Com sobra de energia, setor busca novas demandas para absorver excedente

Wait 5 sec.

Após anos preocupadas em ampliar a oferta, empresas de energia passaram a discutir como criar demanda. Em meio ao aumento dos cortes de geração renovável e às incertezas sobre novos investimentos, o setor vê em data centers, baterias e indústrias intensivas em energia uma saída para absorver o excedente de eletricidade e destravar uma nova rodada de aportes no país.O tema ganhou espaço nos debates do Enase, principal encontro do setor elétrico realizado nesta semana no Rio de Janeiro. A CEO da Spic Brasil, Adriana Waltrick, defende uma estratégia coordenada entre governo, reguladores e iniciativa privada para transformar a energia abundante em vetor de desenvolvimento econômico. Segundo a executiva, o país precisa criar condições para atrair grandes consumidores de energia, como data centers, projetos de aço verde e, futuramente, empreendimentos de hidrogênio de baixo carbono.“Temos que juntar programa de Estado, regulador e iniciativa privada para um grande plano de país”, diz a chefe da subsidiária da estatal chinesa no Brasil.Para a executiva, o leilão de baterias pode ajudar a enfrentar parte dos desequilíbrios atuais do sistema elétrico, criando mecanismos para armazenar energia produzida em momentos de baixa demanda e utilizá-la quando o consumo aumenta, mas não resolve o problema estrutural de uma economia que carece de atrair novas indústrias.O CEO da Atlas Renewable Energy no Brasil, Fabio Bortoluzo, afirma que o debate sobre excesso de energia exige cautela. Segundo ele, o problema está concentrado em determinados horários do dia, enquanto o atendimento da demanda nos períodos de ponta continua sendo um desafio para o sistema.Ainda assim, ele vê espaço para uma expansão importante do consumo de eletricidade nos próximos anos. Uma das apostas é o crescimento da indústria de data centers, impulsionada pelo avanço da digitalização e da inteligência artificial.“Vemos uma onda de data centers próximos aos grandes centros de consumo”, disse.Na avaliação do executivo, o Brasil ainda possui uma economia relativamente pouco digitalizada, o que abre espaço para o crescimento da computação em nuvem e da infraestrutura necessária para suportar esse mercado. A falta de perspectivas fez com que a empresa suspendesse US$ 1 bilhão em investimentos no Brasil.Além dos data centers, ele cita a eletrificação da frota de veículos e a produção de fertilizantes verdes como segmentos capazes de ampliar significativamente a demanda por energia no médio e longo prazo.Bortoluzo também aponta as baterias como parte importante da solução. A Atlas desenvolve atualmente projetos de armazenamento no Chile e considera a tecnologia uma das principais ferramentas para reduzir os efeitos dos cortes de geração renovável e viabilizar novos investimentos no setor.Já o CEO da Isa Energia Brasil, Rui Chammas, afirma que a demanda por novas cargas já começou a aparecer especialmente na região Sudeste, mas a falta de planejamento e falta de infraestrutura impedem a instalação destas cargas perto dos centros consumidores.“Não existe um mês que eu não receba três ou quatro empresários de data centers para trazer esse empreendimento para São Paulo”, afirmou.O desafio, segundo Chammas, é garantir que a infraestrutura elétrica acompanhe esse movimento. A implantação de novas linhas de transmissão pode levar cerca de quatro anos entre planejamento, licenciamento e construção, exigindo antecipação do setor para atender futuras cargas.