Volodymyr Zelensky aceitou uma oferta de Lula para ajudar a negociar um acordo de paz com a Rússia. O encontro entre os dois líderes ocorreu às margens da cúpula do G7, na França. O presidente ucraniano pediu aos aliados que aumentassem a pressão sobre Moscou para encerrar o conflito, que já dura mais de quatro anos.A analista de Internacional Fernanda Magnotta avaliou que o momento representa uma quebra de paradigma em relação aos últimos anos. Ela lembrou que Lula já havia demonstrado interesse anteriormente em se apresentar como mediador do conflito, mas teve suas credenciais negadas em diferentes ocasiões, tanto pelos americanos quanto pelos próprios ucranianos.“Quando estive na Ucrânia em fins de 2024, o presidente Zelensky, na conversa que tivemos, foi muito enfático em dizer que o Brasil não reunia as condições necessárias naquele momento”, afirmou Magnotta ao CNN 360º desta sexta-feira (19). Trump diz que pode impedir ataques de Israel ao Líbano: "Fazem o que mando" Após ataque em refinaria, Rússia ameaça Ucrânia com ataques em larga escala Trump diz que Lula é uma "pessoa muito volátil" em entrevista Para a analista, a mudança de cenário se deve a uma reconfiguração das posições dos atores envolvidos. Com a saída de Biden e a entrada de Trump nos Estados Unidos, havia a expectativa de que Washington pudesse ser o melhor intermediador, dado seu acesso a Moscou.No entanto, nem Trump conseguiu avançar de forma mais assertiva nessa direção. “Portanto, o Brasil volta à tona como uma alternativa viável“, destacou Magnotta.Segundo informações divulgadas por Kiev, Lula propôs diversas ideias durante o encontro bilateral, incluindo o contato com integrantes do Conselho de Segurança da ONU. Além disso, Zelensky teria pedido a Lula que ligasse para Vladimir Putin para intermediar um possível encontro pessoal ou uma chamada entre os dois líderes.Potencial diplomático brasileiroMagnotta elencou os elementos que credenciam o Brasil nesse papel. Em primeiro lugar, o país funciona como um agente capaz de se comunicar tanto com o Ocidente quanto com o Oriente, com capacidade de interlocução onde outros atores não conseguem.“O poder do Brasil não é um poder coercitivo, como seria o caso do papel de Trump e dos Estados Unidos. Mas tem sim uma capacidade que nesse momento é valorizada, que é o seu acesso político“, explicou a analista.Esse acesso junto a Rússia, China, países do sul global, Europa e Estados Unidos ajuda na criação de canais diplomáticos num momento em que eles estão fragmentados.A analista também destacou que o Brasil poderia trazer a China para um esforço diplomático mais estruturado. Segundo ela, Pequim tem se aproximado cada vez mais de Moscou por razões geopolíticas e econômicas, e o Brasil poderia ajudar a relativizar essa aproximação.Além disso, Magnotta ressaltou que o Brasil possui um amplo repertório histórico em medidas que criam condições intermediárias para um eventual cessar-fogo, como trocas de prisioneiros, segurança alimentar, proteção de infraestrutura civil, segurança nuclear e criação de corredores humanitários.“Tudo isso são mecanismos que muitas vezes não resolvem a guerra, mas desaceleram os danos, tanto econômicos quanto de vidas humanas”, afirmou.Desafios para a mediação brasileiraApesar da janela de oportunidade, Magnotta apontou obstáculos significativos. O primeiro deles é a chamada “sombra da crise de credibilidade” junto à Ucrânia.Embora essa desconfiança esteja momentaneamente amenizada, a analista ressaltou que, durante boa parte do conflito, Kiev considerou o Brasil excessivamente compreensivo com as posições russas. “Isso não é uma coisa que desaparece de uma hora para outra”, ponderou.Outro desafio apontado é a ausência de instrumentos de pressão direta sobre a Rússia. “O Brasil tem acesso político e abertura de canal com Moscou, mas não necessariamente exerce influência direta. O Brasil não tem instrumentos de pressão objetivos que possam fazer com que os russos recalculem a rota”, explicou Magnotta.Somam-se a isso as posições diametralmente opostas entre Rússia e Ucrânia: Moscou exige o reconhecimento dos ganhos territoriais no Donbas e na Crimeia, e Kiev rejeita qualquer concessão permanente e busca a aproximação com a OTAN e a União Europeia.A analista também alertou para a concorrência de outros canais diplomáticos, como Turquia, China, União Europeia e países do Golfo. “O Brasil acaba aparecendo como um país que precisa provar a que veio, mostrar qual é o valor agregado para que ele não seja apenas mais um“, disse.Por fim, Magnotta enfatizou que o desfecho da guerra continua condicionado a decisões que emanam de três centros gravitacionais de poder: Washington, Moscou e Pequim.“O Brasil pode facilitar, aproximar, propor, sugerir, mas quem tem que estar com a caneta na mão e disposto a sentar para conversar continuam sendo Trump, Putin e Zelensky, além dos chineses, evidentemente”, concluiu. 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