Novos leilões no radar? Disparada dos juros reacende apostas em intervenção do Tesouro

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A recente disparada das taxas dos títulos públicos reacendeu entre investidores uma dúvida: o Tesouro Nacional pode voltar a recorrer a leilões extraordinários para conter a volatilidade do mercado?Nos últimos dias, as taxas da renda fixa voltaram a se aproximar das máximas em décadas. Títulos indexados à inflação chegaram a operar perto de IPCA + 8% ao ano, enquanto prefixados de longo prazo superaram a marca de 15%, em meio à combinação de incertezas fiscais, atividade econômica mais resiliente, cenário eleitoral no radar e riscos externos.O movimento trouxe à memória o episódio de março, quando o Tesouro realizou uma intervenção histórica para conter o estresse na curva de juros.Na ocasião, o órgão recomprou cerca de R$ 47 bilhões em títulos públicos em leilões extraordinários ao longo de uma semana, na maior atuação desse tipo ao menos desde 2013, segundo levantamento da Warren Rena. Em um único leilão, foram adquiridos R$ 5,4 bilhões em papéis prefixados.A medida ocorreu após uma mudança brusca de percepção no mercado. O mercado, que até então apostava em cortes mais intensos da Selic, passou a rever as expectativas diante da alta das projeções de inflação e da escalada do conflito no Oriente Médio, que pressionou os preços do petróleo. O movimento levou à desmontagem acelerada de posições, abrindo as taxas e reduzindo a liquidez no mercado secundário.Apesar da comparação com aquele episódio, gestores avaliam que o cenário atual tem diferenças relevantes. Para Daniel Borges, CEO da Route Investimentos, a possibilidade de novas atuações do Tesouro permanece no radar.“As chances são elevadas. Sempre que há um descasamento muito forte entre a percepção de risco do mercado e os preços de tela, gerando uma curva empinada demais, o Tesouro atua para prover liquidez e evitar disfuncionalidades”, afirma.Segundo ele, caso a volatilidade persista, leilões extraordinários de compra e venda de títulos continuarão sendo uma ferramenta importante para garantir o bom funcionamento do mercado.“Se a volatilidade persistir, novos leilões extraordinários de compra e venda de títulos serão ferramentas vitais para manter a estabilidade do mercado secundário”, diz.Cenário atual divide opiniões no mercadoNem todos, porém, veem espaço para uma nova intervenção. Para Ian Lima, gestor da Inter Asset, o contexto atual difere do observado em março, quando choques inesperados pegaram o mercado desprevenido.“O Tesouro tinha até uma justificativa para fazer porque era algo que não estava nos preços, não era o esperado. Foi um fator exógeno ao sistema”, afirma.Na avaliação do gestor, os principais fatores que hoje pressionam a curva de juros já são conhecidos, como a guerra no Oriente Médio, a resiliência da atividade econômica e as incertezas ligadas às eleições de 2026.“Hoje o argumento para uma recompra é mais fraco. A gente sabe que tem guerra, que a atividade é forte e que vai ter eleições”, diz.Lima destaca que a abertura recente da curva reflete, em grande parte, uma revisão das apostas para cortes de juros e um movimento de redução de posições por parte dos investidores, e não necessariamente uma quebra de liquidez semelhante à observada em março.Para ele, uma nova intervenção faria mais sentido diante de um choque inesperado capaz de gerar desorganização relevante nos preços dos títulos públicos.