Enquanto uma barragem de drones ucranianos descia sobre Moscou nas primeiras horas de quinta-feira (18), a resposta da Rússia parecia mais uma ação desorganizada do que um sistema de defesa estratégica bem planejado. Vídeos das ruas da capital mostraram vislumbres do caos que se seguiu.Imagens verificadas pela CNN e analisadas por especialistas mostram soldados disparando sistemas portáteis de defesa antiaérea, lançados do ombro, a partir de uma rodovia movimentada, enquanto o tráfego passa com cautela.Pessoas correm em busca de segurança enquanto um drone, provavelmente abatido pelas defesas aéreas russas, cai sobre um edifício em um mercado amplo.Em outro vídeo, o que parece ser um míssil de defesa russo provavelmente erra o alvo e acaba atingindo um tanque de armazenamento de petróleo nos arredores de Moscou.Um especialista em armas do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo afirmou à CNN que foi “um gol contra russo”, resultando em uma nuvem de fumaça em forma de cogumelo e no topo do tanque sendo lançado ao ar.O ataque de quinta-feira a Moscou, o maior desde o início da guerra em larga escala, foi mais um exemplo de como a estratégia da Ucrânia de sobrecarregar as defesas aéreas russas com drones parece estar funcionando.“A Rússia tem um histórico de sistemas antigos que não são 100% confiáveis”, disse Markus Schiller, pesquisador sênior do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, sobre a resposta desorganizada em Moscou. Já a Ucrânia, por outro lado, vem aprimorando continuamente suas capacidades de ataque “há anos”. Leia Mais Ataque de drones ucranianos mata 4 pessoas na Rússia Após ataque em refinaria, Rússia ameaça Ucrânia com ataques em larga escala Rússia faz "ataques massivos" contra Ucrânia e deixa pelo menos 11 mortos A Ucrânia vem intensificando ataques de longo alcance contra refinarias de petróleo e alvos militares russos desde 2024. Recentemente, conseguiu romper defesas russas em São Petersburgo e também atingiu Moscou repetidamente, levando a guerra para as duas maiores cidades da Rússia.“O vídeo que mostra o disparo de sistemas portáteis de defesa antiaérea (MANPADS) em uma rodovia movimentada é indicativo de uma resposta apressada, improvisada e, francamente, pouco profissional ao ataque. A ausência completa de controle de tráfego e o uso de equipamentos militares extremamente próximos de veículos e civis reforçam essa avaliação”, disse Stu Ray, analista sênior da McKenzie Intelligence Services.No início do conflito, a Rússia concentrou seus sistemas de defesa aérea na fronteira com a Ucrânia e na linha de frente, segundo fontes militares ucranianas ouvidas anteriormente pela CNN. Mas a estratégia de Kiev tem sido atingir diversos locais dentro de áreas ocupadas no leste da Ucrânia e na Rússia, forçando o país a dispersar seus sistemas de defesa aérea, tornando-os mais fragmentados.Kiev também tem atacado os próprios lançadores de defesa aérea há anos, assim como sistemas de detecção por radar, numa tentativa de enfraquecer a capacidade defensiva da Rússia.As Forças Armadas da Ucrânia afirmam ter destruído 166 “elementos antiaéreos” russos desde o início deste ano e mais de 1.432 desde o início da invasão em larga escala em 2022.Além disso, os sistemas de defesa aérea da Rússia não foram projetados para combater ataques de drones. Eles foram desenvolvidos para derrubar aeronaves militares convencionais, mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro, segundo Thomas Withington, pesquisador em ciências militares do Royal United Services Institute, em Londres.“As defesas aéreas da Rússia simplesmente não são adequadas para esse propósito, isso é muito claro”, disse Withington à CNN. “Elas não estão equipadas para detectar, rastrear e neutralizar esse tipo de ataque, e, a menos que haja uma grande reformulação do sistema de defesa aérea russo, isso continuará sendo o caso.”Withington observou que as sanções internacionais dificultaram o acesso de Moscou à tecnologia necessária para desenvolver novos sistemas capazes de enfrentar esses ataques ucranianos. “Mesmo que você consiga aumentar a produção, estará apenas ampliando a produção de sistemas de mísseis que nem estão cumprindo sua função”, disse ele.A crescente ameaça de drones obrigou o Kremlin a reduzir o desfile do Dia da Vitória na Praça Vermelha em maio, sem exibição de equipamentos militares, diferente de eventos anteriores, devido ao que o Ministério da Defesa russo chamou de “situação operacional atual”. Moscou também pressionou por um cessar-fogo temporário durante as celebrações.Ainda assim, especialistas afirmam que as defesas aéreas russas provavelmente estão abatendo uma grande porcentagem dos drones ucranianos. Na manhã de sexta-feira, o Exército russo afirmou ter derrubado 216 drones ucranianos em todo o país.O comandante das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, Robert Brovdi, disse em uma avaliação sobre as defesas aéreas da cidade de Moscou que a capital russa ainda contava, em meados de maio, com mais de 100 lançadores de defesa aérea e mais de 50 sistemas móveis “Pantsir”.No entanto, com a Ucrânia lançando mais de 100 drones em um único ataque, ao menos alguns deles provavelmente conseguem ultrapassar as defesas, mesmo que elas estejam bem abastecidas.Drones modernos também podem atravessar as defesas porque são mais difíceis de rastrear do que mísseis ou aeronaves maiores.“Eles podem aparecer no radar, mas há uma grande diferença entre detectar algo no radar e depois conseguir o que chamamos de um ‘rastreamento de qualidade’”, disse Withington.E centenas de drones vindos de múltiplas direções exigem um enorme nível de coordenação dos sistemas integrados de defesa aérea da Rússia, o que “não está acontecendo corretamente”, disse ele.Ataques repetidos e massivos de longo alcance pela Ucrânia levaram a especulações de que a Rússia também pode estar ficando com poucos armamentos de defesa.Especialistas alertam que é difícil saber como estão os estoques de mísseis de defesa do país, já que essa informação é altamente sigilosa. No entanto, os estoques inevitavelmente se desgastam se as salvas ucranianas continuarem grandes e frequentes.“Em termos da frequência e da gravidade dos ataques da Ucrânia contra a Rússia, todas as opções para a Rússia são ruins”, acrescentou Withington. “Acho que provavelmente é uma questão de os militares pensarem: qual é a opção menos ruim para tentar enfrentar o que estamos lidando por parte da Ucrânia.”