A combinação de juros elevados no Brasil e no exterior tem levado empresas a adiar decisões de expansão e novos investimentos, enquanto aguardam maior clareza sobre o cenário econômico global.Apenas projetos considerados essenciais ou de alta rentabilidade seguem avançando, de acordo com o economista do Itaú Unibanco, Pedro Renault. Enquanto isso, grande parte do setor produtivo permanece em compasso de espera. Leia Mais Investidores acompanham novo tarifaço com reação mais moderada Autoridades do BCE mantêm em aberto chance de alta dos juros em julho Alemanha enfrenta recuperação econômica lenta devido a preços de energia “O que a gente vê é uma perspectiva de menor demanda à frente e um apetite menor para investir. Só os projetos muito óbvios, muito rentáveis, acabam saindo do papel”, afirmou o economista ao CNN Money.A avaliação ocorre em um momento de endurecimento da política monetária em diferentes economias. Nesta semana, o BCE (Banco Central Europeu) elevou os juros pela primeira vez em quase três anos, diante da aceleração da inflação impulsionada pelo aumento de custos de energia após a guerra envolvendo os Estados Unidos e o Irã.A autoridade monetária também revisou para cima suas projeções inflacionárias para este ano e o próximo.Na Ásia, o mercado também espera uma nova alta de juros pelo BoJ (Banco do Japão), na reunião que se encerra na próxima terça-feira (16). A expectativa é de que a taxa básica avance de 0,75% para 1%, o maior nível desde 1995, refletindo a preocupação da instituição com os impactos inflacionários do conflito no Oriente Médio.Para Renault, esse movimento global ajuda a explicar por que o processo de flexibilização monetária no Brasil tende a ser mais lento.“Existe um consenso de que o Brasil precisa conter a dinâmica da dívida pública. Se isso acontecer, você cria um ciclo virtuoso, com menos pressão inflacionária e espaço para juros mais baixos”, afirmou.O economista ainda afirmou que o cenário atual tem afetado diretamente os planos das empresas. Setores dependentes de crédito, como material de construção, eletrodomésticos e parte da indústria, sentem mais intensamente os efeitos dos juros elevados, já que o financiamento mais caro reduz a demanda e dificulta a viabilidade de novos projetos.Por outro lado, investimentos considerados estratégicos ou obrigatórios seguem em andamento. Como é o caso de segmentos ligados à infraestrutura, como concessões de saneamento e rodovias, além de áreas que demandam investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento, como a indústria farmacêutica e automotiva.Segundo o sócio da Blackbird, José Gaino, o diferencial de juros continua sendo importante para atrair capital estrangeiro e evitar migração de recursos para economias consideradas mais seguras, como a dos EUA.“Os fatores globais são o que mais vêm impactando essa reprecificação dos juros. Se os juros brasileiros caem enquanto os norte-americanos sobem, há uma tendência de o investidor preferir alocar recursos nos EUA”, explicou.IPCA vem acima da projeção do mercado | ABERTURA DE MERCADOAlém disso, de acordo com Gaino, muitas empresas têm preferido aguardar uma definição mais clara do cenário econômico antes de ampliar investimentos ou assumir novos compromissos financeiros.“O que a gente percebe é um movimento muito de aguardar, de entender o que vai acontecer diante de toda essa instabilidade dos últimos meses. Hoje o empresário consegue esperar porque está alocado em uma Selic elevada, rendendo em torno de 14%”, disse o executivo em entrevista ao CNN Money.O sócio da Blackbird afirma ainda que o principal impacto dos juros altos tem aparecido na gestão financeira das empresas, especialmente entre aquelas que enfrentam prazos cada vez mais longos para receber de clientes enquanto precisam manter despesas operacionais em dia.‘”O que a gente vem observando é que as empresas estão recebendo com prazos muito esticados e precisam trazer esse valor para o presente para honrar seus pagamentos. O custo de capital mais alto deixa esse processo mais caro e aumenta a pressão sobre os negócios”, explicou.Segundo o executivo, esse ambiente tem contribuído para o aumento da inadimplência e por crédito de curto prazo.Na avaliação de Gaino, enquanto os juros permanecerem em níveis elevados e persistirem as incertezas globais, a tendência é de manutenção da postura defesniva por parte dos empreendedores brasileiros.