O puxadinho, essa instituição brasileira

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Li outro dia numa rede social, um artigo sobre uma solução inovadora na construção civil: kits metálicos de varandas e sacadas acoplados às fachadas de edifícios antigos, ampliando apartamentos que nasceram sem nada disso. A palavra retrofit destacava-se no texto. Mas, confesso que a primeira palavra que me veio à cabeça foi puxadinho.Considero o puxadinho uma instituição nacional. Você encontra em qualquer cidade brasileira: na laje popular, na edícula do fundo, na varanda fechada do apartamento, na garagem convertida em escritório, lojinha e bar, na cobertura que inventa uma área gourmet e no prédio antigo que agora recebe uma varanda ou uma sacadinha por retrofit. A diferença não está apenas no acréscimo, mas no modo como ele é nomeado, autorizado e valorizado. Para a prefeitura é uma irregularidade. Para empresas, inovação. Para a gente, não passa de uma tentativa de fazer caber uma vida que não coube na construção original.Em boa parte das casas brasileiras, o desenho original ou talvez o projeto qualificado nunca tenha passado por um profissional, uma assinatura técnica ou um processo formal de aprovação nos órgãos municipais. A imensa maioria das moradias brasileiras nasceram da necessidade. A família cresce, o dinheiro encurta, o filho volta, a mãe envelhece, o trabalho entra pela sala, e a casa, que já era pequena, precisa aprender a se esticar e a caber para todos.Uma laje sobrecarregada, uma escada insegura, uma instalação elétrica improvisada ou um cômodo sem ventilação não se tornam aceitáveis porque nasceram de uma boa intenção. O risco continua sendo risco. A diferença é que, no puxadinho popular, o risco costuma vir acompanhado da falta de assistência técnica, de crédito, de orientação e de política habitacional capaz de chegar antes da urgência da obra.Segundo levantamento CAU/BR-Datafolha, 82% dos brasileiros já construíram e reformaram sem contratar arquitetos ou engenheiros. Em outras palavras, boa parte do país constrói primeiro e regulariza, calcula ou torce depois para tudo dar certo. Os dados mostram tratar-se de uma cultura ampla da obra sem projeto técnico, em que a necessidade, o orçamento e o pedreiro da confiança muitas vezes chegam antes da prancheta, da assinatura e da responsabilidade profissional.É aí que considero o uso do conceito retrofit interessante: quando a ampliação vem vestida de aço, vidro, cálculo estrutural, aprovação condominial e linguagem imobiliária, ela deixa de ser puxadinho e passa a ser retrofit, solução contemporânea para novas necessidades. Pode valorizar o apartamento, entrar na matrícula, aumentar o IPTU e ainda aparecer em reportagem como inovação da construção civil. O gesto, no entanto, permanece familiar: acrescentar ao edifício aquilo que o edifício não tinha. A varanda e a sacada que nascem do lado de fora de um prédio antigo talvez sejam tecnicamente sofisticadas. Mas, interpretado de outra forma, também participam dessa velha tradição brasileira de corrigir a casa depois que a vida mudou. A diferença é que alguns acréscimos chegam com engenheiro, assembleia e orçamento que encaixa no bolso. Outros chegam com pedreiro, pressa e a conta fechando no fim do mês.No fundo, todo acréscimo seja de tijolo ou de aço, conta a história de alguém que não coube onde mora. A casa brasileira, como o país, raramente fica pronta. Ela vai sendo corrigida, ampliada, legalizada quando dá, tolerada quando convém. E, no fim, todo puxadinho, seja de laje ou de retrofit, é só a prova de que o brasileiro não desiste de caber num espaço e num país que nunca foi feito sob medida para ele.