Os brasileiros se acostumaram nos últimos tempos a receber notícias sobre empresas e famílias em dificuldades com as contas. O maremoto varreu desde grandes marcas do mundo corporativo até microempresas. Dezenas de milhões de cidadãos se veem sem condições de manter em dia suas obrigações, atrasando pagamentos ou até dando calotes. O ponto comum entre os encrencados é o alto custo do dinheiro, algo recorrente em nossa história, mas que atingiu um novo pico. A recente decisão sobre a taxa de juro básica, tomada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central na quarta 17 — um corte de 0,25 ponto percentual para 14,25% ao ano —, não trouxe um pingo de alívio para os endividados. O sinal que ficou: vai demorar muito tempo para os juros caírem de forma significativa. Enquanto isso, o aperto financeiro deve continuar nas empresas e nos lares, com possíveis novos atrasos, quebras e travas nos investimentos.ESTREIA - Kevin Warsh, do Fed: o indicado de Trump optou por cautela (Yuri Gripas/Abaca/Bloomberg/Getty Images)Os juros altos se tornaram uma maldição persistente no Brasil — e boa parte das razões para as taxas exorbitantes deriva de dores autoinfligidas, como a política intensiva de gastos adotada pelo Palácio do Planalto, tendo em mira as próximas eleições. É uma prática que impede o Banco Central de reduzir de forma mais agressiva as taxas. A isso se somou recentemente um vento inflacionário vindo de fora, que começa a tirar também o sono de governos, economistas e empresários no resto do mundo. Aí se destacam os efeitos da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, que levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, fundamental para remessas de petróleo, gás e fertilizantes para o globo. Passados mais de 100 dias de conflito no Oriente Médio, Estados Unidos e Irã finalmente assinaram um acordo de paz.Ainda que o fim das hostilidades se confirme, seu impacto econômico será sentido por mais tempo. “Os efeitos do conflito já estão espalhados e a inflação ainda vai continuar alta neste ano”, diz Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da gestora ARX Investimentos. “Em um cenário com estímulos artificiais do governo na economia e piora nas expectativas para a inflação, não há espaço para o Banco Central reduzir os juros de forma significativa.”Esse beco sem saída ficou evidente após a reunião presidida por Gabriel Galípolo para decidir o futuro da taxa básica de juro. A cúpula do BC soltou um comunicado com uma linguagem mais suave, ou seja, sem carregar no pessimismo. Ainda assim, o consenso entre os economistas é de que a Selic não deve cair muito mais tão logo. Até a guerra estourar, o Brasil passava por um processo de desinflação, ajudado pela queda do dólar. A expectativa era de que a taxa pudesse descer até 12% anuais ainda em 2026. Agora, com sorte, cairá a 14%, e a perspectiva de vê-la novamente em níveis civilizados, abaixo de dois dígitos, sumiu do horizonte mais próximo. “A Selic pode voltar a cair, a depender de como ficarem os impulsos fiscais do novo governo, indo para 12% ou 13% em 2027”, diz Adauto Lima, economista-chefe da gestora americana Franklin Templeton no Brasil. “É o que antes esperávamos para 2026. Perdemos um ano.”Na mesma quarta-feira em que o Copom cumpria sua tarefa de esfriar os ânimos no Brasil, o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, também decidia os juros da maior economia do mundo. O Fed, que chegou a fazer alguns cortes no início do ano passado, foi forçado a manter a taxa inalterada, na faixa de 3,50% a 3,75%. Foi a primeira deliberação liderada por Kevin Warsh, o escolhido de Donald Trump para o comando da autarquia. Ele manteve uma postura técnica apesar do clamor do presidente por juros menores, dada a tendência de alta nos preços. “As forças inflacionárias de longo prazo decorrentes da desglobalização permanecem em vigor”, diz Richard Bernstein, diretor de macroeconomia da gestora Janus Henderson, referindo-se às medidas protecionistas de Trump.IMPACTO - Bomba de gasolina no Brasil: subsídios para amortecer a alta nos derivados de petróleo (Dirceu Portugal/Fotoarena/.)A inflação dos Estados Unidos acelerou a 3,8% nos doze meses encerrados em abril, distante da meta de 2% do país. O desemprego baixo, de 4,3%, também complica as decisões do Fed. “A combinação de inflação elevada, mercado de trabalho sólido e incertezas com o Oriente Médio torna difíceis os cortes de juros”, diz Claudia Moreno, economista do C6 Bank. Há até a expectativa de que o próximo movimento nos juros americanos possa ser de alta no final de 2026, enquanto as condições de acesso ao crédito pioram pelo mundo. Na semana passada, o Banco Central Europeu elevou seu juro pela primeira vez em quase três anos, de 2% para 2,25%. Poucos depois foi a vez do Japão: aumentou sua taxa de 0,75% para 1% ao ano — baixíssima para os padrões brasileiros, porém a mais alta do país asiático em mais de trinta anos.No Brasil, o contexto internacional conta uma parte da história. A disparada nos preços de petróleo e fertilizantes fez muita coisa ficar mais cara. A inflação, que até fevereiro tendia para 3,5%, está atualmente em 4,7% no acumulado em doze meses e, em breve, deve passar dos 5%. Mas é fato que as bombas de incentivos fiscais do governo Lula sobre o consumo também cumprem sua parte em atrasar ainda mais a queda da Selic. Elas somam 200 bilhões de reais só neste ano e incluem estímulos como a ampliação da isenção de imposto de renda, a expansão do Minha Casa, Minha Vida e os incentivos para renegociação de dívidas do programa Desenrola. São medidas que incham a demanda e a inflação, além de ampliar as despesas e piorar a dívida pública. “O resultado é precisar dos juros altos por mais tempo para que se consiga começar a reduzir a inflação de forma expressiva”, diz Lima, da Franklin Templeton.Tudo indica que o “inverno dos juros” será longo e rigoroso, especialmente no Brasil. Os juros futuros negociados no mercado, que mostram a expectativa de investidores para as próximas reuniões do Copom, ainda apontam para taxas perto dos 14% nos próximos anos, o que significaria um verdadeiro estrangulamento do potencial econômico do país. Mais de 80% das famílias brasileiras — um recorde — estão endividadas. Os efeitos também aparecem nos negócios. A quantidade de empresas brasileiras em recuperação judicial já aumentou 24% no ano passado, superando 5 600. “Com esse nível de juros, vamos continuar vendo uma enxurrada de pedidos de recuperação e empresas falindo”, diz Salvatore Milanese, sócio da consultoria Pantalica Partners. Juros altos são um remédio para a inflação, que corrói a renda, mas trazem um grande custo. Com a persistência de choques externos, resta ao Brasil fazer o que está a seu alcance: um ajuste fiscal. Fazer esse dever de casa nunca foi tão urgente para o país.O post Por que os juros altos se tornaram uma maldição persistente no Brasil apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.