«Grande parte da exclusão resulta da falha em imaginar a presença de pessoas cegas», relata Andrew Leland, finalista do Pulitzer

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Andrew Leland descreve a cegueira não como uma tragédia, mas como uma forma diferente de habitar e ver o mundo. Começou a perder a visão na adolescência e desde então tem adaptado o seu trabalho a vários formatos e ângulos para partilhar vivências da comunidade cega e não só.Leland esteve na Feira do Livro de Lisboa para o lançamento da edição portuguesa do livro ‘Terra de Cegos’, publicada pela Access Lab, uma nova editora dedicada a histórias que promovem inclusão e transformação social.Na sua obra, distinguida por jornais como ‘The New Yorker’, ‘Washington Post’ ou ‘The Atlantic’ como um dos best books of the year, o autor norte-americano relata a sua transição para a comunidade cega, refletindo sobre identidade, pertença, trabalho, tecnologia e acessibilidade.Em entrevista exclusiva à Líder, explica porque continua a haver barreiras invisíveis para as pessoas com deficiência e porque o futuro da inclusão depende menos da compaixão e mais da capacidade de repensar a forma como desenhamos escolas, empresas, cidades e comunidades. O seu livro explora a tensão entre o mundo de quem vê e o mundo de quem não vê. Acredita que a sociedade continua a ser desenhada em torno da exclusão?Sim, embora a expressão ‘desenhada em torno da exclusão’ sugira um preconceito consciente. Eu penso que grande parte da exclusão que as pessoas cegas experienciam resulta de uma falha básica em imaginar sequer a presença destas pessoas.A maioria dos designers, quer estejam a projetar um edifício ou um website, um currículo escolar ou um festival, não considera a forma como as pessoas com deficiência irão experienciar esse projeto, a menos que a deficiência já faça parte da sua vida quotidiana ou que sejam obrigados por lei ou regulamentação a fazê-lo. Dito isto, quando as pessoas são confrontadas com a deficiência, a sua primeira reação é muitas vezes surpreendentemente hostil, uma resposta imediatamente defensiva. Escreve sobre adaptação, mas também sobre resistência. Houve momentos em que recusou adaptar-se às expectativas da sociedade sobre o que significa ser cego?Na verdade, um dos aspetos mais poderosos da minha adaptação à perda de visão foi precisamente essa recusa em me adaptar às expectativas da sociedade. Por exemplo, as normas sociais tendem a desencorajar a forma como uma pessoa cega se movimenta no espaço. Seguir uma parede até um canto pode parecer, para um observador que vê, um erro, e o impulso é corrigir a pessoa cega, agarrá-la pela manga e puxá-la de volta para a porta. Mas, para uma pessoa cega, tocar com a bengala num canto é o equivalente a olhar em volta de uma sala: é assim que recolhe informação valiosa sobre o ambiente.Para mim, que cresci a ver e ainda utilizo a visão residual que tenho, foi necessário muito trabalho para me sentir confortável a explorar espaços desta forma. Mas quanto mais o faço, mais livre me sinto e mais confortável comigo próprio.O que mais o surpreendeu nesta jornada?Depois de mergulhar na cultura da cegueira, fiquei surpreendido com o quão normal pode ser, no fundo, a vida de uma pessoa cega. A cegueira, para alguém que cresceu a ver, pode ser uma experiência profundamente desestabilizadora, assustadora e redutora. Mas isso é apenas o início.A maioria das pessoas cegas que recebe formação adequada e os recursos necessários acaba por descobrir que a cegueira é uma forma alternativa, mas ainda assim fundamentalmente normal e quotidiana de existir, tão cheia de alegrias e banalidades, de contrariedades e prazeres, como a vida de quem vê. Como disse Jorge Luis Borges numa conferência sobre a cegueira, ela não deve ser encarada como uma tragédia, mas apenas como mais um ‘estilo de viver’. Perder a visão está a mudar a forma como vê a identidade?Sim. Por muito que acredite no que disse anteriormente – que a cegueira é, em última análise, banal e paralela (se não mesmo convergente) à vida de quem vê – também é verdade que a cegueira constitui um universo próprio, um ‘país’ próprio. E, nesse sentido, existe uma comunidade e existe uma identidade. Uma das partes mais difíceis de ficar cego é o estigma, a perceção, por parte do mundo em geral, de que a cegueira é uma forma inferior e desvalorizada de viver.O melhor antídoto contra essa visão perniciosa é precisamente a identidade: o sentimento de orgulho e força que nasce da solidariedade identitária.Quais são os maiores equívocos que os empregadores continuam a ter sobre a cegueira no contexto profissional?A visão predominante sobre as pessoas cegas em ambientes profissionais compostos maioritariamente por pessoas que veem continua a ser excessivamente paternalista. É semelhante à forma como se olha para uma criança pequena: «Cuidado!», dizemos em voz alta. «Há facas afiadas nessa mesa!» Existe também uma tendência, sobretudo nos contextos profissionais, para assumir baixas expectativas. «Uma pessoa cega não conseguiria fazer este trabalho.» Como é que sabe isso, exatamente?Claro que existem profissões que exigem visão — um motorista de camião precisa de ver a estrada (pelo menos durante mais um ou dois anos, até os veículos autónomos superarem os condutores humanos). Mas, em vez de assumir que uma pessoa cega é incapaz de desempenhar uma determinada função, deveríamos perguntar como pode isso ser possível.As pessoas cegas têm uma longa história de inovação e engenho. Os profissionais deveriam cultivar curiosidade relativamente às técnicas e tecnologias que lhes permitem participar plenamente na educação e no trabalho.Esta experiência mudou a forma como pensa sobre produtividade e sucesso na sociedade atual?Tradicionalmente, pensamos na produtividade e no sucesso como qualidades inerentes ao indivíduo, algo que se manifesta através da disciplina, do trabalho árduo e assim por diante. A minha experiência de me tornar uma pessoa com deficiência mostrou-me até que ponto o sucesso depende frequentemente do acesso.Um brilhante professor universitário de matemática que seja cego, por exemplo, não conseguirá ter sucesso na sua universidade se a plataforma digital utilizada para gerir inscrições, classificações e materiais das disciplinas não for compatível com leitores de ecrã. Muitas vezes, estudantes e profissionais cegos são considerados preguiçosos, ou conclui-se que determinada área não é adequada para uma pessoa cega, quando a falta de sucesso resulta simplesmente da falta de acessibilidade.Acha que a maioria dos líderes compreende as barreiras invisíveis que as pessoas com deficiência continuam a enfrentar no trabalho e no dia a dia?Não. Penso que muitos líderes tendem a adotar precisamente a visão que referi anteriormente: a ideia de que o sucesso é uma medida da autodeterminação individual, sem considerar as barreiras estruturais que as pessoas com deficiência enfrentam.Que conversas sobre deficiência continuam ausentes dos media e da literatura mainstream?As representações culturais da deficiência tendem a concentrar-se na dimensão emocional da experiência: o luto que alguém sente quando adquire uma deficiência, a raiva e a frustração perante a exclusão ou a discriminação, ou o orgulho sentido ao ultrapassar um obstáculo.Tudo isso faz parte da experiência da deficiência, mas representa apenas uma pequena fração dela. Os media e a literatura precisam de mostrar um retrato mais completo: a banalidade do quotidiano, a sexualidade, a complexidade da experiência humana (a forma como a deficiência se cruza com outras dimensões da vida, como a raça ou o género).A tecnologia transformou a acessibilidade nos últimos anos. Sente-se otimista em relação ao futuro das comunidades cegas?A revolução digital tem sido uma espada de dois gumes para as pessoas cegas. Por um lado, nunca houve tanta informação disponível de forma tão imediata e em tantos formatos diferentes — áudio, braille ou letra ampliada.Por outro lado, os novos sistemas digitais criam também novas barreiras. Quando uma máquina substitui botões táteis por um ecrã tátil, torna-se inacessível sem feedback sonoro. Vejo esta dinâmica a prolongar-se no futuro. Já o observamos com a Inteligência Artificial, que está simultaneamente a criar oportunidades e obstáculos para pessoas cegas e para outras pessoas com deficiência.Perder a visão alterou a forma como vive a imaginação, a escrita e a narrativa? De que forma?Existe um velho conselho de escrita: «Leia o seu texto em voz alta para ouvir como soa.» Eu já nem preciso de fazer esse esforço. O meu leitor de ecrã lê cada frase que escrevo em voz alta, muitas vezes dezenas de vezes.Muitas pessoas receiam perder capacidades associadas à identidade e à autonomia. O que diria a alguém que enfrenta esses medos hoje?Parece inevitável que, quando alguém perde uma capacidade, tenha de fazer o luto dessa perda. Seria absurdo sugerir que perder parte ou a totalidade da visão, da audição, da mobilidade, da saúde mental ou da neurotipicidade não implica dor nem um sentimento de exclusão ou diminuição.Mas existe um corpo crescente de pensamento e uma história rica e profunda que demonstra de forma clara e irrefutável que existe um caminho para o génio e para a alegria na deficiência. Isso não acontece automaticamente. É preciso trabalhar para o encontrar, muitas vezes procurando mentores com deficiência e aquilo a que alguns chamam ‘doulas da deficiência’. Mas, quando os encontramos, abre-se diante de nós um mundo extraordinário e escondido.O que espera que os leitores, com ou sem experiência de deficiência visual, retirem de Terra de Cegos?Espero que reconheçam que as pessoas cegas vivem nas suas comunidades e que têm os mesmos desejos, medos, prazeres e pequenas excentricidades que qualquer outra pessoa. A única diferença é que, em algumas situações, precisam de técnicas alternativas.Essas técnicas — sejam sinais sonoros para atravessar a rua ou quiosques falantes para efetuar uma compra — não são formas inferiores ou diminuídas de aceder à informação. São simplesmente maneiras diferentes de chegar exatamente às mesmas coisas a que os demais têm acesso.O conteúdo «Grande parte da exclusão resulta da falha em imaginar a presença de pessoas cegas», relata Andrew Leland, finalista do Pulitzer aparece primeiro em Revista Líder.