Os cotistas do fundo imobiliário Cartesia Recebíveis (CACR11) reprovaram, em consulta formal, as demonstrações financeiras referentes ao exercício de 2025, mostra termo de apuração divulgado nesta terça-feira (16).Segundo o documento, somente 5% das cotas emitidas pelo veículo participaram da votação. Dessas, os votos contrários representaram 2,27%, enquanto os favoráveis somaram 1,77%. Houve, ainda, 0,96% de abstenções.A reprovação das demonstrações financeiras do exercício encerrado em 31 de dezembro do ano passado ocorre em um momento delicado para o fundo imobiliário.Isso porque, desde o início de 2026, as cotas do CACR11 acumulam queda superior a 70% na bolsa de valores (B3), refletindo preocupações do mercado com a carteira de ativos e com a situação financeira do FII.Suspensão dos dividendosA pressão sobre os papéis se intensificou no começo em maio, quando a gestora, Cartesia Capital, informou a suspensão da distribuição de dividendos referentes ao resultado de abril.No mesmo dia do anúncio, as cotas chegaram a despencar quase 42%, saindo de R$ 81,33, na abertura, para R$ 47,01, no fechamento do pregão. No comunicado divulgado à época, a gestora afirmou que a retenção dos recursos tinha como objetivo preservar a liquidez do fundo em um cenário considerado adverso, garantindo capacidade para honrar compromissos e sustentar projetos em andamento.Cabe lembrar que mais da metade dos ativos da carteira do CACR11 está ligada a empreendimentos imobiliários que ainda estão em fase inicial.“A permanência por longo tempo do cenário macroeconômico desfavorável no Brasil, incluindo juros elevados, alto endividamento das famílias, aumento dos custos dos materiais e mão de obra, resulta na corrosão das margens do incorporador, redução das vendas e atraso nos repasses”, disse Cartesia Capital, na ocasião.“Em última instância, isso tudo leva a uma maior exposição de caixa de cada empreendimento e em maior alocação de recursos pelo fundo”, acrescentou.A ausência de pagamento de dividendos em maio interrompeu uma sequência de distribuições recorrentes ao longo do último ano.Isso porque, desde o início de 2025, o CACR11 manteve rendimentos mensais que variaram entre R$ 1,20 e R$ 1,45 por cota, conforme relatório gerencial mais recente.A volta dos dividendosApós a interrupção, o fundo voltou a repassar rendimentos em junho: o pagamento, realizado no último dia 15, foi de R$ 0,23 por papel, valor quase 81% inferior ao último dividendo distribuído, de R$ 1,20, em abril.Apesar da retomada, as cotas continuaram pressionadas. Nesta terça-feira (16), estão cotadas a R$ 23,20, acumulando desvalorização superior a 39% em um mês. new TradingView.MediumWidget( { "customer": "moneytimescombr", "symbols": [ [ "CACR11", "CACR11" ] ], "chartOnly": false, "width": "100%", "height": "300", "locale": "br", "colorTheme": "light", "autosize": false, "showVolume": false, "hideDateRanges": false, "hideMarketStatus": false, "hideSymbolLogo": false, "scalePosition": "right", "scaleMode": "Normal", "fontFamily": "-apple-system, BlinkMacSystemFont, Trebuchet MS, Roboto, Ubuntu, sans-serif", "fontSize": "10", "noTimeScale": false, "valuesTracking": "1", "changeMode": "price-and-percent", "chartType": "line", "container_id": "832e69b"} ); Dividendos em xequeA retomada dos proventos, porém, não significa necessariamente uma volta à normalidade. Em comunicado divulgado no fim de maio, a Cartesia Capital afirmou que pretende concentrar a distribuição de dividendos na geração de caixa proveniente das vendas dos empreendimentos imobiliários que enfrentam atrasos.Isso porque, embora seja classificado como um fundo de papel, o CACR11 possui forte exposição a Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) ligados ao financiamento de projetos residenciais.Na prática, parte relevante do desempenho do veículo depende da evolução dessas obras e da comercialização das unidades.Os principais entraves em 2026, segundo a gestora, estão relacionados a atrasos na obtenção de licenças e aprovações imobiliárias, especialmente registros de incorporação e Habite-se. De acordo a Cartesia, isso afetou o cronograma de alguns empreendimentos.Além disso, o fundo enfrenta questões societárias envolvendo um CRI em específico, o CRI Helvetia, numa operação que possui saldo devedor próximo de R$ 60 milhões.“Temos um total de R$ 1,61 por cota distribuíveis no primeiro semestre de 2026, restando dois meses em aberto [maio e junho], em que temos a obrigação de distribuir 95% do lucro. Já no segundo semestre, o CACR11 priorizará a continuidade das obras em curso, de forma a assegurar suas conclusões e entregas”, destacou a gestão, em comunicado divulgado em 19 de maio.Preocupações do mercadoMas para além dos dividendos, a reprovação das demonstrações financeiras do CACR11 também ocorre em meio à crise envolvendo operações de crédito imobiliário ligadas ao fundo e poucas semanas após a contratação de uma nova auditoria para reemitir os balanços, após questionamentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).A autarquia passou a analisar informações contábeis do FII depois da publicação de reportagens sobre a carteira de CRIs e os critérios de avaliação adotados pela gestão.De acordo com reportagem do Valor Investe, operações ligadas ao veículo passaram por episódios de inadimplência, renegociações de dívida, reestruturações financeiras e revisões relacionadas às garantias dos empreendimentos.Segundo a apuração, as operações analisadas somariam R$ 468 milhões em saldo devedor, montante equivalente a praticamente todo o patrimônio líquido atual do fundo.