Três produtos, um país: como o vinho, o azeite e a cortiça continuam a sustentar uma paisagem inteira

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No entanto, quando se observam as exportações nacionais e se segue o rasto do dinheiro que entra em Portugal vindo do exterior, reaparecem velhos conhecidos. A vinha continua a subir as encostas do Douro. A oliveira domina vastas extensões do Alentejo. O sobreiro cresce lentamente nos montados do sul.E é dessa persistência, mais do que de qualquer moda económica passageira, que continuam a nascer três dos produtos mais emblemáticos da economia portuguesa: o vinho, o azeite e a cortiça.Numa época em que o discurso económico é dominado pela inteligência artificial, pelos semicondutores e pelas plataformas digitais, estes três setores recordam uma evidência frequentemente esquecida. Uma parte substancial da riqueza nacional continua a depender da terra, do clima e de um conhecimento acumulado ao longo de gerações.Juntos, representam milhares de empresas, dezenas de milhares de postos de trabalho e uma presença internacional que poucos setores nacionais conseguem igualar.O vinho continua a ser o grande embaixadorPoucos produtos portugueses possuem a capacidade de projeção internacional do vinho. Há décadas que o país constrói parte da sua reputação económica através de garrafas que atravessam fronteiras e chegam a consumidores espalhados pelos cinco continentes.Apesar das dificuldades que atravessam o setor a nível global, o vinho continua a apresentar números impressionantes. Em 2025, segundo a AICEP, as exportações portuguesas atingiram 954 milhões de euros, mantendo-se próximas da barreira simbólica dos mil milhões. França, Estados Unidos, Reino Unido e Brasil permanecem entre os principais destinos das vendas nacionais. A dimensão económica do setor vai muito além das exportações. Segundo uma análise da Informa D&B, as receitas agregadas das 43 principais empresas portuguesas do setor cresceram cerca de 2% em 2025, atingindo aproximadamente 1,3 mil milhões de euros.Os números ajudam a compreender a importância da fileira. Em 2024 estavam registadas cerca de 1.430 empresas ligadas ao setor, empregando mais de 12 mil trabalhadores. Mas os sinais de preocupação acumulam-se.A produção provisória para a campanha 2025-2026 caiu para cerca de 6,2 milhões de hectolitros, menos 10,5% do que no ano anterior, que já tinha registado uma quebra relevante. O recuo está associado a condições meteorológicas adversas e confirma uma tendência que os produtores acompanham com crescente apreensão.Ao mesmo tempo, o setor enfrenta um contexto internacional mais difícil. O consumo mundial abranda, os custos de produção permanecem elevados e os mercados tornaram-se mais competitivos. Num país que fez do vinho um dos seus maiores cartões de visita, o desafio passa agora por continuar a crescer através da valorização e não apenas do aumento de volume. O azeite tornou-se uma potência silenciosaSe o vinho continua a ser a face mais visível da agricultura portuguesa, o azeite representa provavelmente a mais impressionante transformação económica ocorrida no mundo rural português desde a entrada do país na União Europeia.A mudança aconteceu longe dos centros financeiros, das bolsas e dos parques tecnológicos que costumam dominar as narrativas sobre crescimento económico. Foi desenhada no Alentejo, entre barragens, estações de bombagem, lagares modernos e milhares de hectares de olival que alteraram profundamente a paisagem do sul do país. O que durante décadas foi visto como um setor tradicional, associado sobretudo ao consumo interno, transformou-se numa das mais relevantes histórias de sucesso das exportações agroalimentares portuguesas.Os números ajudam a perceber a dimensão dessa transformação. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, Portugal produziu cerca de 180 mil toneladas de azeite em 2024, a segunda maior campanha de sempre registada no país, apenas superada pelo recorde alcançado no ano anterior. O resultado confirmou a consolidação de uma tendência que se tornou evidente ao longo das últimas duas décadas: Portugal deixou de ser um produtor periférico para assumir um lugar entre os principais produtores europeus de azeite.A evolução é particularmente significativa quando observada em perspetiva histórica. No início deste século, a produção nacional oscilava frequentemente abaixo das 50 mil toneladas anuais. Hoje, os volumes são mais de três vezes superiores, resultado direto da modernização agrícola, da expansão do regadio e da entrada em produção de extensas áreas de olival intensivo e superintensivo.Também o comércio externo revela a nova dimensão do setor. Dados compilados pela Casa do Azeite, com base em informação do INE, mostram que Portugal exportou mais de 235 mil toneladas de azeite em 2024, um dos valores mais elevados da sua história recente. O produto chega atualmente a dezenas de mercados internacionais e tornou-se uma presença regular em países tão distintos como Brasil, Estados Unidos, França, Espanha ou Japão.No centro desta transformação encontra-se a Sovena, o maior grupo português do setor e um dos principais operadores internacionais da indústria oleícola. A empresa, que comercializa marcas distribuídas por vários continentes, simboliza uma mudança que vai muito além do crescimento agrícola: a passagem de Portugal de produtor tradicional para ator global numa indústria altamente competitiva.Mas a ascensão do azeite português não se resume a uma história de números. A mesma expansão que trouxe investimento, exportações e emprego abriu igualmente um debate sobre o futuro da agricultura mediterrânica. A utilização da água proveniente do Alqueva, a concentração da propriedade, os modelos intensivos de produção e a sustentabilidade ambiental tornaram-se temas centrais numa discussão que ultrapassa largamente as fronteiras nacionais.Ainda assim, poucos setores conseguem apresentar uma trajetória tão clara. Em pouco mais de vinte anos, Portugal multiplicou a sua produção, conquistou mercados internacionais e transformou um produto ancestral num dos pilares da economia agroalimentar nacional. O azeite continua a nascer das mesmas oliveiras que fazem parte da paisagem portuguesa há séculos. A diferença é que hoje chega ao mundo inteiro.A cortiça continua a ser uma exceção portuguesaA cortiça permanece uma exceção notável. Portugal continua a ocupar uma posição dominante num setor cuja matéria-prima depende de condições ecológicas muito específicas. O conhecimento acumulado ao longo de gerações continua a constituir uma vantagem difícil de reproduzir.Os montados de sobreiro estendem-se por centenas de milhares de hectares e formam uma das paisagens mais características da Península Ibérica. À primeira vista, podem parecer apenas um elemento da paisagem rural. Na realidade, representam uma das mais importantes reservas de riqueza da economia portuguesa.A cortiça viveu vários momentos em que o seu futuro pareceu ameaçado. Durante anos, a expansão das rolhas sintéticas e das cápsulas metálicas alimentou previsões sobre o declínio inevitável do setor. Muitas revelaram-se precipitadas. Em vez de desaparecer, a indústria respondeu através da inovação tecnológica, da melhoria dos processos de produção e da diversificação das aplicações industriais.Hoje, a cortiça portuguesa está presente muito para além das garrafas de vinho. É utilizada em materiais de construção, isolamento térmico, design, indústria automóvel, aeronáutica e até em projetos espaciais. A capacidade de adaptação permitiu ao setor reduzir a dependência de um único mercado e reforçar a sua resiliência perante ciclos económicos adversos.A Corticeira Amorim continua a simbolizar essa trajetória. Tornou-se uma multinacional de referência e um exemplo raro de liderança global construída a partir de uma matéria-prima profundamente ligada ao território nacional.Num contexto internacional marcado por tensões comerciais e crescente competição, a cortiça mantém uma vantagem que poucos setores conseguem reivindicar: não existem muitos lugares no mundo capazes de oferecer aquilo que Portugal produz. O país que continua a vender paisagemA maior singularidade destes três setores reside precisamente no facto de continuarem relevantes numa economia que mudou quase tudo à sua volta. Portugal exporta hoje software, componentes automóveis, tecnologia médica e serviços digitais. Mas continua também a exportar aquilo que exportava muito antes de ouvir falar de globalização.Poucos ativos económicos exigem tanta paciência. Uma vinha demora anos a atingir maturidade. Um olival é um investimento para décadas. Um sobreiro precisa de uma geração inteira para produzir cortiça de qualidade. Estes três produtos recordam que algumas formas de riqueza continuam a depender do tempo e quando Portugal exporta uma garrafa de vinho, uma embalagem de azeite ou uma rolha de cortiça, está a vender território, clima, memória e conhecimento acumulado. Está, em última análise, a vender uma paisagem inteira.O conteúdo Três produtos, um país: como o vinho, o azeite e a cortiça continuam a sustentar uma paisagem inteira aparece primeiro em Revista Líder.