Copom deveria manter jogo aberto sobre juros diante das incertezas, afirma economista-chefe do Inter

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O Comitê de Política Monetária (Copom) deve promover mais um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic nesta semana, mas o cenário para as próximas reuniões permanece cercado de incertezas. Na avaliação de Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, o Banco Central deveria evitar sinalizações rígidas e manter em aberto os próximos passos da política monetária.Em entrevista ao Money Times, a economista afirmou que o corte esperado para esta reunião está praticamente contratado, refletindo a estratégia de comunicação adotada pelo colegiado nos últimos encontros. No entanto, ela avalia que a autoridade monetária não deveria assumir compromissos sobre o que fará a partir de julho.“A comunicação deveria ser mais flexível nesse momento de incerteza. O Copom deveria deixar em aberto os próximos passos, porque a gente realmente tem muita incerteza”, afirmou.Segundo Vitória, há argumentos tanto para uma pausa quanto para a continuidade do ciclo de flexibilização monetária. Por isso, a decisão dependerá da evolução dos indicadores econômicos nas próximas semanas.“Existe um risco de pausa, mas também existe uma chance da inflação voltar para uma trajetória de queda. O Copom não precisa se prender nem a um corte, nem a uma pausa para a reunião de julho”, disse.A visão do Inter é de que o ciclo de afrouxamento monetário ainda não terminou, mas deve avançar de forma gradual. No relatório mensal de perspectivas divulgado em maio, o banco estima que a Selic encerre 2026 em 13,25%, diante de uma inflação ainda acima da meta. A projeção da instituição é de IPCA de 5,1% neste ano, com desaceleração para 3,8% em 2027.Risco de pausa aumentouEmbora mantenha o cenário-base de novos cortes graduais, Rafaela reconhece que a probabilidade de uma interrupção temporária do ciclo aumentou nos últimos meses.“A gente vê um risco maior de uma pausa. O corte de 25 pontos-base está praticamente dado para esta reunião, mas vamos avaliar os próximos dados”, afirmou.Apesar da preocupação, a economista destaca que os números mais recentes da inflação trouxeram sinais relativamente favoráveis para a condução da política monetária.“O IPCA divulgado na semana passada não mostrou uma grande deterioração na inflação de serviços e núcleos. Muito pelo contrário, a gente viu até sinais de uma inflexão”, avaliou.Na avaliação do Inter, a inflação segue pressionada, mas ainda em trajetória de desaceleração. O banco ressalta, porém, que uma eventual piora das expectativas inflacionárias ou a persistência da inflação acima da meta por mais tempo poderiam levar o Copom a interromper temporariamente os cortes de juros.Fiscal é o principal risco para a SelicPara a economista, o principal fator de preocupação para a política monetária atualmente não está no cenário internacional, mas na condução da política fiscal doméstica.A economista afirma que a ampliação dos gastos públicos e os programas de estímulo ao crédito podem sustentar a demanda aquecida e dificultar o processo de desinflação, especialmente nos serviços.“O principal risco do cenário não é o petróleo e nem o choque de oferta causado pelos preços de energia, mas sim a situação fiscal que a gente tem visto no cenário doméstico”, avalia.Segundo ela, o governo vem acelerando despesas e lançando programas que ampliam a oferta de crédito, o que pode gerar pressões adicionais sobre a atividade econômica.Por outro lado, Vitória pondera que o elevado nível de endividamento das famílias e a inadimplência ainda alta podem reduzir a eficácia dessas medidas, limitando seus impactos sobre o consumo e a inflação.O relatório do Inter aponta justamente nessa direção. A instituição avalia que a desaceleração esperada da demanda tem sido parcialmente compensada por maiores gastos fiscais e linhas de crédito subsidiadas, o que dificulta uma convergência mais rápida da inflação para a meta. Ao mesmo tempo, o banco projeta crescimento de 1,8% para o PIB em 2026, sustentado por um mercado de trabalho ainda resiliente e pelos estímulos adotados pelo governo.Risco externo perdeu forçaNa visão da economista, os riscos vindos do exterior perderam relevância nas últimas semanas.Com os preços do petróleo mais acomodados e uma perspectiva menos pressionada para a política monetária americana, o ambiente internacional deixou de representar uma ameaça relevante para o Banco Central brasileiro.Para ela, esse contexto reforça a necessidade de o Copom adotar uma postura dependente dos dados e preservar a flexibilidade para reagir às mudanças do cenário econômico.Para o Inter, a combinação entre inflação ainda acima da meta, incertezas fiscais e atividade econômica resiliente exige cautela da autoridade monetária. Por isso, embora o cenário-base continue apontando para novos cortes graduais, o espaço para a continuidade do ciclo dependerá cada vez mais da evolução das expectativas e da política fiscal nos próximos meses.