Enquanto gigantes de diversos setores — de varejistas a farmácias — correm para se tornar marketplaces, a Nuvemshop segue um caminho distinto: o de fortalecer a marca própria do lojista. Para Alejandro Vázquez, cofundador da empresa, a dependência excessiva de um único canal de vendas é o maior risco que um empreendedor pode correr. “Se o marketplace representa 80% da sua receita, uma mudança de algoritmo pode matar seu negócio”, afirma Vázquez, em entrevista ao InfoMoney. Para isso, a estratégia da companhia é oferecer uma plataforma holística que integra e-commerce, lojas físicas e marketplaces, devolvendo ao lojista o controle sobre seus dados, seu estoque e, principalmente, seu relacionamento com o consumidor final.Essa visão de longo prazo tem sustentado o crescimento da Nuvemshop, que hoje processa cerca de 2% do e-commerce brasileiro e 5% do argentino. Com uma estrutura de capital sólida, fruto de rodadas de investimento robustas em 2021, a empresa tem focado seus esforços em lucratividade e eficiência, ajudando marcas de todos os tamanhos, das pequenas nativas digitais às grandes redes com faturamentos milionários, a otimizarem suas margens em um cenário econômico desafiador.Nesta entrevista, Vázquez discute os pilares que sustentam essa ambição: logística integrada, meios de pagamento proprietários e a promoção ativa do modelo D2C (direct to customer). Ele também aborda o futuro da companhia, incluindo a visão sobre um eventual IPO no médio prazo e o objetivo de alcançar 1 milhão de clientes e processar 10% do e-commerce da América Latina. Confira, abaixo, a entrevista editada.InfoMoney: Você é um dos fundadores da empresa. Como foi o início da empresa, na Argentina?Alejandro Vázquez: Cinco fundaram a companhia há quase 20 anos, mas dois saíram, em momentos diferentes, por questões pessoais. Nossa história começou em 2008, na universidade. Meus sócios estudavam Engenharia, Informática ou Negócios e Sistemas e precisavam fazer um estágio. Em vez disso, perguntaram à coordenação se podiam começar um projeto do zero, com base tecnológica. Naquela época, o e-commerce representava menos de 1% das vendas do varejo e havia muita desconfiança para comprar online. Pensamos em criar um marketplace que conectasse as mídias sociais (Facebook, Twitter, Orkut) para tornar o comércio mais seguro.Não encontramos o modelo de negócio certo para aquele marketplace, mas descobrimos algo maior: existiam muitas marcas de moda, acessórios e beleza que tentavam ter um e-commerce, mas sofriam ao contratar web designers e desenvolvedores. Era caro, demorado e não tinham autonomia. Entendemos que essas pessoas buscavam uma forma simples de vender online e direto para o consumidor, sem intermediários. Entre 2010 e 2011, pivotamos para criar uma plataforma suficientemente simples para que qualquer pessoa, sem conhecimentos técnicos, pudesse montar um e-commerce por um valor acessível. Leia tambémCanva reforça operação no Brasil e mira nova fase com inteligência artificialEm entrevista exclusiva, country manager do Canva, Alberto Ceresa, detalha estratégia de expansão e IA e planos para o Brasil IM: A busca de vocês era por clientes que ainda não estavam na internet. AV: Exato. Começamos na Argentina em 2011, tocando porta a porta para validar a ideia e a maioria não vendia pela internet. Os que vendiam, faziam isso em marketplaces ou começando em redes sociais, mas não existia Instagram ou WhatsApp. Participamos de programas da Intel e do Governo de Buenos Aires, o que nos abriu portas para investidores. Captamos uma rodada de investimento anjo de US$ 300 mil no final de 2011 com pessoas que entendiam do mercado, incluindo um dos fundadores da OLX.IM: O negócio começou na Argentina, mas vocês, hoje, se consideram uma empresa brasileira. Como foi essa mudança? AV: Com uma mistura de ambição e ingenuidade, olhamos para o Brasil como o lugar onde devíamos desenvolver a Nuvemshop. A Argentina é um mercado bom, porém pequeno. Precisávamos de escala. Em 2012, logo após a rodada de investimentos, começamos a operação aqui. Fomos em um evento de e-commerce e saímos para falar com os lojistas e entender como vendiam e se teriam interesse em vender online — e falando um português muito pior que o de hoje.Tínhamos essa convicção de que precisávamos construir algo na escala da América Latina e o Brasil estava muito evoluído em termos de e-commerce. Vimos o tamanho da oportunidade e decidimos vir. Foi como montar tudo do zero, até o nome. Para os países que falam espanhol, somos Tienda Nube; aqui, Nuvemshop. De 2011 até 2020, focamos apenas em ser uma plataforma de e-commerce.Nascemos na Argentina, mas, hoje, nos consideramos uma companhia brasileira que opera em outras geografias da América Latina, como Colômbia, Chile, México e Argentina. IM: Hoje, a maior parte da equipe fica no Brasil? Como é a distribuição de funcionários?AV: Das 1.500 pessoas que trabalham conosco, mais de 1.000 estamos no Brasil. Eu acabei de voltar para Buenos Aires, mas eu morei aqui no Brasil 12 anos. Boa parte da liderança é brasileira. Nos esforçamos para isso. IM: Quando chegou a pandemia, a Nuvemshop já tinha um tamanho relevante, mas vocês viveram um momento de crescimento muito forte. Como foi absorver a demanda crescente e ajustar a equipe enquanto o número de clientes se multiplicava? AV: Foi um momento muito complexo. Já tínhamos mais de 30 mil clientes, éramos um time de quase 200 pessoas, e havíamos feito várias captações de investimento. Isso nos permitiu investir de maneira muito agressiva em produto, em tecnologia, em serviço e em marca. Quando chega a pandemia, história que todos conhecemos, o e-commerce virou a salvação para muitas marcas do mundo físico que fecharam as portas e precisaram sobreviver. E, nesse contexto, a procura pelos nossos serviços disparou. E não apenas para pequenas marcas, mas também para grandes companhias. Com isso, passamos de 30 mil a 70 mil clientes em apenas um ano. Éramos 180 pessoas antes da pandemia, passamos para 400 no mesmo ano e, no final de 2021, já éramos 800. Foi um crescimento muito agressivo. Em 2021, fechamos duas rodadas de investimento: uma de US$ 90 milhões e outra de US$ 500 milhões, com fundos como Tiger, Insight e Accel, além da Kaszek, que já havia investido em 2014. Foi uma das maiores rodadas da América Latina. Isso nos permitiu investir nas grandes dores do varejo brasileiro: logística, experiência de pagamento e atendimento. Lançamos o Nuvem Envio para baixar custos e o Nuvem Pago, que oferece checkout de um clique (one tap), salvando dados do consumidor para toda a rede. Parece tudo muito bom, mas operacionalmente foi um caos, porque todo dia era como um Black Friday. Foi um desafio técnico muito grande. Leia também: A brasileira que processou o governo americano e criou uma empresa de US$ 22 biIM: Quais são as particularidades do e-commerce no Brasil e na América Latina? AV: Há um ponto de diferença que não é apenas do Brasil, mas da América Latina, com relação ao comércio eletrônico dos Estados Unidos ou da Europa: o conceito de conversational commerce. O dado que sempre me choca é que 70% das vendas online têm algum tipo de interação com a marca em algum momento da jornada de compra, no Brasil e na América Latina. Isso significa que, nós, como consumidores, interagimos com a marca ou no WhatsApp, ou no Instagram, ou no e-mail, o canal na verdade, de alguma forma, antes de realizar a compra, seja para tirar dúvida ou para avaliar as possibilidades. Nós queremos conversar com as marcas. E se a marca não oferece um canal de atendimento fácil e ágil, fica fora do jogo. Não é na toa que os marketplaces também avaliam não só o tempo de entrega, mas o quão rápido você responde para o consumidor quando uma dúvida é publicada. Isso impacta direto no posicionamento da marca dentro de um Marketplace. Esse é um dos nossos grandes investimentos. Lançamos o Nuvem Chat com IA para Whastapp e Instagram, que fala com o tom de voz da marca e oferece atendimento 24 horas por dia. O cliente pequeno, que não tem um time para responder, perde a venda se não responde a tempo. IM: Qual é o cenário atual da empresa?AV: Hoje, somos a maior plataforma para e-commerce do Brasil e da América Latina, com mais de 180 mil marcas. Nossos maiores clientes chegam, em um mês, a receber mais de 100 mil pedidos e vender R$ 20 milhões só no comércio digital, sem contar a loja física, B2B, e marketplace. Crescemos 75% no ano passado, muito muito bem capitalizada por esses investimentos de 2021 e com planos de investimento agressivos. Processamos quase 2% do e-commerce no Brasil e 5% na Argentina. Na próxima década, queremos atingir 1 milhão de marcas e processar o 10% do e-commerce total da América Latina. São números que parecem, obviamente, agressivos, mas são possíveis diante do tamanho do mercado. Hoje, o e-commerce representa o 15% do varejo. Quando começamos, era 1%. Houve uma expansão, sim, mas ainda é muito pouco comparado com a China, onde o número está em 50%. E por outro lado, apenas o 10% das PMEs formais do Brasil tem e-commerce próprio. Nossa missão é de realmente potencializar todas essas marcas.InfoMoney: Muitas empresas estão indo no caminho de se tornar marketplaces. Vocês parecem buscar um caminho contrário. De que forma isso realmente é vantajoso para os clientes, uma vez que os marketplaces facilitam o caminho entre vendedores e clientes? AV: Não somos um marketplace, nem vamos contra eles. O problema é a dependência. Se o marketplace representa 80% da sua receita, uma mudança de algoritmo pode matar seu negócio. A marca precisa diversificar e ter o controle do relacionamento e dos dados do cliente. Nossa missão é holística: uma plataforma para todos os canais, integrando estoque e catálogo.Leia tambémComo montar um plano de negócios?Uma em cada quatro empresas morre antes de completar um ano no Brasil; uma das principais razões para isso é a falta de um plano de negócios adequadoIM: Como vocês olham para o futuro do e-commerce com a inteligência artificial?AV: A IA está transformando tudo. Vemos três fases: a Fase 1 é o comércio conversacional (WhatsApp), a Fase 2 é a nova camada de descoberta via LLMs (ChatGPT, Gemini, Claude) e a Fase 3 é o agente personal shopper. Nosso papel é permitir que o DNA e o catálogo da marca sejam lidos por todos esses canais. Estamos investindo mais de R$ 100 milhões em IA este ano, desenvolvendo o “Lumi”, um copiloto que ajuda o lojista com insights de negócio, criação de conteúdo e eficiência operacional.IM: Esse investimento vem da captação de 2021? Vocês já estão no breakeven?AV: Sim, continuamos bem capitalizados. Não temos necessidade de captação agora. Investimos acima do breakeven para financiar novas frentes, mas com muita disciplina. No futuro, enxergamos um cenário de IPO, em um prazo de cinco anos, mais ou menos. Empreender ou manter um negócio crescendo em qualquer parte do mundo é difícil. Mas no Brasil, e na América Latina, sempre tem um pouco mais de vento contra. Nosso papel é aumentar as chances de sucesso para as marcas. The post Além do marketplace: a estratégia da Nuvemshop para fortalecer marcas independentes appeared first on InfoMoney.