Bem-vindo ao forno europeu: El Niño, incêndios e o aumento das mortes associadas ao calor extremo

Wait 5 sec.

A realidade estatística é tão seca quanto as florestas. Os sistemas de monitorização europeus têm registado um aumento significativo na frequência e intensidade de episódios de calor extremo nas últimas décadas, num padrão consistente com as projeções do IPCC, que apontam para uma Europa cada vez mais exposta a ondas de calor mais longas, mais frequentes e mais severas.Estima-se que 62.775 pessoas tenham morrido devido ao calor na Europa durante o verão de 2024, segundo um estudo liderado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), publicado na revista científica Nature Medicine, que analisou dados de mortalidade em 32 países europeus. Sessenta e dois mil. Uma cifra que passa despercebida nos telejornais, absorvida pelos murmúrios da contabilidade do sofrimento contemporâneo.Além disso, o fenómeno El Niño regressou ao Pacífico num momento em que a atmosfera já acumulava calor suficiente para amplificar qualquer instabilidade adicional, funcionando menos como explicação isolada e mais como acelerador de tendências já em curso. Nesse contexto, várias projeções internacionais apontam para um agravamento do risco de incêndios florestais a nível global em 2026, num cenário descrito como particularmente severo por centros de monitorização climática, em que a combinação entre temperaturas elevadas, seca prolongada dos solos e vegetação altamente inflamável aumenta a probabilidade de eventos extremos.Em Portugal, essa realidade deixa de ser abstrata quando confrontada com a escala do território ardido: cerca de 270 mil hectares em 2025, num país onde o verão já não se mede apenas em graus Celsius, mas em extensão de paisagem perdida. Cada ano acrescenta uma camada ao mesmo padrão estrutural — períodos de calor mais longos, secura mais persistente e incêndios mais intensos — num ciclo que transforma o excecional em recorrente e o recorrente em previsível.O custo de pôr fogo ao futuroOs incêndios florestais são habitualmente medidos em hectares, mas a verdadeira dimensão da catástrofe raramente cabe numa estatística. Segundo o Tribunal de Contas Europeu, os fogos provocam prejuízos económicos na ordem dos dois mil milhões de euros por ano na União Europeia, um valor que inclui danos em habitações, infraestruturas, atividades agrícolas e recursos naturais. Só em 2024, mais de 380 mil hectares arderam no espaço europeu, enquanto os incêndios registados em anos recentes continuaram a causar vítimas mortais e a pressionar sistemas de proteção civil já sobrecarregados.Os impactos não terminam quando as chamas são extintas: estudos citados pelas instituições europeias apontam para perdas crescentes no turismo, na produtividade agrícola e na disponibilidade de água, com custos que poderão multiplicar-se nas próximas décadas à medida que as ondas de calor e as secas se tornem mais frequentes.A resposta europeia aos incêndios continua a revelar uma contradição persistente. Apesar da crescente evidência de que a prevenção é mais eficaz e menos dispendiosa do que o combate, a maior parte dos recursos continua a ser canalizada para apagar fogos já em curso. Em 2022, os danos provocados pelos incêndios florestais na União Europeia foram estimados em pelo menos dois mil milhões de euros, levando a Comissão Europeia e o Banco Mundial a defender um reforço dos investimentos preventivos. A lógica é simples: segundo um estudo conjunto das duas instituições, cada euro investido na prevenção pode poupar cerca de dois euros em prejuízos futuros.O problema é que a política europeia continua frequentemente a agir depois da ignição e não antes dela. Num continente cada vez mais quente e seco, essa estratégia assemelha-se à de um proprietário que investe todos os anos numa companhia de seguros, mas nunca repara o telhado por onde entra a chuva.Apesar do discurso oficial de transição energética, a Europa continua estruturalmente dependente dos combustíveis fósseis, um paradoxo que os relatórios internacionais descrevem com crescente desconforto. Segundo o Fundo Monetário Internacional, os subsídios diretos e indiretos à energia fóssil continuam a representar centenas de milhares de milhões de dólares por ano a nível global, incluindo mecanismos fiscais e custos ambientais não refletidos no preço final da energia. Na prática, trata-se de um sistema económico que ainda subsidia aquilo que contribui para agravar o problema que diz querer resolver.A ironia é difícil de ignorar: enquanto os Estados-membros investem milhares de milhões em adaptação às alterações climáticas,  continuam simultaneamente a suportar estruturas financeiras que tornam esse esforço mais caro e mais urgente. É uma espécie de dupla contabilidade climática, onde o mesmo sistema paga para apagar o fogo e para alimentar o combustível que o provoca.O forno espreitaAs previsões meteorológicas para o final de junho e início de julho apontam para temperaturas persistentemente acima da média em grande parte da Europa Ocidental, incluindo a Península Ibérica, num contexto em que sucessivas massas de ar quente provenientes do Norte de África continuam a alimentar episódios de calor extremo desde França até à Alemanha. Embora os meteorologistas evitem prever com semanas de antecedência a duração exata de futuras ondas de calor, os modelos sazonais do Centro Europeu de Previsão Meteorológica (ECMWF) e os alertas emitidos por diversos serviços nacionais convergem numa mesma conclusão: o continente entrou no verão sob uma anomalia térmica significativa, com riscos acrescidos para a saúde pública, para os recursos hídricos e para a propagação de incêndios florestais.Este é o futuro que escolhemos com cada subsídio ao petróleo. Com cada relatório que não vira lei ou vira lei mas não é cumprida. É um incêndio que ninguém apaga porque metade de nós está ocupada a fazer negócio com o combustível. Bem-vindo ao quase verão de 2026. Não trouxe guarda-chuva e não há nuvem que chegue.O conteúdo Bem-vindo ao forno europeu: El Niño, incêndios e o aumento das mortes associadas ao calor extremo aparece primeiro em Revista Líder.