Dossiê Cracolândia: repressão, mortes e confinamento marcaram dispersão de usuários

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Dispersão da Cracolândia, no centro de São Paulo, foi marcada por abusos policiais, ações higienistas e internações em massa, sem porta de saída eficazMarcos Sales tem 41 anos, mas parece ser mais velho. Os cabelos embranqueceram, os dentes estão estragados e falta-lhe um dos olhos. Quando a Polícia Militar passa ao lado e toca a sirene, ele não hesita e se levanta da calçada da alameda Helvétia. A reação virou automática no último ano, desde que a famigerada concentração de usuários de crack de São Paulo se partiu em dezenas de pedaços, dentro e fora do centro paulistano. Após agressões e tentativa de internação forçada, Marcos sabe bem que pode ser perigoso errar a coreografia que garante o cenário das peças de divulgação do governo paulista que decretaram o fim da Cracolândia.Fábio VieiraUsuários de crack esparsos pela região da antiga Cracolândia, onde as forças de segurança aplicam regra antiaglomeraçãoVozes como a de Marcos não aparecem nessas propagandas. Há 12 anos na Cracolândia, desde que chegou de Salvador (BA), ele é um dos poucos que seguem ali apesar da política de repressão e remoção dos dependentes químicos. O Metrópoles passou os últimos seis meses colhendo testemunhos do fim de um fluxo principal de usuários e a dispersão em grupos menores. Pesquisando por meio de processos judiciais, documentos, pedidos de Lei de Acesso à Informação (LAI) e dezenas de entrevistas, o que a reportagem encontrou foi uma rotina de brutalidade policial nas ruas do centro, acompanhada de ações higienistas e internações em massa sem porta de saída eficaz - algumas vezes com métodos que lembram os antigos manicômios.A apuração revelou que o número de pessoas internadas contra a própria vontade explodiu pouco antes da dispersão. As mortes cometidas pela polícia na região acompanharam esse movimento. O Metrópoles analisou os inquéritos de cada um dos casos ocorridos desde o início de 2023 e descobriu quantos moradores de rua ou dependentes químicos foram mortos - a maior parte deles estava desarmada. Apesar da invisibilização do problema, o brilho dos cachimbos de crack segue presente sob viadutos e pontes, em canteiros centrais, vielas e dentro de comunidades. “Falam: 'Acabou com a Cracolândia'. Mas em cada esquina que você passa você vê: 'Ó o bloco, ó o bloco, ó o bloco'", diz Marcos, referindo-se ao apelido da pedra de crack. Até maio de 2025, a Rua dos Protestantes, na região da Luz, foi o último endereço do fluxo da Cracolândia, como se convencionou chamar a maior concentração de usuários de drogas, que já chegou a ter mais de duas mil pessoas. Era uma multidão insistente, que permanecia no perímetro mesmo após uma série de ações que apostaram em internações em massa, prisões e repressão policial nas ruas. No dia 13 daquele mês, passaram a circular imagens do local vazio, com dependentes químicos migrando para diferentes áreas da cidade. Seis meses depois, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) cravou publicamente o fim da Cracolândia.Reprodução/Arquivo pessoalPoliciais militares abordam pessoas próximo da antiga Cracolândia“Estamos colocando São Paulo na direção certa, e, quando a gente bota na direção certa, o impossível acontece. A Cracolândia acabou”Declarou Tarcísio em vídeo gravado no cenário esvaziado do antigo fluxo, hoje uma mistura de antigos hotéis, comércios emparedados e conjuntos habitacionais.Carregando animação...Não foi possível carregar a animação. ANOS 1990A cracolândia começa a se formar nos arredores da estação Julio Prestes, em ruas como a dos Protestantes e Gusmões. Em 1997, é realizada a primeira grande operação de dispersão dos usuários de crack, que se espalha pelas avenidas São João, Duque de Caxias e Cásper LíberoAnos 2000Operação denominada Limpa, em 2005, coordenada pela gestão municipal de José Serra (PSDB), é realizada no quadrilátero das ruas Mauá, General Couto de Magalhães e avenidas Duque de Caxias, Cásper Líbero, Ipiranga e Rio Branco. Os dependentes químicos, então, dispersam para a alameda Glete e as ruas Cleveland e Dino Bueno.Anos 2010A cracolândia está estabelecida na região das alamedas Helvétia e Dino Bueno. Em 2012, durante a gestão de Gilberto Kassab (PSD) e Geraldo Alckmin (na época, no PSDB), uma grande operação repressiva, apelidada de Sufoco, gera peregrinações de dependentes escoltados pela PM no centro - ao fim a cracolândia segue nos Campos Elíseos.Anos 2010Durante a gestão Fernando Haddad (PT), entre 2013 e 2016, a prefeitura estabelece uma política de redução de danos -que envolve trabalho remunerado aos dependentes. Com a eleição de João Doria (PSDB), em 2017, voltam as operações repressivas e usuários dispersam para a praça Princesa Isabel.Anos 2020A operação Caronte, em 2022, já nas gestões de Rodrigo Garcia (PSDB) no governo paulista e Ricardo Nunes (MDB), teve prisões em massa de dependentes de drogas que se fixavam na praça Princesa Isabel, de mais de 535 pessoas. A cracolândia passou a ser itinerante pelo centro de São Paulo, com uma concentração maior na rua dos Gusmões.Anos 2020A partir de 2023, o fluxo de pessoas volta à rua dos Protestantes, endereço original na cracolândia, que chega a concentrar por volta de 1.200 pessoas. Em um contexto de uma série de operações policiais no centro, com prisões e aumento nas internações forçadas, em maio de 2025, o fluxo central se espalha em aglomerações menores e itinerantes.Responsável pelo “hub” de combate ao crack criado no início da atual gestão, o vice-governador Felício Ramuth (MDB) argumenta que 90% da Cracolândia era formada por um público flutuante que deixou de ir até lá após as ações do poder público e extinção de um ecossistema formado por traficantes, hotéis, ferros-velhos e uma comunidade que alimentavam a logística do local. “Nós acabamos com a Cracolândia, mas nós não conseguimos acabar com o consumo de drogas na cidade de São Paulo”, diz Ramuth.Não foi a primeira vez que um político anunciou o fim da Cracolândia. Em maio de 2017, o então prefeito, João Doria (ex-PSDB), fez o mesmo, enquanto caminhava vestido com um casaco de couro por um cenário desolado cheio de lixo. Eleito governador, lá estava ele, cinco anos depois, ao lado do atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB), tentando acabar de novo com o fluxo dos usuários que havia migrado para a Praça Princesa Isabel, na mesma região, a mando de traficantes. Coincidência ou não, a operação da PM que usou bombas para dispersar os usuários e retomar à praça em 2022 também ocorreu em maio. A diferença é que, desta última vez, em 2025, o fluxo não voltou a ter grandes concentrações.Fábio Vieira/ MetrópolesFuncionários da prefeitura fazem limpeza da Praça Princesa Isabel após dispersão de dependentes químicosO que o governo Tarcísio vê como grande trunfo para a desmobilização da Cracolândia foi o processo de desmonte da Favela do Moinho - comunidade que surgiu entre trilhos de trem no fim da década de 1980, em uma área industrial desativada no centro - e as prisões de suspeitos de liderar o tráfico na região. Para a gestão, foi um nó logístico no crime, um diferencial em relação a outras administrações. Tarcísio já disse que o local era “o coração do abastecimento de drogas”, enquanto que o Ministério Público de São Paulo (MPSP) o classificou como "quartel-general" do Primeiro Comando da Capital (PCC), rótulos que geraram críticas de movimentos de direitos humanos sobre a estigmatização de toda uma comunidade. Hoje, pouco mais de 30 famílias seguem vivendo nas ruínas dos quarteirões que já abrigaram 850.Reprodução/Imagem obtida pela Defensoria PúblicaComo o conhecido jogo de tabuleiro War, o governo passou a colocar seus exércitos nas áreas conquistadas, enquanto os usuários passaram a ser notados em pontos mais distantes. É possível ver as sirenes das viaturas dia e noite na Favela do Moinho. O local mais policiado do tabuleiro, porém, é a região entre a Estação da Luz e a antiga Estação Júlio Prestes, quadras que por anos foram tomadas pelo fluxo. Simbolicamente, foi lá que o governo decidiu instalar seu futuro centro administrativo - projeto vitrine de Tarcísio que vai concentrar prédios de órgãos do governo no local.O exército que garante aquele território inclui a Inspetoria de Operações Especiais (Iope), da Guarda Civil Metropolitana (GCM), e policiais do Batalhão de Choque, da PM. Munidos de fuzis, eles agem como se estivessem num checkpoint, com constantes abordagens aos que aparentam estar em situação de rua ou com cachimbo em mãos.Fábio Vieira / MetrópiolesViatura da Guarda Civil Metropolitana na ultrapoliciada esquina das alamedas Dino Bueno e HelvétiaA reportagem acompanhou durante um dia o trabalho de policiais ali. Os repórteres caminharam sem ser incomodados pelo local, onde apenas pessoas que aparentam estar em situação de rua e com cachimbos eram paradas e revistadas continuamente. Foi ali que a reportagem encontrou o baiano Marcos Sales. “Só não estão parando vocês porque sabem que são jornalistas. Se fosse a gente, eles já chegam dando sirene”, diz.Poucos metros à frente, um dependente químico que se identifica como Marcos Antônio, conta que se firmou uma regra quase oficial: qualquer grupo com mais de duas pessoas deve ser dispersado. “Está se espalhando [o fluxo] para zona sul, zona leste, zona norte, interior, outros vão para a Baixada [Santista], porque nesses lugares a polícia não tem tanto preconceito com morador de rua. Aqui, eles falam que são mandados para isso: ‘Não pode deixar dois ou três parar juntos na calçada. Nenhum lugar’. Eles falam: ‘Não para não, é pra andar. A gente não tem perna mecânica para ficar andando 24 horas por dia’”, afirma. Quem desobedece, diz ele, recebe spray de pimenta, golpes de cassetetes ou chutes.Caio Castor / InstagramGCM atira gás de pimenta em mulher durante dispersão em 2022Uma das táticas do governo para esvaziar a Cracolândia é prender os dependentes químicos que tenham alguma pendência na Justiça, seja pessoas procuradas ou descumprindo medidas cautelares. O governo diz ter identificado 4,8 mil frequentadores da antiga Cracolândia -ressaltando que 60% teriam antecedentes criminais -e câmeras do programa Smart Sampa da prefeitura foram colocadas até nos Centros de Atendimento Psicossocial (Caps). Como usuários de crack relatam que as viaturas da PM também são usadas para levar pessoas para internação, eles dizem que nunca se sabe se quem embarca numa delas acabará num serviço de saúde ou atrás das grades.As tropas vão ganhando terreno por outras regiões do centro conhecidas por pequenos fluxos de usuários. Em um deles, encontra-se o bailarino Paulo Henrique Santos, que se identifica em uma rede social como ator, ativista e “um noia talvez”. Conhecido como PH, ele exibe passos de dança por cenários degradados do centro de São Paulo. A coreografia policial, porém, ele se recusa a seguir. Quando isso ocorre, conta PH, os agentes ameaçam forjar drogas ou armas com os dependentes para falsificar prisões em flagrante - situação que todos os entrevistados pela reportagem já descreveram.Joelto MataUma dessas abordagens evoluiu para uma agressão em que PH achou que iria morrer. “O policial começou a torcer meu dedo, a dar pontadas na minha costela e apertar minha traquéia. Eu sei que se você apertar por determinado tempo, a pessoa pode ter insuficiência respiratória e desmaia. E ele apertou por 30 segundos, mais ou menos.”Se tivesse morrido em uma circunstância do tipo, não seria o primeiro.Em dois anos, durante o período de dispersão da Cracolândia, o número de mortes cometidas pela Polícia Militar no centro da cidade aumentou 56%. Na região da 1ª Delegacia Seccional da capital, que compreende nove distritos policiais, os casos passaram de 16, em 2023, para 25 no ano passado. O Metrópoles analisou as ações judiciais referentes a cada uma dessas mortes e identificou 11 vítimas que foram apontadas como moradores de rua ou dependentes químicos, seja por testemunhas e familiares ou pelos próprios PMs envolvidos. Em 10 das 11 mortes analisadas, os policiais não usavam bodycams.Reprodução/Justiça de SPReprodução de câmera da farda de policiais que mataram Jeferson de Souza.Considerando o relato oficial, pelo menos oito dos mortos estavam desarmados. Nos demais casos, a versão policial é contestada. Um deles é o de Jeferson de Souza. As imagens das câmeras corporais desmontam completamente a narrativa dos PMs. O alagoano de 24 anos foi executado com três tiros debaixo do viaduto 25 de Março, sob a justificativa de que "teria reagido tentando agarrar a arma de um dos policiais". Na gravação, é possível vê-lo chorando, com as mãos para trás, sem esboçar qualquer reação, antes de ser fuzilado três vezes pelo tenente Alan Wallace dos Santos Moreira.“Dava para ver no olhar dele um pedido de socorro, sabendo que ali era o último suspiro dele. A gente imagina isso, quando olha de um lado um fuzil, do outro lado um fuzil, infelizmente, sabe que é o seu último adeus”diz a irmã de Jeferson, Micaele Soares de Souza. “Dói minha alma só de ver esse vídeo.”O rapaz havia deixado Craíbas, cidade do interior de Alagoas, em 2019, após a morte da mãe. Dependente químico, vivia desde então nas ruas do centro da capital paulista. O local escolhido para a execução de Jeferson, debaixo de um viaduto, também não foi excepcional. Levando em conta todas as mortes registradas na área da 1ª Seccional da capital, há, pelo menos, nove pessoas mortas debaixo de viadutos, imóveis abandonados ou na margem do Rio Tietê, longe de testemunhas e câmeras de segurança.Foi em um lugar como esse que Luiz Antonio Carvalho diz ter assistido a PMs matarem seu irmão Losrran. Em 2 de fevereiro do ano passado, a dupla estaria no terceiro andar de uma ocupação na Avenida Celso Garcia, na região do Brás, com um grupo de pessoas consumindo crack quando a Força Tática do 13º Batalhão chegou. Luiz Antonio diz que os policiais mandaram todos saírem do cômodo e atiraram contra Lossran enquanto gritavam “larga a arma”, para simular um suposto confronto. Com medo, ele decidiu deixar a cidade. A versão policial é que os agentes tinham visto um indivíduo em atitude suspeita correndo em direção ao imóvel e foram recebidos a tiros no local.No caso de Rafael Oliveira, 44 anos, morto em março de 2024 por um policial que voltava do trabalho, a irmã dele passou a procurar testemunhas por conta própria para esclarecer o crime, que não havia sido registrado por câmeras. Quem atirou disse que estava estacionando o carro em um bolsão no Parque Dom Pedro quando Rafael anunciou um assalto e fez menção de estar armado. Usuária de crack, a vítima morava em um barraco bem em frente e ganhava trocados como flanelinha. Carolina Oliveira, 41 anos, colheu relatos de vizinhos e ouviu da companheira do irmão que o assassinato teria ocorrido após uma discussão sobre a vaga do carro. Ela entregou um conjunto de depoimentos ao Ministério Público, que determinou que a polícia procurasse a testemunha ocular do caso, o que não foi feito até o fechamento desta reportagem.“Ninguém quer saber de morador de rua, ninguém quer saber do pessoal da Cracolândia. Eles só querem dispersar o pessoal e não querem ajudar”desabafa Carolina.Defensoria PúblicaNo condomínio Side Barra Funda, que fica a cerca de 3 quilômetros do último endereço da velha Cracolândia, as notificações no celular não param de chegar conforme vai escurecendo. Desde a dispersão de usuários de drogas, em maio do ano passado, os moradores passaram a fazer atualizações frequentes no grupo de WhatsApp do prédio sobre os novos grupos de dependentes químicos que aparecem no bairro. A minicracolândia que apareceu ali repete a dinâmica encontrada em outros bairros da cidade. Saíram as áreas degradadas de casarões caindo aos pedaços e entraram no mapa dos fluxos regiões densamente povoadas cheias de prédios e comércios.“Tá um caos. Infelizmente, de dois meses para cá, aumentou muito”, diz um morador em um grupo exclusivo a moradores do condomínio. “Esse ‘fim da Cracolândia’ trouxe esses vendedores [de crack] para cá.”Morador do condomínio, o professor universitário Cesar Molina, 39 anos, passou a registrar o dia a dia dos usuários de sua janela. As fotografias, em sua maioria, mostram grupos que se concentram para usar crack em um ponto de ônibus próximo. Segundo ele, mulheres, idosos e crianças estão assustados. “Uma vez um deles parece que surtou e tentou subir a rampa do estacionamento, mas desmaiou. O que o pessoal mais tem medo é na hora de ir ou voltar para a estação Barra Funda”, diz.Fábio VieiraUsuários de crack em um fluxo no bairro dos Campos Elíseos, em maioOs usuários de crack que se espalharam pela cidade também vivem em estado de alerta, frequentando territórios desconhecidos. Em janeiro de 2025, moradores do Jardim Tremembé, na zona norte da cidade, se reuniram por meio de grupos de WhatsApp para expulsar usuários de drogas que haviam migrado para o bairro. Eles percorreram as ruas da região, de moto ou a pé, agredindo os dependentes químicos que encontravam pelo caminho com socos, chutes e pauladas. A ação foi registrada em vídeo e divulgada nas redes sociais. Depois disso, o PCC baixou uma ordem proibindo esse tipo de atitude.Depois do espalhamento dos usuários pela cidade, criou-se um vácuo de dados que reforça o discurso oficial de fim do fluxo. As contagens diárias de usuários de drogas, feitas em quatro diferentes momentos do dia, chegam a apontar para cerca de 300 dependentes em diferentes locais, como Campos Elíseos, Marechal Deodoro, Santa Cecília e parte do Parque Dom Pedro. A conta, contudo, não inclui algumas das aglomerações na região da avenida do Estado e nem regiões mais afastadas --como, por exemplo, aqueles que se esgueiram, sob risco de atropelamento, por trechos das marginais Tietê e Pinheiros.Defensoria PúblicaUsuários de crack em um fluxo no bairro dos Campos Elíseos, em maio - 24/06/2024O sistema usado pela Prefeitura de São Paulo para medir os usuários no centro por meio de drones ficou inviabilizado pela dificuldade em medir aglomerações menores. Segundo documentos de 2025, diversas contagens deixaram de ser feitas porque os fluxos concentravam menos de 100 pessoas. Esse fato é agravado por boa parte das minicracolândias ficarem embaixo de árvores, pontes e viadutos, justamente para evitar esse tipo de monitoramento.São lugares onde a polícia chega, mas nem sempre os assistentes sociais e de saúde que oferecem uma ampla gama de serviços aos dependentes químicos do centro - como hospedagem, atendimento médico e psicossocial, emissão de documentos, ou mesmo as internações. Trabalhadores da saúde ouvidos sob anonimato pela reportagem confirmaram o desafio e o Conselho Municipal de Álcool e Drogas (Comunda) enviou ofício à prefeitura em março deste ano cobrando sobre as medidas para passar a atender aos novos fluxos.Reprodução/Arquivo pessoalProfissionais da saúde e policiais em atuação junto a dependentes químicos no centro de SPUm indício de que esse braço do estado pode não estar chegando ali é a queda de 33% nas internações voluntárias desde que a aglomeração central espalhou-se pela cidade. Se depender do governo, isso é uma situação temporária. A ordem é seguir internando. “Repito, quantas vezes forem necessárias, vamos levar atendimento e cuidado para essas pessoas. Se ela quiser ser internada 10 vezes, nós vamos oferecer 10 vezes”, diz o vice-governador Felício Ramuth, que nega que a dispersão tenha prejudicado o atendimento aos usuários.Internações no Hub do governo de SPWilliam CardosoAo todo, o governo estadual contabiliza mais de 30 mil internações desde a inauguração do Hub de Cuidados com Crack e Outras Drogas, em abril de 2023. Nos dois anos que antecederam a dispersão, as internações involuntárias - com autorização da família ou de um médico - saltaram 174%. Maioria, as voluntárias seguiram a mesma trajetória: alta de 211%. Não há dados comparáveis anteriores à criação do hub. Marcos Sales, o dependente químico citado no início da reportagem, teria entrado nessa estatística se não tivesse reagido à abordagem. “Me disseram: ‘A gente tem ordem de internação, você querendo ou não’”, relata Marcos, que acabou fugindo antes. "Levaram um monte de gente.”Alta nos hospitais da Prefeitura de SPA política de internações ganhou tração com o hub criado por Tarcísio e coincidiu com um entrosamento maior com a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que turbinou as ações de abstinência entre dependentes químicos. Durante algum tempo, o próprio vice-prefeito, coronel Mello Araújo (PL), frequentou quase diariamente a Cracolândia para tentar convencer usuários a se internarem e se concentrarem em áreas onde ficariam confinados.Nesse contexto, as internações voluntárias em hospitais municipais saltaram de seis, em 2023, para 618. As involuntárias, de três para 216. Além disso, documentos enviados pela prefeitura ao Ministério Público mostram que o tempo médio de permanência dos dependentes nos equipamentos de saúde também aumentou: as estadias com mais de 30 dias dobraram no período. No papel, o período maior teria como objetivo reduzir as recaídas, por meio de etapas que levariam à reinserção na sociedade e contato com a família. Na prática, o que a reportagem ouviu de pacientes e de profissionais da saúde é que o tempo prolongado de internação pouco adianta sem uma política eficaz de porta de saída.Etapas de internaçãoCarregando animação...Não foi possível carregar a animação. ENTRADAServiço Integral de Acolhimento Temporário (SIAT I), Contato inicial feito pelo SEAS IV (Assistência Social) e pelo Consultório Redenção na Rua (RnR)CAPS ADEncaminhamento para o CAPS AD IV Redenção (desintoxicação de até 14 dias, sem confinamento)HUBOu diretamente para o Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas (confinamento de até três dias enquanto aguarda leito em um hospital)HospitalLeitos de desintoxicação: hospitais como Cantareira, Bezerra de Menezes, Lacan e Santa Rita (permanência de 28 a 30 dias)SCPServiço de Cuidados Prolongados - período de internação de até 90 diasMoradia e saúdeMoradia assistida e acompanhamento intermediário: SIAT IIMoradia e trabalhoDistante da cena de uso central: SIAT III Centros Temporários de Acolhida (CTAs) ou Centros de Acolhida (CAs) Programa Operação Trabalho (POT)SaídaRedenção e Programa Reencontro Reinserção na família e sociedadeEvidência disso é a raridade de pacientes que chegam a essa etapa, conforme os relatos colhidos pelo Metrópoles. Os próprios dependentes ouvidos pela reportagem afirmam ter passado por dezenas de internações, em um ciclo de porta giratória. Um deles citou nada menos do que 30 delas. Muitas vezes, o motivo é a desistência ao longo do caminho, logo na etapa de desintoxicação. Um boletim de ocorrência registrado por um hospital, por exemplo, narra a história de uma paciente internada compulsoriamente que, ao ser levada para a realização de um exame, desceu do carro e “desapareceu”. A profissional que a acompanhava até tentou ir atrás, mas não teve sucesso. Esse tipo de caso não é raro.Rafaela Feliciano / MetrópolesDependentes químicos no antigo fluxo da cracolândia no centro de SPTrabalhadores que atuam diariamente na rua contam que, após receberem alta, os pacientes deixam os hospitais “apenas com um ‘papelzinho’ na mão”, sem uma orientação clara para continuidade do tratamento. "Deu seu tempo, já era, tem que sair”, diz Daniel Nunes, 32 anos, ex-paciente, que sentiu falta de um acompanhamento do seu caso. Quando voltou da internação, ele era chamado de “gordinho”. Nas ruas, voltou a emagrecer. Na fila de um albergue da cidade, sob olhares da Guarda Civil Metropolitana que impedia qualquer um de sentar na calçada para esperar a refeição, ele apelou emocionado à reportagem: "Arruma uma internação pra mim, isso não é vida pra mim não."Na visão da psicóloga Beatris Dotta, integrante do Conselho Regional de Psicologia que atende a população de rua há 12 anos, o enfoque puramente nas internações acaba ignorando um fator bem importante quando os pacientes voltam às ruas: a vida delas continuará lá. Quando chegam até o final do tratamento, à custa de forte medicação, os pacientes voltam ao mesmo ambiente de antes - sem trabalho, convivendo com pessoas que usam drogas, com vínculos familiares rompidos, em albergues municipais."Não adianta tirar aquele sujeito da vida dele, da história dele, do contexto dele, porque [depois] ele vai voltar para a vida real. E, quando ele voltar para a vida real, vai voltar para todos os problemas que alimentam aquela situação"explica Beatris. Segundo ela, muitas vezes, a aceitação à internação é, na verdade, uma busca por moradia, comida ou um simples banho.Rodrigo Freitas/MetrópolesPerto do antigo reduto de usuários de crack, na Barra Funda, um prédio que parece um caixote quadrado e sem janelas exibe uma placa azul: SCP AD Boracea, sigla para Serviço de Cuidados Prolongados Álcool e Drogas. O local foi criado em 2023 pela prefeitura para a pós-internação com foco na abstinência, tendo como público-alvo pessoas como Daniel. Desde que foi implementado, o serviço tem sido administrado pela Organização Social de Saúde (OSS) Associação Filantrópica Nova Esperança (Afne), responsável pelos equipamentos de saúde no centro da capital, e hoje alvo de um processo de rompimento contratual com a prefeitura por suspeitas de corrupção.Entre trabalhadores da saúde ouvidos pelo Metrópoles, a entidade foi apontada como responsável por promover uma indústria de internações nos equipamentos de saúde, reeditando as práticas dos antigos manicômios, como “amarrar, amordaçar e prender” pacientes. Em uma reunião interna da Afne realizada no final de 2024, uma coordenadora da unidade defendeu a política de confinamento, como mostra um áudio obtido pela reportagem.“A própria OMS, quando coloca redução de danos, ela faz muito em relação à saúde física, mas em relação à saúde mental, ela deixa clara a necessidade de se internar, a necessidade de ser duro com determinadas coisas”, afirmou, antes de ser afastada no último ano. “Felizmente, muitos desses militantes [da luta antimanicomial] estão perdendo força”disse a funcionária.Há pacientes que estão internados quase permanentemente no SCP, como é o caso de Jaciara, há três anos na unidade Boracea, segundo servidores ouvidos pela reportagem. Citado por diversos funcionários da saúde que atuam no acolhimento a usuários, o caso é visto por eles como um exemplo da política manicomial adotada no SCP. O promotor Arthur Pinto Filho, que acompanha a situação da Cracolândia há diversas gestões do governo e da prefeitura, é taxativo sobre esse tipo de prática.Fábio Vieira / MetrópolesHomens consomem crack em região dos Campos Elíseos“A lei é clara, o prazo máximo [de internação] é 90 dias. Aliás, eu nunca peguei [casos] nem próximo de 90 dias. É muito tempo mesmo. É evidente que é crime. Inclusive, cabe habeas corpus para soltar a pessoa. É absurdo”afirma Pinto Filho.De acordo com os profissionais da saúde, o que acaba impulsionando esse tipo de situação é a existência de uma classificação interna dos servidores chamada “Mais Vulneráveis”, os MVs, um conceito criado em maio de 2024 e que tem ganhado força entre os profissionais do SCP. A terminologia seria aplicada a usuários que apresentam casos graves de desorganização mental, além de mulheres, pessoas com deficiência, idosos, crianças e adolescentes e enfermos, e é usada como justificativa para encaminhar os pacientes diretamente para a internação - e lá mantê-los por prazo “indeterminado”.Rodrigo Freitas/MetrópolesServiço de Cuidados Prolongados para dependentes químicos, no centro de SPLonge das ruas, esses usuários deveriam estar mais seguros. No entanto, nem sempre isso corresponde à realidade. O estupro de uma paciente por outro interno chocou funcionários da OSS, que relataram o caso à reportagem. Eles cobraram providências em uma carta aberta, na qual apontaram que a vítima foi transferida de unidade. Segundo eles, o episódio foi abafado. Em outros casos, as agressões a usuários em tratamento partiram de um enfermeiro da unidade e foram relatadas pelos próprios colegas em um processo trabalhista contra a Afne. Mesmo assim, ficou no cargo por mais de um ano após receber apenas um dia de suspensão do trabalho como punição. À reportagem, ele negou qualquer agressão.Antes de chegar ao SCP, os usuários passam por diversos hospitais. Os principais são: Bezerra de Menezes, Americo Bairral de Psiquiatria, Cantareira e o famoso hospital Philippe Pinel, em Pirituba. Fundado em 1929, o local virou sinônimo de hospício em São Paulo, onde dizia-se que alguém que enlouqueceu iria “parar no Pinel”. Muitas vezes, ao longo dessa jornada, os pacientes caem num limbo e perdem qualquer conexão com o mundo exterior. Foi o caso de Clayton Silva, irmão mais velho de Christiane Souza, 46 anos, e frequentador da Cracolândia, os dois ficaram sem contato por três anos. Em março de 2023, ela recebeu uma ligação comunicando que Clayton havia morrido após um quadro de hipertensão e insuficiência respiratória no Hospital Cantareira, onde havia se internado voluntariamente para tentar se desintoxicar das drogas.No lugar onde um dia já foi a Cracolândia, nos Campos Elíseos, o governador Tarcísio de Freitas prevê uma grande esplanada, com sete edifícios e 10 torres para abrigar 22 mil servidores estaduais. Cerca de 600 famílias serão desapropriadas para dar lugar ao espaço, que será gerido por um consórcio liderado pela construtora Rezek - o que urbanistas enxergam como início de um grande projeto de gentrificação que inclui também a retirada da Favela do Moinho.A seguradora Porto Seguro, que comprou diversos terrenos com o local desvalorizado e fez da região seu quartel-general, será uma das beneficiadas diretamente pela transformação da área. O mercado imobiliário, que já vinha se preparando há anos para a virada de chave nos Campos Elíseos e na Luz, também prepara diversos lançamentos. Não muito longe dali, a prefeitura planeja fazer uma Times Square paulistana, enquanto espalha jardins de chuva em uma maneira de evitar aglomerações de usuários, inclusive em locais onde não chove, como debaixo do Elevado João Goulart, o Minhocão.Rodrigo Freitas / MetrópolesJardins de chuva instalados debaixo do Minhocão, onde usuários de crack costumavam ficarSeja pela arquitetura ou pelo policiamento hostil, dependentes químicos entrevistados pelo Metrópoles não se sentem incluídos nesse futuro auspicioso projetado para a região. A maioria deles se fixa em viver um dia de cada vez. Marcos Sales, por exemplo, queria poder sentar em paz na calçada e comer um pacote de bolacha sem ser enxotado pela polícia. Daniel Nunes, mais uma chance de reabilitação.Paulo Henrique, por outro lado, não se conforma com o tratamento que recebe e quer continuar chamando a atenção para isso com vídeos nos quais dança em lugares sujos e com roupas rasgadas. “Eu quero incomodar bastante", provoca, pouco antes de mostrar a sua dança à reportagem. A leveza dos passos contrasta com a dureza do ambiente, sem música alguma, tomado pelo som dos carros que passam na avenida Amaral Gurgel, debaixo da ligação Leste-Oeste.O hub do governo contra o crack fica em um prédio histórico na Rua Prates, na Luz. Foi lá que o vice-governador Felício Ramuth (MDB) atendeu a reportagem, munido com uma pasta cheia de dados e de estatísticas. Ele destacou as operações contra o tráfico na região da Cracolândia, defendeu a política de internações em série, e negou que haja uma regra que impeça aglomerações de mais de três pessoas.Ramuth sustenta que as abordagens constantes se devem a medidas para retirar armas cortantes - o que teria reduzido os crimes na região. “Agora, quando a gente vê uma concentração, três, quatro, cinco pessoas, a polícia atua porque, via de regra, se as pessoas estão consumindo alguma droga, perto dali tem algum fornecimento de drogas."Fabio Vieira / MetrópolesAglomeração de usuários de drogas na região do Parque Dom Pedro, em maioO governo afirma ter detido 9.609 pessoas na região desde 2023, com apreensão de 166 armas e 791 quilos de drogas. Segundo a gestão, policiais realizam treinamento para abordagem à população de rua e desvios são investigados.Também procurada, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que o atendimento aos dependentes é feito por equipes de saúde e assistência social - não pela Guarda Civil Metropolitana -, e eventuais desvios de conduta são investigados.Sobre os tratamentos, a administração afirmou que são monitorados por órgãos como o Ministério Público. Já em relação ao Serviço de Cuidados Prolongados (SCP), a prefeitura afirma que ele integra a rede pública e atende casos mais complexos, o que pode justificar maior tempo de permanência, referindo-se também ao caso de Jaciara.Marcelo S. Camargo / Governo do Estado de SPSede do Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas, na LuzA Afne, responsável pelo SCP, afirmou que se trata de um serviço de adesão voluntária e com tempo máximo de 90 dias, no qual o paciente pode solicitar alta a qualquer momento. “Em situações pontuais, pode haver permanência superior ao prazo inicialmente previsto, especialmente quando o usuário aguarda transferência para serviços de saúde ou da assistência social”, diz a nota encaminhada ao Metrópoles.Sobre o relato de estupro, a entidade afirmou que trata com “absoluta seriedade” qualquer denúncia do tipo. “Tais situações, quando formalmente apresentadas, são devidamente encaminhadas para apuração pelos órgãos competentes, nos termos da legislação aplicável”, afirmou a Afne. A instituição acrescentou ainda que o enfermeiro acusado de agredir usuários é um ex-colaborador desligado há mais de um ano, que nunca ocupou cargo de chefia ou coordenação.