha portas para proteínas brasileiras; veja os impactos para Minerva, JBS e MBRFLeia também: Inflação sobe 0,58% em maio, um pouco acima do esperado pelo mercadoA queda no consumo de carne também amplia os desafios do governo Lula às vésperas das eleições nacionais de outubro. Para um país que está entre os três maiores consumidores de carne bovina per capita do mundo, cortar o churrasco é mais um sinal de estresse econômico — e isso pode atrapalhar as chances de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já fez campanha com a promessa de mais churrasco e cerveja.A oferta global apertada e a forte demanda externa estão levando as exportações brasileiras a níveis recordes e reduzindo a disponibilidade no mercado interno. Isso aumenta ainda mais a pressão sobre os brasileiros de baixa renda, já sem folga no orçamento e com dificuldade para acompanhar os preços elevados dos alimentos e o alto nível de endividamento.Nos três primeiros meses do ano, os brasileiros já destinaram uma fatia menor do orçamento às proteínas; a queda no volume de compra de carne bovina respondeu pela maior parte dessa redução, segundo Daniela Jakobovski, gerente de contas da Worldpanel.Na cidade mais populosa do país, São Paulo, o preço da picanha — corte favorito dos brasileiros para churrasco — passou de 81 reais no ano passado para mais de 90 reais (US$ 17,75) por quilo em março, de acordo com o Instituto de Economia Agrícola, órgão público de pesquisa.A inflação elevou o preço de alguns cortes nobres em até 11% nos últimos 12 meses, segundo dados de maio do IBGE. No atacado, os preços da carne de vaca atingiram recentemente o maior nível da série histórica de mais de 20 anos do Cepea, centro de pesquisa agrícola da Universidade de São Paulo.“Pessoas como eu, que costumavam comer carne bovina duas ou três vezes por semana, agora estão limitando isso a uma vez por semana”, disse Thiago Durões, vendedor de 37 anos que mora em Brasília. “Estamos migrando para cortes mais baratos e, em muitos casos, substituindo a carne bovina por frango, porco ou qualquer proteína que ofereça melhor custo-benefício.”O aumento da carne é apenas uma entre muitas preocupações no Brasil, onde um recorde de 82% das famílias tem dívidas em aberto, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Reduzir o endividamento dos brasileiros virou uma bandeira importante da campanha de Lula, que recentemente lançou um novo programa de renegociação de dívidas das famílias na tentativa de elevar sua popularidade.O problema é particularmente preocupante entre as famílias de baixa renda, que apresentam taxas de endividamento acima da média. (Foto: Bloomberg)O setor chegou até a culpar as apostas online. A Abiec, que representa os exportadores de carne bovina, e a Abaas, associação do varejo, pediram recentemente ao governo medidas para limitar os gastos em plataformas de apostas.Ainda assim, os brasileiros já enfrentaram tempos piores. Em 2022, quando a Argentina venceu a última Copa do Mundo, os preços dos alimentos dispararam depois que a invasão da Ucrânia pela Rússia elevou os custos globais das commodities. As empresas frigoríficas continuam otimistas com a perspectiva de vendas maiores durante o torneio, com propagandas na TV exibindo não apenas os cortes tradicionais e mais caros de carne bovina, mas também alternativas mais baratas, como hambúrgueres, nuggets de frango e cachorro-quente.“Acreditamos em um portfólio democrático, com opções de proteína tanto sofisticadas quanto acessíveis”, disse Luiz Franco, diretor de marketing da MBRF Global Foods (MBRF3), uma das patrocinadoras da seleção brasileira.Mas até as carnes mais baratas enfrentam dificuldades, já que o consumidor brasileiro é muito sensível a preço. A guerra no Irã elevou custos de fornecedores em tudo, de embalagens plásticas a frete rodoviário, e os reajustes não têm conseguido acompanhar nem compensar totalmente esse aumento, segundo Ricardo Santin, presidente da ABPA.O conflito em curso no Oriente Médio surgiu como um novo risco inflacionário para as autoridades econômicas brasileiras. O aumento do preço do petróleo tem gerado preocupação com os custos dos fertilizantes, insumo fundamental para o agronegócio do país, ameaçando elevar os custos de produção em toda a cadeia agrícola.“O choque nos preços internacionais do petróleo, além de afetar os combustíveis, pressionou os insumos industriais e os custos de transporte, com possíveis repercussões sobre itens da cadeia de alimentos”, escreveu o Ministério da Fazenda em boletim de maio. “Esse cenário é compatível com uma trajetória de inflação mais prolongada e persistente ao longo de 2026.”No Olinda Bar e Restaurante, na Asa Sul, em Brasília, a carne de sol sempre foi um prato muito pedido. Mas o choque de preços tem levado cada vez mais clientes a escolher a salada Caesar.“A carne bovina ficou muito mais cara, e isso inevitavelmente elevou os preços do cardápio”, disse Jaqueline Rodrigues, gerente do restaurante. “Mais gente está optando por proteínas mais baratas, e algumas pessoas estão até deixando de comer carne.”© 2026 Bloomberg L.P.The post Sai a carne bovina, entra o frago: churrasco da Copa do Mundo encarece no Brasil appeared first on InfoMoney.