França e Alemanha chegaram com um documento conjunto e com uma proposta concreta de integração gradual que mereceu apoio alargado. Montenegro lidera a corrida, com adesão prevista para 2028 já a ser discutida em voz alta. Eis um diagnóstico do que se passa na região onde a Europa tenta, finalmente, cumprir a sua palavra. Thessaloniki, 2003Para perceber o que se passou em Tivat a 5 de junho de 2026, é preciso recuar até 2003. Foi nesse ano, na cidade grega de Thessaloniki, que a União Europeia prometeu formalmente aos países dos Balcãs Ocidentais que todos poderiam um dia tornar-se membros. Era uma promessa histórica e ficaria por cumprir durante mais de duas décadas.Desde então, os seis países — Albânia, Bósnia e Herzegovina, Kosovo, Montenegro, Macedónia do Norte e Sérvia — têm percorrido um caminho feito de reformas parciais, relatórios críticos, capítulos de negociação abertos e fechados, promessas renovadas e, sobretudo, frustrações repetidas. O último Estado a aderir à UE foi a Croácia, em 2013. Passaram 13 anos.«O facto de não termos acolhido nenhum novo membro nos últimos 13 anos mostra que existem lacunas do lado da União Europeia também, e é isso que queremos superar hoje», disse o chanceler alemão Friedrich Merz. Era uma admissão rara: não a habitual litania sobre as reformas que os candidatos precisam de fazer, mas um reconhecimento de que a falha é, em parte, de Bruxelas. A chegada dos líderes e o documento que ninguém esperavaNa véspera da cimeira, Paris e Berlim tornaram pública uma posição conjunta que mudou o tom do encontro antes mesmo de ele começar. O documento — um non-paper, na gíria diplomática europeia — intitulava-se «A New Momentum for Enlargement» e propunha uma reformulação profunda da forma como a UE integra os países candidatos.A França e a Alemanha propuseram uma nova abordagem ao alargamento da UE que permitiria aos países candidatos integrar gradualmente as instituições europeias, os processos de tomada de decisão e o Mercado Único antes de se tornarem membros plenos. A ideia central era simples na sua formulação, complexa nas suas implicações: em vez de esperar pela adesão completa para colher qualquer benefício da pertença ao bloco, os países candidatos poderiam aceder progressivamente a diferentes formatos e programas europeus à medida que fossem completando reformas setoriais.Segundo a visão de Paris e Berlim, o mecanismo funcionaria assim: os países candidatos que completem reformas num determinado sector poderão já participar nos formatos da UE nessa área, sem terem de esperar pela adesão plena — explicou Macron à chegada à cimeira. Na prática, isso poderia significar sentar-se como observador em reuniões do Conselho Europeu, participar em programas como o Erasmus+ ou o Horizonte Europa, integrar-se no mercado de energia, aceder ao sistema SEPA de pagamentos, ou beneficiar do Roam Like at Home europeu.O documento também previa que estes benefícios seriam reversíveis. Os «blocos de construção» deveriam assentar nos progressos alcançados no processo de adesão e ser reversíveis em caso de retrocesso do país candidato no seu processo de reformas e no que respeita aos valores e princípios fundamentais da UE. Era uma salvaguarda política importante sobretudo tendo em conta o caso da Sérvia. Merz, Macron, Von der Leyen: três discursos, uma mensagemFriedrich Merz chegou a Tivat com uma posição mais comprometida do que seria esperada de um chanceler alemão para quem o alargamento nunca foi prioridade declarada. Em fevereiro, na Conferência de Segurança de Munique, Merz respondera a uma pergunta do Presidente do Montenegro com convicção pessoal, dizendo que se sentia «cada vez mais desconfortável» com a abordagem atual ao alargamento. Em Tivat, esse desconforto traduziu-se em linguagem política.«A mensagem clara de hoje é, e continuará a ser: queremos a vossa presença. E queremos que esta região, e os Estados que a compõem, se tornem membros da União Europeia em breve», declarou Merz aos jornalistas após a cimeira. A frase — direta, sem as habituais condicionantes diplomáticas — ressoou diferente das habituais comunicações sobre o processo de alargamento.Macron, por seu lado, enquadrou a proposta num argumento explicitamente geopolítico. «O alargamento é muito importante do ponto de vista geopolítico, porque esta região é também onde a independência da Europa está em jogo em termos de energia, segurança e rotas migratórias», afirmou o Presidente francês. Era uma linguagem que, após a invasão russa da Ucrânia em 2022, se tornou cada vez mais dominante nas capitais europeias: os Balcãs já não são apenas uma questão de valores e reformas, mas de interesse estratégico direto.Ursula von der Leyen chegou ao encontro com uma declaração que rapidamente circulou entre os delegados: «Precisamos de tornar o processo de alargamento mais rápido e mais credível.» E foi mais longe, afirmando que a adesão do Montenegro como 28.º Estado-membro da UE até 2028 estava «ao alcance» — uma meta ambiciosa para um país que iniciou formalmente as negociações de adesão há mais de uma década.António Costa, Presidente do Conselho Europeu e anfitrião político da cimeira, situou o encontro num registo abertamente reformista. Em entrevista à Euronews em Tivat, antes da cimeira, Costa afirmou que o atual sistema é excessivamente complexo e burocrático, contribuindo para a frustração de vários países candidatos que aguardam há anos por progressos concretos no processo de integração europeia. O presidente do Conselho Europeu elogiou os «importantes progressos» alcançados por Podgorica, afirmando que «demonstra que o alargamento está a tornar-se uma realidade».E Luís Montenegro, presente na cimeira, foi claro quanto à posição portuguesa: «Há uma proposta em cima da mesa, da França e da Alemanha, que mereceu acolhimento quanto aos princípios», afirmou, acrescentando que Portugal manifestou abertura e disponibilidade para «desenvolver esse método de acelerar o processo de integração». A Sérvia, a frustração e o elefante na salaHavia, porém, um elefante na sala da cimeira de Tivat. Ou, mais precisamente, um presidente sentado à mesa: Aleksandar Vucic.A Sérvia, sob a presidência de Aleksandar Vucic, tem-se progressivamente aproximado da Rússia, aprovado medidas vistas pela UE como atentatórias do Estado de Direito e adotado uma «retórica claramente anti-UE», conforme descreveu o bloco no seu último relatório sobre o alargamento, em 2025. Ao mesmo tempo, o apoio público sérvio à adesão à UE caiu para menos de 50%. É um paradoxo que percorre toda a história da relação entre Belgrado e Bruxelas: Vucic mantém a narrativa pró-europeia enquanto estreita laços com Moscovo, e a UE continua a sentar-se à mesma mesa.Na cimeira, os líderes procuraram mostrar a Vucic que o caminho europeu «é melhor do que o alternativo» e instá-lo a «fazer mais» para aprofundar a integração, numa altura em que a Comissão Europeia já indicou estar a ponderar suspender o acesso de Belgrado a cerca de 1,5 mil milhões de euros em fundos europeus.A proposta franco-alemã, com a sua cláusula de reversibilidade, foi concebida precisamente a pensar nestes casos. Mas o mecanismo de sanção continua a ser, na prática, politicamente difícil de acionar. A UE também pune mas tende, em vez disso, a negociar.Entretanto, Vucic e o primeiro-ministro albanês Edi Rama defenderam publicamente, numa coluna de opinião conjunta, uma integração mais rápida em troca de os novos membros não terem direito de veto. Uma proposta que revelou que, dentro dos próprios Balcãs, há diferentes visões sobre o que significa aproximar-se da Europa, e a que preço. Montenegro: o caso de sucesso, com ressalvasSe a Sérvia é o caso problemático, Montenegro é a narrativa de esperança que todos em Tivat quiseram sublinhar. A Comissária Europeia para o Alargamento, Marta Kos, elogiou os progressos do Montenegro, afirmando que as negociações técnicas poderiam ser concluídas até ao final deste ano, o que abriria caminho para a adesão até ao final de 2028, 20 anos após ter submetido a sua candidatura.É um calendário apertado. Muitos consideram este objetivo ambicioso, já que Montenegro enfrenta obstáculos significativos no que respeita à justiça e à corrupção. Mas o facto de ser sequer discutido em termos tão concretos representa uma mudança de tom em relação ao passado recente.Iniciativas simbólicas como a redução dos custos de comunicação já existem em alguns destes países, e foi também decidida a abertura de negociações bilaterais para que os países dos Balcãs Ocidentais possam ser integrados no sistema de roaming europeu. Em vigor está já a Área Única de Pagamento em Euros (SEPA), sendo que no Montenegro o euro é já a moeda de uso corrente. São sinais pequenos mas que, para populações fartas de promessas abstratas, têm um peso político concreto. O contexto que mudou tudo: a UcrâniaPor detrás de todo este movimento diplomático está um fator que não pode ser ignorado: a guerra. Após décadas de avanços e recuos sobre o futuro da adesão dos seis países dos Balcãs Ocidentais, a invasão russa da Ucrânia em 2022 revigorou o interesse de Bruxelas na expansão do bloco. Desde então, tanto a Ucrânia como a Moldávia juntaram-se à fila dos candidatos, tornando o processo de alargamento mais complexo mas também mais urgente do ponto de vista geopolítico.A ideia de que os Balcãs são uma zona de vulnerabilidade estratégica — um espaço onde a influência russa, chinesa ou turca pode crescer na ausência de uma âncora europeia — tornou-se dominante nos gabinetes de Bruxelas, Paris e Berlim. A proposta de integração gradual surge num momento geopolítico crucial, com a pressão russa a aumentar nas fronteiras da UE: Bruxelas vê os Balcãs Ocidentais como um posto avançado estratégico, onde passam rotas de energia, segurança e migração. A cimeira termina. O caminho continuaReunidos no Montenegro, seis meses depois da anterior cimeira de Bruxelas, os líderes da União Europeia e dos seis parceiros da região discutiram a integração gradual, as reformas, a segurança, a conectividade e a perspetiva europeia, num contexto marcado pela guerra da Rússia com a Ucrânia, pela crescente competição geopolítica nos Balcãs e pela necessidade de tornar o processo de adesão mais credível.A ideia de uma integração gradual dos países candidatos pareceu recolher um amplo apoio político, num momento em que Bruxelas procura dar novo impulso ao alargamento europeu. O documento franco-alemão terá de ser agora trabalhado pela Comissão Europeia, que deverá apresentar propostas concretas para operacionalizar os «blocos de construção» sugeridos por Paris e Berlim.A cimeira de Tivat não resolveu nada. Não admitiu nenhum novo membro, não fixou nenhuma data vinculativa, não abriu nenhum capítulo. Fez aquilo que as cimeiras europeias habitualmente fazem: enviou sinais, geriu expectativas, construiu linguagem diplomática. Mas desta vez, talvez pela primeira vez em muitos anos, a linguagem foi diferente. Não era a habitual promessa vaga de um futuro europeu. Era o reconhecimento dito em voz alta, por Merz, por Macron, por Costa de que o problema não está apenas nos Balcãs. Está também em Bruxelas. E que é tempo, finalmente, de fazer alguma coisa quanto a isso. O conteúdo Bruxelas admite: «o problema somos nós» aparece primeiro em Revista Líder.