Por amor de Deus, para reformar não é preciso humilhar os mais frágeis

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A história ensinou-nos até onde pode conduzir uma sociedade quando começa a dividir as pessoas entre as que considera merecedoras e as que passa a olhar com suspeita. Guardadas todas as proporções históricas, vale a pena recordar essa lição sempre que discutimos políticas públicas dirigidas aos mais vulneráveis. Porque a forma como tratamos quem vive na pobreza, na doença, na deficiência ou na dependência diz muito mais sobre a nossa humanidade coletiva do que sobre os mecanismos administrativos que criamos para os apoiar.A discussão em torno da futura Prestação Social Única tem vindo a ganhar espaço no debate público português. E ainda bem. Durante demasiado tempo, a pobreza foi tratada como uma estatística incómoda que surgia nos relatórios anuais, nos programas eleitorais ou nos discursos institucionais apenas para desaparecer novamente da agenda coletiva assim que os ciclos mediáticos encontravam novos temas de atenção.No entanto, a criação desta nova prestação social obriga-nos a refletir sobre uma questão mais profunda, mais exigente e talvez mais desconfortável do que a simples reorganização administrativa dos apoios existentes: que visão temos, afinal, das pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade? Porque a forma como desenhamos políticas públicas revela sempre algo sobre a forma como olhamos para aqueles a quem elas se destinam. E, por vezes, aquilo que revelamos sobre nós próprios é mais importante do que aquilo que julgamos estar a resolver.Os números ajudam-nos a compreender a dimensão do desafio, mas não esgotam a sua complexidade. Em Portugal, a taxa de risco de pobreza situa-se nos 15,4%, abrangendo cerca de 1,7 milhões de portugueses. Trata-se do valor mais baixo das últimas décadas, facto que merece ser reconhecido. Contudo, a celebração estatística não pode obscurecer a realidade humana que continua a existir por detrás destes indicadores. Estamos a falar de famílias que vivem permanentemente na fronteira da incerteza, de idosos cuja reforma mal cobre as despesas essenciais, de trabalhadores que, apesar de cumprirem diariamente as suas responsabilidades profissionais, permanecem em situação de pobreza, de jovens sem perspetivas consistentes de mobilidade social e de crianças que iniciam a vida carregando desigualdades que não escolheram.Mais revelador ainda é o facto de sabermos que, sem o sistema de prestações sociais e sem as pensões, a taxa de pobreza em Portugal assumiria proporções dramaticamente superiores. Este dado deveria bastar para encerrar uma discussão que periodicamente regressa ao espaço público: o Estado Social não é um luxo ideológico.É um dos pilares fundamentais da estabilidade democrática, da coesão social e da própria dignidade humana.Existe, porém, um problema que não deve ser ignorado. Ao longo das últimas décadas fomos acumulando prestações, exceções, regimes especiais e mecanismos de proteção que procuraram responder a necessidades legítimas, mas que acabaram por gerar um sistema excessivamente fragmentado e burocraticamente complexo. Atualmente existem cerca de vinte e sete prestações sociais distintas, frequentemente assentes em critérios diferenciados e processos que se sobrepõem. Para quem observa esta realidade a partir de uma perspetiva técnica, trata-se sobretudo de um problema de eficiência administrativa. Para quem vive uma situação de fragilidade económica ou social, trata-se muitas vezes de algo mais sério: uma barreira concreta ao exercício de direitos fundamentais. A burocracia é frequentemente uma forma invisível de exclusão. E talvez uma das maiores virtudes da Prestação Social Única resida precisamente na tentativa de simplificar um sistema que se tornou demasiado complexo para aqueles que mais dele necessitam.Mas seria um erro reduzir esta discussão a uma questão de arquitetura institucional. Porque a vulnerabilidade não é um problema contabilístico. A vulnerabilidade é uma experiência humana. Tem rosto, tem história, tem contexto e tem circunstâncias que dificilmente cabem em formulários ou indicadores estatísticos. Cruza-se com a pobreza, mas também com a doença, com a deficiência, com a dependência, com o envelhecimento, coma solidão, com a fragilidade familiar, com a precariedade laboral e com a ausência de oportunidades. E é precisamente por isso que qualquer reforma nesta área deve começar por uma atitude de humildade intelectual.Quem trabalha diariamente junto destas realidades sabe que não existem respostas simples para problemas profundamente complexos. É por essa razão que a Prestação Social Única não se constrói nos extremos. Constrói-se no terreno. Constrói-se ouvindo aqueles que todos os dias lidam com as consequências concretas da exclusão social e da fragilidade humana. Constrói-se ouvindo as Misericórdias, as IPSS, as associações comunitárias, os profissionais de intervenção social e todos aqueles que conhecem os nomes que habitam por detrás dos números. São estas instituições que compreendem aquilo que os relatórios raramente conseguem captar, que a vulnerabilidade não é uma categoria abstrata, mas uma condição humana que exige proximidade, escuta e acompanhamento.As Misericórdias, em particular, transportam séculos de experiência acumulada na promoção da dignidade humana. Estão presentes quando a pobreza se cruza com a doença, quando o desemprego se prolonga, quando a dependência se instala, quando o envelhecimento fragiliza ou quando a solidão se torna tão pesada quanto a própria carência material. E talvez por isso devam ocupar um lugar central nesta reflexão nacional. O que verdadeiramente me preocupa neste debate não é a discussão sobre modelos administrativos ou mecanismos de elegibilidade. O que me preocupa é a possibilidade de, mesmo involuntariamente, continuarmos a alimentar uma visão moralista da vulnerabilidade. Uma visão que observa os beneficiários de apoios sociais através da lente da suspeita, como se a necessidade tivesse permanentemente de ser justificada ou como se a fragilidade fosse uma falha de caráter e não uma circunstância da vida.Sempre que uma sociedade começa a exigir aos mais frágeis demonstrações adicionais de merecimento, aproxima-se perigosamente de uma lógica onde a ajuda deixa de ser um instrumento de inclusão para se transformar numa forma subtil de estigmatização. E talvez seja precisamente aí que a memória histórica nos deve inquietar. Não porque estejamos perante realidades comparáveis, mas porque todas as formas de desumanização começam da mesma maneira, quando deixamos de ver uma pessoa e passamos a ver uma categoria, quando deixamos de reconhecer uma história e passamos a avaliar um mérito, quando a dignidade deixa de ser um ponto de partida e passa a ser uma recompensa.É precisamente por isso que as notícias recentes sobre a possibilidade de jovens com deficiência ou com doença oncológica poderem vir a estar sujeitos a determinadas obrigações de trabalho social para acederem à futura Prestação Social Única merecem uma reflexão particularmente séria e desapaixonada. Não porque a autonomia, a participação ou a integração social sejam objetivos errados são, aliás, objetivos desejáveis para qualquer sociedade democrática, mas porque existe uma diferença fundamental entre promover a participação e presumir capacidade, entre incentivar a autonomia e ignorar a complexidade das circunstâncias humanas.Quando o debate público chega a este ponto, já não estamos apenas a discutir prestações sociais. Estamos a discutir a forma como entendemos a dignidade humana. Quem trabalha diariamente com situações de vulnerabilidade sabe que nem todas as limitações são visíveis. Há fragilidades que não cabem numa percentagem administrativa e há cicatrizes que não aparecem em relatórios médicos. Uma criança ou um adolescente que enfrenta uma doença oncológica não trava apenas uma batalha clínica. Enfrenta interrupções escolares, isolamento social, medos difíceis de verbalizar, sequelas físicas e emocionais que podem prolongar-se muito para além do último tratamento. A recuperação raramente é linear e quase nunca termina no momento em que o sistema de saúde considera o processo encerrado.Conheço esta realidade de forma particularmente próxima e pessoal. Sei o que significa ouvir um diagnóstico de cancro numa idade em que a vida deveria ser apenas uma promessa. Sei o que significa viver entre a esperança e a incerteza, entre a força que somos obrigados a encontrar e a vulnerabilidade que aprendemos a esconder. Talvez por isso me custe aceitar qualquer abordagem que, ainda que involuntariamente, possa transmitir a ideia de que pessoas que enfrentam estas circunstâncias devam continuar a provar à sociedade que merecem compreensão, apoio ou solidariedade.Porque existe uma linha que não devemos ultrapassar. A linha que separa a responsabilização da humilhação. Uma sociedade democrática tem o direito de promover autonomia, participação e integração. Tem o dever de criar condições para que cada pessoa possa reconstruir o seu percurso de vida. Mas nunca deve perder de vista que o combate à pobreza, à exclusão e à doença começa pelo reconhecimento incondicional da dignidade humana. E essa dignidade não pode depender da condição económica, da situação profissional, do estado de saúde ou da capacidade de uma pessoa justificar perante terceiros as dificuldades que enfrenta.Quando a fragilidade se transforma em suspeita, quando a ajuda passa a exigir demonstrações permanentes de merecimento, deixamos de estar perante uma política social e começamos a aproximar-nos de uma forma subtil de desumanização. Convém recordar que as grandes derrotas morais raramente começam com atos de crueldade explícita …O conteúdo Por amor de Deus, para reformar não é preciso humilhar os mais frágeis aparece primeiro em Revista Líder.