Susan Mah sabia exatamente o que queria para sua versão de um “vestidinho preto”. Era o final da década de 1940 na Califórnia, e, depois de anos encomendando roupas a alguns dos melhores alfaiates de Xangai e Hong Kong, ela havia aprendido algumas coisas sobre como fazer roupas por conta própria.Foi assim que surgiu uma das peças mais surpreendentes do seu guarda-roupa: um cheongsam, ou qipao, com uma gola mandarim típica, mangas curtas e silhueta justa na altura do joelho, mas feito de — em vez de um tecido suntuoso com motivos chineses — uma estampa ousada em verde-limão com símbolos de inspiração maia. Leia Mais Fóssil de 120 milhões de anos encontrado na China revela criatura bizarra Consumo de artes e cultura pode atrasar o envelhecimento, diz estudo Museu dos Estados Unidos vai devolver estátua de mais de dois mil anos à Líbia “Acho que, se ela tivesse ficado na China… teria que se vestir de forma muito conservadora”, especula sua nora, Chere Lai Mah, de 78 anos, que, nas décadas desde o falecimento de Susan, estudou as centenas de peças de roupa pessoais que ela deixou, construindo um retrato a partir de histórias orais e detalhes que coletou de familiares e até mesmo da própria dona das roupas.“Mas em Fresno, na Califórnia, ela queria se vestir de forma interessante, inspirada por Irene Dunne e Barbara Stanwyck, então começou a desenhar esses cheongsams híbridos sino-americanos”, disse Lai Mah, acrescentando que ela ia às compras em busca dos “tecidos americanos mais extravagantes”.Susan, uma americana de origem chinesa de primeira geração, era uma mãe ocupada de 12 filhos que também ajudava na área de contabilidade da loja de discos da família. Mesmo assim, ela ainda encontrava tempo para costurar.“Há outro com aristocratas franceses dançando, palhaços, rosas, bolinhas e listras. Ela fez dezenas desses vestidos. São divertidos. São elegantes”, disse Lai Mah. Os exemplares eram uma forma de expressão criativa.O cheongsam de inspiração maia é um dos mais de 70 exemplos impressionantes de vestuário chinês do início ao meio do século XX em exibição em “Fashioning Chinese Women: Empire to Modernity” (Moldando Mulheres Chinesas: Do Império à Modernidade), uma mostra que inaugurou no último domingo (14) no Museu de Arte de Los Angeles (LACMA). A maioria das peças em exposição faz parte de uma coleção doada por Lai Mah ao museu em 2022, composta principalmente por vestidos que pertenceram a Susan, além de algumas peças de sua mãe, Li Zhang Huifang, que era uma grande amiga de Susan.“A coleção documenta esse período de mudanças incríveis que as mulheres estão vivenciando”, disse a curadora convidada da exposição, Michaela Hansen, referindo-se à libertação social e à mobilidade que muitas mulheres experimentaram após a queda da dinastia Qing em 1912.Dada a sua relativa riqueza por volta dos 35 anos, Susan, que nasceu na pobreza na província de Guangdong, conseguiu levar todos os seus figurinos consigo quando deixou Hong Kong em 1938, em meio à invasão japonesa da China. Muitos outros migrantes teriam dificuldades para fazer o mesmo — tornando ainda mais raro encontrar uma coleção tão grande de cheongsams pertencente a uma única dona (as peças também estão excepcionalmente bem conservadas, pois “felizmente o clima aqui na região da Baía de São Francisco é perfeito, sem a necessidade de um depósito sofisticado com ar-condicionado”, disse Lai Mah).Hansen afirmou que, quando Lai Mah procurou o LACMA, ela tinha “procedência, as histórias, quem usava o quê, onde usavam, e isso é muito incomum na história da moda, e muito inesperado para uma instituição americana ter acesso à moda chinesa com essa história”.Normalmente, acrescentou a curadora, os museus exibem trajes da corte do período da dinastia Qing, estilistas chineses contemporâneos ou moda ocidental inspirada no design chinês, em vez dos guarda-roupas de mulheres comuns. “Isso preenche a lacuna de algo que é difícil de coletar — e importante de coletar”, disse Hansen.Uma história sino-americanaLai Mah, uma artista que estudou têxteis a fundo e escreveu um livro sobre a história de sua família, lembra-se do primeiro cheongsam que Susan lhe deu em 1971.A peça turquesa, com seus ornamentos em dourado sobre um brocado de seda, era “charmosa e aconchegante”, disse Lai Mah. Mas ela nunca a usou, preferindo utilizá-la como inspiração para uma série de esculturas que criou posteriormente como estudante na UC Berkeley.A artista sorri ao se lembrar do motivo pelo qual Susan lhe deu a peça de presente. “Ela também havia dado seu casaco de pele para uma de suas outras noras, mas essa nora o transformou em uma manta para o colo, e talvez isso a tenha inspirado a pensar em presentear outra nora com suas peças.”Com o tempo, Lai Mah tornou-se a responsável por todo o guarda-roupa de Susan. E como os cheongsams são feitos sob medida — refletindo exclusivamente o gosto de quem os veste e a colaboração com os alfaiates —, a coleção revela como o estilo de Susan evoluiu de uma jovem para o de “uma matriarca mais velha, confiante e estabelecida nos Estados Unidos”.Essa confiança — e a aparente aceitação de suas identidades culturais chinesa e americana — transparece em uma fotografia de família em particular. Nela, Susan aparece fumando um cigarro casualmente, vestindo um cheongsam com estampa de palhaços dançantes, cujo acabamento foi feito com um de seus vestidos tradicionais mais antigos, da década de 1920, combinado com sapatos Frank More e um suéter com estampa de morango.Fresno era uma cidade segregada racialmente, com uma população imigrante diversificada vivendo em sua zona oeste. Mas seu bairro chinês tornou-se lar de uma grande e vibrante comunidade sino-americana, e, enquanto novos imigrantes espalhados pelos EUA talvez sentissem a necessidade de se assimilar e adotar roupas ocidentais, Susan e outros ali usavam com orgulho seus cheongsams, preservando uma importante conexão com suas raízes.“West Fresno era uma comunidade muito mista e diversificada na década de 1950”, lembrou Lai Mah. “Crescemos comendo tamales no Natal, hambúrgueres de cordeiro armênios, pancit filipino, mochi japonês e raspadinha, bierocks alemães”.Aqueles que tinham condições financeiras enviavam seus pedidos dos EUA, com parentes chineses ajudando a finalizar os detalhes pessoalmente com os alfaiates. A diáspora ainda acompanhava as tendências, como fica evidente no cheongsam inspirado na estampa maia que Susan costurou posteriormente — suas aberturas simétricas de dupla face refletiam um estilo popularizado pela carismática primeira-dama da China, Madame Chiang Kai-shek.As pessoas usavam cheongsams em ocasiões especiais, fossem celebrações familiares ou eventos de arrecadação de fundos no bairro chinês local para ajudar nos esforços de guerra da China contra os japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. (Embora muitas pessoas na diáspora asiática tenham se tornado “americanos discretos” durante a era McCarthy para evitar chamar a atenção.)Se as famílias Li e Mah não tivessem imigrado para os EUA, teriam enfrentado o caos e a instabilidade daquele conflito, a Guerra Civil Chinesa e, posteriormente, a Revolução Cultural. Os qipaos em exibição no LACMA, muitos dos quais foram confeccionados na China antes de serem levados para os EUA, provavelmente teriam sido destruídos, juntamente com qualquer outro item considerado de elite. Um pedaço da história da moda teria se perdido — mais um motivo pelo qual a coleção de Lai Mah é extraordinária. “Eles estavam destinados a serem preservados”, disse ela.Uma coleção singularLai Mah decidiu doar o “coração” de sua coleção ao LACMA durante a pandemia de Covid-19. Ela foi motivada em parte pela ameaça dos incêndios florestais na Califórnia, e também por sentir que, à medida que envelhecia, era hora de “encontrar um lar adequado para as peças”. Em determinado momento, ela havia destinado uma sala inteira aos cheongsams.No museu, as peças foram vestidas em manequins impressos em 3D, criados em colaboração com o estilista Jason Wu, que quis exibi-las “não apenas como ferramentas de exibição, mas como esculturas modernas: abstratas, porém profundamente humanas”, escreveu ele no catálogo da exposição, acrescentando: “Seu acabamento branco suave carrega um tom amarelado, uma referência discreta, mas deliberada, à nossa tez chinesa”.Além dos guarda-roupas de Susan e Li, Lai Mah também doou itens que havia comprado para si mesma, incluindo um qipao de lamê que encontrou em Fresno e que era “tão incomum”. Há pouca informação sobre sua origem, embora Lai Mah acredite que tenha sido criado nos EUA ou na China por volta de 1928.Hansen, a curadora, disse que nunca viu nada parecido. O tecido lamê foi feito usando “fios e tramas de metal de verdade” e, em seguida, estampado em serigrafia, explicou ela. “Mas a serigrafia não adere aos fios metálicos e, por isso, cria esse padrão abstrato sobre o padrão da trama, o que é bem singular.”Em outra parte da exposição, outro qipao de lamê, este da década de 1940, mostra como a tecnologia avança, com os fabricantes de tecidos já sendo capazes de tingir os fios metálicos, acrescentou Hansen.Complementada com itens do próprio acervo do LACMA, a exposição apresenta as peças como cápsulas do tempo únicas que revelam tendências, novos tecidos e técnicas de ponta, bem como as influências globais que moldaram as cidades onde foram produzidas.“Eu queria desafiar uma ideia — que às vezes se vê circulando no campo da história da moda — de que a moda chinesa estava de alguma forma estagnada, porque isso não é verdade, e os objetos contradizem isso completamente”, disse Hansen.“Eu também queria destacar o quão integral era o papel de cada mulher na construção de sua própria imagem com essas peças de roupa, com seus guarda-roupas. Elas tomavam decisões intencionais sobre sua aparência e os tecidos, e particularmente no estilo de alfaiataria chinesa, sobre como as roupas vestiam e como eram usadas.”Embora os cheongsams ainda sejam confeccionados e continuem a evoluir, com novas gerações de estilistas injetando toques frescos e contemporâneos, Lai Mah disse que os alfaiates de hoje sentem falta de um pequeno detalhe do corte clássico. “Havia uma elegância austera na época”, finalizou.Fragrância de Elizabeth Taylor de 1961 será recriada para exposição