Entre acenos a independentes e bolsonaristas, Flávio lança plano de segurança pública

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Com a campanha em crise após a queda nas pesquisas de intenção de voto, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem oscilado entre acenos a eleitores independentes e ao núcleo bolsonarista e vê na segurança pública um caminho para encontrar um discurso que possa atrair ambos os grupos. O pré-candidato à Presidência lança nesta quinta-feira, em São Paulo, um plano dedicado ao tema e deve voltar a defender que facções criminosas como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) sejam tratados como terroristas.A segurança pública se consolidou como uma das principais vitrines da candidatura. Em maio, Flávio viajou aos Estados Unidos e levou ao governo norte-americano uma ofensiva para que PCC e Comando Vermelho fossem classificados como organizações terroristas. A medida acabou sendo adotada posteriormente pelo presidente Donald Trump e passou a ser explorada por aliados do senador como uma demonstração de sua capacidade de articulação internacional.Leia tambémSTF estuda publicar regras consolidadas para prevenir ‘pautas-bomba’, diz DuriganDario Durigan busca apoio na Corte para travar avanço de propostas que trazem impacto às contas públicasLula volta a cobrar Conselho de Segurança da ONU por fim de guerra na UcrâniaO presidente brasileiro também se comprometeu a ligar para representantes e discutir o fim do conflito A aposta nessa agenda ganhou um novo capítulo na terça-feira quando, em um vídeo produzido com inteligência artificial, Flávio aparece pilotando um caça militar ao lado do pai enquanto ataca embarcações identificadas com as siglas das duas facções criminosas. A publicação foi acompanhada da mensagem: “Na próxima quinta-feira eu vou dar uma péssima notícia para o CV, o PCC e o PT. Me aguardem”.Segundo interlocutores do senador, o vídeo serviu como uma antecipação do anúncio de um conjunto de propostas para a área de segurança pública previsto para esta semana. A expectativa é que sejam apresentadas medidas voltadas ao combate ao crime organizado.Integrantes mais identificados com o bolsonarismo tradicional enxergaram o vídeo como um acerto da campanha. Defendida para uma eventual vaga de vice na chapa presidencial por Eduardo Bolsonaro, a deputada federal Julia Zanatta (PL-SC), identificada com o núcleo mais bolsonarista, apoiou a iniciativa.Líder da oposição na Câmara e integrante do mesmo partido de Flávio, o deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB) também saiu em defesa do endurecimento do discurso na área de segurança pública.— Sou um dos que mais cobram do Flávio uma postura mais firme contra o crime organizado, porque estou vivendo isso na pele lá no Nordeste. O momento exige isso. As facções estão dominando tudo. Quem está no Sul às vezes não tem ideia do que está acontecendo na Paraíba, em Pernambuco, no Rio Grande do Norte, no Ceará, no Maranhão e na Bahia. Eu cobro mesmo que ele fale mais sobre esse tema, mas não mando nele. Ele está dando atenção a um problema que ninguém aguenta mais — disse.Integrantes do grupo que defendem uma estratégia voltada aos eleitores independentes, porém, consideraram que a peça reforçou justamente os aspectos da candidatura que vinham sendo trabalhados para reduzir resistências fora da base bolsonarista. Na avaliação dessas pessoas, o combate ao crime organizado poderia ter sido apresentado sem recorrer a imagens associadas a confrontos militares ou à estética de guerra, com uma estética violenta.Tom vai variandoO endurecimento no discurso, com a defesa inclusive de castração química para condenados por crimes sexuais, tem se alternado com gestos direcionados a eleitores mais distantes do bolsonarismo. Ele afirmou nesta semana que o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, errou na relação com a imprensa, por exemplo, e defendeu bandeiras do governo Lula, como o Bolsa Família e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.Aliados dizem que não há como se posicionar contra temas que mexem com o eleitorado, como programas sociais, e a isenção do IR, mas veem movimentos “desencontrados” na campanha. Há um debate interno sobre qual perfil deve prevalecer na tentativa de conquistar os eleitores. De um lado, está a tentativa de emplacar o “Bolsonaro vacinado”, cuja imagem pública difere da de seu pai, ao mesmo tempo que mantém uma base radical do bolsonarismo, parte cristalizada de seus eleitores.A discussão ganhou força à medida que pesquisas analisadas pela campanha passaram a indicar que a maior parte do eleitorado bolsonarista já se encontra consolidada em torno da candidatura de Flávio. Entre auxiliares e estrategistas, há uma percepção unânime de que a eleição será decidida por um contingente de eleitores independentes que não se identifica integralmente nem com Lula nem com o estilo político que marcou a trajetória de Jair Bolsonaro.A defesa de uma candidatura mais moderada reúne integrantes da campanha envolvidos na análise de pesquisas e no desenho da estratégia eleitoral, além de aliados considerados mais pragmáticos. A avaliação compartilhada por esse segmento é que o eleitorado bolsonarista já está majoritariamente consolidado e que o crescimento da candidatura dependerá da capacidade de atrair eleitores independentes.Já interlocutores ligados ao núcleo mais ideológico do bolsonarismo defendem que Flávio preserve marcas associadas ao movimento liderado por seu pai. Esse grupo reúne aliados próximos do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), além de setores que avaliam que a candidatura não pode correr o risco de se afastar de sua base mais fiel.Nos últimos meses, Flávio passou a destacar com frequência diferenças em relação ao pai. Em entrevistas e eventos públicos, tem pontuado que tem uma personalidade diferente da do Bolsonaro pai, além de buscar demonstrar maior preocupação com temas sociais.— Eu obviamente tenho sangue de Bolsonaro. Eu defendo os mesmos princípios, as mesmas bandeiras. Agora, cada um tem um perfil diferente — disse em entrevista ao jornal mineiro O Tempo durante viagem recente a Minas Gerais.Na segunda-feira, durante participação no fórum Rumos do Brasil, promovido pela revista Veja, em São Paulo, o senador aprofundou essa estratégia. Defendeu o Bolsa Família, classificando o programa como uma garantia importante para famílias vulneráveis, manifestou apoio à isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e afirmou que o governo Bolsonaro errou ao adotar uma relação conflituosa com a imprensa.Ao comentar o tema, disse que pretende garantir liberdade de imprensa em um eventual governo e classificou como equivocada a forma como parte da gestão de seu pai tratou veículos de comunicação.Tentativa de ampliar eleitoradoAs declarações foram recebidas por aliados como mais um esforço para ampliar o alcance da candidatura entre eleitores que não integram o núcleo tradicional do bolsonarismo. A avaliação de integrantes dessa ala da campanha é que a transferência de votos do ex-presidente para o filho já ocorreu em grande medida e que o desafio agora é conquistar pessoas que ainda enxergam com desconfiança o grupo político liderado por Jair Bolsonaro.Poucos dias antes, porém, o próprio Flávio havia adotado um tom bastante diferente durante participação na Bahia Farm Show, em Luís Eduardo Magalhães (BA). Diante de produtores rurais, prometeu reduzir a maioridade penal, implementar a castração química para condenados por estupro e endurecer o combate às facções criminosas.No mesmo discurso, voltou a se referir ao PCC e ao Comando Vermelho como “narcoterroristas” e afirmou que integrantes dessas organizações teriam até o fim do ano para deixar o país ou seriam presos ou “neutralizados”.Questionado durante entrevista ao GLOBO sobre como a campanha pretende equilibrar setores que defendem um discurso mais duro e grupos que apostam em uma postura mais moderada para ampliar o alcance da candidatura, o coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), minimizou divergências e afirmou que diferentes visões convivem dentro do partido.— Todo partido grande tem grupos distintos que pensam de forma diferente. Essa é a nossa força e a nossa fragilidade: a multiplicidade de visões diferentes, que precisam convergir na mesma direção. O que nos une é a visão conservadora de mundo e a visão liberal da economia — disse na semana passada.Mudança na comunicaçãoHá cerca de duas semanas, o publicitário Eduardo Fischer assumiu oficialmente a estratégia de campanha de Flávio. Seu nome foi defendido pelo coordenador da campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN), e ele esteve em Brasília nesta semana para reuniões com o pré-candidato.A chegada de Fischer ocorreu após o afastamento de Marcello Lopes, o Marcellão, amigo pessoal de Flávio e um dos principais responsáveis pela estratégia que buscava apresentar uma versão mais leve do senador nas redes sociais. Foi sob sua influência que a campanha passou a apostar em conteúdos descontraídos, como vídeos de dança e peças voltadas à construção da imagem do dito “Bolsonaro vacinado”. Embora continue próximo do senador, Marcellão deixou de participar das principais decisões da campanha.The post Entre acenos a independentes e bolsonaristas, Flávio lança plano de segurança pública appeared first on InfoMoney.