Quando o ‘verde’ deixa de soar bem

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De facto, saltou de notícia de moda para tema de discussão mais ampla sobre criatividade, circularidade e o futuro da própria indústria, precisamente porque o que está em causa não é apenas uma colaboração entre uma marca e um designer, mas sim a forma como se reinterpreta valor a partir de materiais já existentes, dando-lhes uma segunda vida que não é apresentada como compromisso moral, mas como objeto de desejo, com muito valor.Na prática, o que a colaboração faz é pegar em peças e materiais de coleções anteriores, reprocessá-los e reinterpretá-los através da linguagem estética de Galliano, transformando aquilo que poderia ser excesso de produção ou stock encalhado, numa narrativa de luxo e intencionalidade criativa, onde a ideia de reutilização deixa de ser um gesto discreto de eficiência e passa a ser o centro da proposta estética e comercial, quase como se dissesse que o futuro da moda não está apenas em produzir melhor, mas em aprender a olhar de forma diferente para aquilo que já foi produzido.Durante anos a sustentabilidade viveu, em grande medida, na camada da comunicação, onde bastava frequentemente afirmar intenções através de palavras como eco-friendly, conscious ou verde para que uma marca ocupasse um espaço simbólico positivo, mesmo quando a ligação entre discurso e evidência era, muitas vezes, difusa ou difícil de escrutinar pelo consumidor comum.Esse tempo está a mudar de forma estrutural.A União Europeia está a montar um enquadramento regulatório que altera profundamente a forma como se pode falar de sustentabilidade, começando pela Empowering Consumers for the Green Transition Directive, que limita o uso de linguagem genérica e obriga a que expressões como verde ou amigo do ambiente tenham sempre suporte em evidência verificável e proporcionada, e avançando depois para a Green Claims Directive, que eleva o nível de exigência ao ponto em que já não basta evitar exageros, sendo necessário demonstrar metodologias, dados consistentes e, em muitos casos, validação independente que suporte aquilo que se afirma.Ao mesmo tempo, entram em cena instrumentos como o Digital Product Passport, que atribui ao produto uma espécie de identidade digital com informação sobre origem, composição, impacto ambiental e potencial de reparação, a CSRD que obriga as empresas a reportarem de forma estruturada e auditável os seus impactos, e a CSDDD que exige que essas mesmas empresas deixem de olhar apenas para dentro de portas e passem a gerir riscos e impactos ao longo de toda a cadeia de valor, desde fornecedores até ao fim de vida do produto.O efeito combinado disto tudo é simples de enunciar, ainda que exigente de executar, e traduz-se no facto de que aquilo que antes podia ser fragmentado entre departamentos — sustentabilidade num lado, operações noutro, marketing noutro ainda e procurement noutro espaço completamente separado — passa a ter de funcionar como um sistema integrado, onde o que se comunica depende diretamente do que se compra, do que se produz, do que se mede e do que se consegue efetivamente provar em qualquer ponto da cadeia.É aqui que o caso Zara x Galliano ganha verdadeira relevância, porque deixa de ser apenas um exemplo de criatividade aplicada à circularidade para passar a ser um sinal de como as empresas vão ter de alinhar estratégia, operações, cadeia de valor, governação e comunicação num único fluxo coerente.E talvez essa seja a mudança mais profunda de todas, mais do que a linguagem, mais do que a regulação, mais até do que a própria sustentabilidade enquanto tema, que é o facto de as empresas deixarem de poder funcionar em silos paralelos e passarem a ter de operar como um organismo único, onde o que se diz fora é inevitavelmente o reflexo do que se faz dentro, e onde a comunicação deixa finalmente de ser um exercício isolado de storytelling para se tornar o espelho de um sistema inteiro que precisa de estar coordenado para poder, simplesmente, ser acreditado.O conteúdo Quando o ‘verde’ deixa de soar bem aparece primeiro em Revista Líder.